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Temporada de Caetano em SP tem ingressos a R$ 500

05-06-2008

Reprodução

"Diferentemente de Osama e Condoleezza/Eu não acredito em Deus", canta o músico, em Diferentemente, que fez há apenas seis dias

Em shows beneficentes, ele mostra seu novo álbum, A Foreign Sound, que reúne standards norte-americanos de todos os tempos

   São Paulo - Papa da "baianidad", Caetano Veloso agora também é o mestre-sala da bacanidade. Na sexta, estreou no club Baretto, apêndice do Hotel Fasano, em São Paulo, um show de exceção do cantor baiano, num local para pouco mais de 40 convivas e ao preço único de R$ 500. Caetano tem 12 shows marcados ali - quatro no fim de semana -, nos quais mostra o repertório do novo disco, A Foreign Sound, que lança em março. Não tem como ver, está tudo esgotado. O publicitário Nizan Guanaes pagou R$ 1 mil para ver o show duas vezes na mesma noite. Até o New York Times veio ver. A renda dos concertos vai para o Hospital do Câncer da Fundação Pio XII, de Barretos (interior de São Paulo). Na estréia, o neo-bacana Caetano mostrou sua versão intimista, acústica, de um punhado de standards norte-americanos de todos os tempos.

   Os puristas órfãos do grunge vão querer morrer com sua versão bossa de Come as You Are, do Nirvana, à base de violoncelo, guitarra e percussão. Ao final, levanta e dança entre a platéia. Os carnavalizantes vão adorar o bolerão The Carioca (Gus Kahn/Vicente Youmans/Edward Eliseu), visão gringa do Brasil dos anos 30 que Caetano absorve (e absolve), apenas anabolizando a percussão. "Eu errei a letra toda. Mas a letra é uma bobagem tão grande. Mas as partes bonitas eu lembrei, que interessante." Ao cantar Sophisticated Lady, de Duke Ellington, numa versão lânguida ao estilo Cassandra Wilson, o cantor explicou: "É uma canção difícil de cantar, eu achava que não ia ter coragem." Mais adiante, continuou. "São canções tão cantadas. Que diabos eu posso fazer mais por elas?"

   Amante do jogo metalingüístico, Caetano enxerta no novo show a questão dos idiomas e das relações culturais entre eles, uma preocupação que perpassa as músicas que ele escolheu. Por exemplo: Não Tem Tradução (de Noel Rosa, Francisco Alves e Ismael Silva), que abre o show. "Tudo aquilo que o malandro pronuncia/Com voz macia/É brasileiro, já passou de português", diz a letra. "São canções americanas, mas que são brasileiras porque a gente ouviu todas por aqui", pondera o cantor. "Eu tenho dois filtros pelos quais essas canções passam: a bossa nova, que é um filtro de refinamento; e o tropicalismo, que é um filtro de ironia. Mas nada disso seria possível sem São Paulo", ele diz, para depois chamar Carlos Fernando, ex-Nouvelle Cuisine, para cantar consigo Sampa, seu hino à paulicéia. É um dueto improvisado. Ao final, ele dá um beijo na boca do parceiro de microfone.

   Elvis, Cole Porter e Osama - No meio de tudo, ele mostra uma canção novíssima, que fez há apenas seis dias, Diferentemente. "Acho que ouvi/Numa canção de Madonna/When you look at me/I don’t know who I’m/Eu nunca imaginei que nesse mundo/Alguma vez alguém soubesse quem é", diz a letra inédita. Mas é o seu refrão que faz o portentoso PIB paulistano presente ao Baretto vibrar: "Diferentemente de Osama e Condoleezza/Eu não acredito em Deus." "E é boa, hein? É boa a danada da música. Não sei como fiz tão depressa", gaba-se o cantor, imodesto.

   No medley de Baby, dele mesmo, e Diana, de Paul Anka, Caetano se aproxima da bossa eletrônica e termina como numa marchinha. Já So In Love, de Cole Porter, ficou sombria, até com alguns excessos do violoncelo. Nature Boy o público mais jovem vai reconhecer da trilha de Moulin Rouge, na qual foi cantada por Ewan McGregor. Ele despe os principais standards, como Summertime, de suas ambições orquestrais, e os cobre de tamborins, timbaus, pratos, pandeiros e batida sintetizada (cortesia de Domenico Lancelotti). Canta Love for Sale a capela, e empresta a Body and Soul a guitarra mais econômica do mundo (de Pedro Sá). A Foreign Sound tem 26 canções já gravadas, revelou Caetano. Ele se penitenciou de não ter incluído Prince no seu arcabouço das canções clássicas americanas, mas não se esqueceu de Elvis Presley. Ao som de um tecladinho de presépio, quase uma brincadeira, Love me Tender fecha o bonito show de Caetano com chave de ouro. (Jotabê Medeiros)

(© estadao.com.br)

A amizade de Caetano com a música popular americana
 

SÉRGIO DÁVILA
DA REPORTAGEM LOCAL

   No fim de semana, Caetano Veloso fez os dois primeiros de série de 12 shows beneficentes em que a base do repertório são standards norte-americanos, que comporão CD a ser lançado em março -"A Foreign Sound".

   A apresentação teve lugar no novo Baretto, o bar do novo hotel Fasano. Os ingressos custam R$ 500 por pessoa e vão para um hospital para pacientes com câncer de Barretos, no interior de São Paulo, por indicação do ex-ministro da saúde José Serra.

   Na platéia, balançando seus bling-blings, estava o que já se chamou "le tout São Paulô", a prestigiar um dos melhores músicos brasileiros e uma família -a Fasano- que sempre teve uma forte ligação com a noite musical de qualidade da cidade.

   Pois a comparação é inevitável: estávamos todos no Rick's American Bar, o mitológico bar encravado no Marrocos que o personagem de Humphrey Bogart comanda no filme "Casablanca" (1942). Aqui dentro, no Baretto/ Rick's, um país em que tudo é possível, a ilha da fantasia; lá fora, contida, a Segunda Guerra, o nazismo, a África -o Brasil.

   Mas os 70 presentes nessa primeira seção da noite de sábado estão interessados no show. E o show não decepcionará, com momentos brilhantes e antológicos, e poucos tropeços. Começa com a frase, muito cara a Caetano, "O cinema falado é o grande culpado da transformação", do samba "Não tem Tradução", de Noel Rosa, uma declaração de princípios do que virá depois.

   É a única em português do bloco gringo que se inicia, que terá como zona de transição o mix "Baby" (dele) e "Diana" (de Paul Anka), nesta noite em versão de cordas mais pronunciadas, executada por Moreno Veloso (cello e percussão), Domenico Lancelotti (bateria), Pedro Sá (guitarra) e Jorge Helder (baixo acústico).

   O flerte do músico com o cancioneiro anglo-saxão não é recente. A capa de seu disco "Qualquer Coisa", de 1975, já "relia" a de "Let it Be", dos Beatles, e trazia "Eleanor Rigby", "For No One" e "Lady Madonna"; houve também a gravação posterior de "Billie Jean", de Michael Jackson, que misturou com muita felicidade a "Nega Maluca" -embora não tenha dado sorte com "Black and White".

   Nessa noite, a novidade começa na forma de "So In Love", "I Only Have Eyes for You" e "Stardust", que formou muitos casais nos bailinhos de fim de ano do Yazigi nos anos 50. A primeira é ele e violão, a segunda ganha um insuspeito pandeiro, a terceira revela falsetes delicados.

   Aqui, Caetano usa o que aprendeu com seu mestre João Gilberto: pegar uma música conhecida, vivissecá-la, dissecá-la e então remontar tudo outra vez, com as mesmas partes, mas não necessariamente na mesma ordem e seguindo a sintaxe particular do dr. Frankenstein musical que comanda a operação -no caso, baiana. Não costuma dar errado.

   Pois não deu errado nesse nem daria no próximo bloco, mais contemporâneo, que começa com uma "Nature Boy" sem grandes novidades, mas chega ao ponto alto do show: "Come as You Are", do Nirvana . Numa palavra: sensacional. Para começar, a marcação é dada pelo tamborim. Para terminar, a linha de guitarra original é refeita no cello e o baixo elétrico renasce no dedilhado do contrabaixo acústico. Faz lembrar que, atitude e revolução à parte, o Nirvana contava com um melodista refinado. A platéia urra.

   Segue-se uma "Summertime" mais blues de raiz do que gerswhiniana ou janisjopliniana, uma "Love for Sale" (que não estava no programa) à capella e "Cry Me a River" com timbau.

   Os tropeços. Caetano Veloso brilha justamente nas canções norte-americanas reconstruídas por ele, como as citadas acima. Mas o mesmo não ocorre quando ele interpreta os standards como se fosse um grupo de lounge de hotel de Manhattan, sem o mesmo talento daquele. É o caso de "Nature Boy", "Body and Soul", "Sophisticated Lady".

   Mais: não era preciso pagar o pedágio de "Sampa". Por fim: por uma questão musical que é quase geopolítica, não devia cantar "Cucurucucu Paloma", como faz quase no final. É gritante o quanto mais à vontade ele está na América Latina de Capinan do que na "América" de Bush.

   Aí entra a única música nova de Caetano na noite: a divertida "Diferentemente", samba-canção que começa citando Madonna e termina com "Diferentemente de Osama e Condoleezza/ Eu não acredito em Deus".

   A noite se encerra com uma apropriada "The Carioca", que ele canta com meneios de Carmem Miranda. No bis, "Love me Tender", quase em falsete, fazendo um contraponto interessante ao vozeirão de Elvis, como a avisar que isso aqui, afinal de contas, é arte e não karaokê.

   O rei do rock é a chave para a volta a "Casablanca" e a conclusão: a ligação entre Caetano Veloso e a MPNA (a música popular norte-americana) pode ser o começo de uma grande amizade.

Onde: Baretto (r. Vittorio Fasano, 88, Jardins, SP, tel. 0/xx/11/3896-4000)
Quando: 5, 6, 12 e 13/12, às 21h e às 23h
Quanto: R$ 500 (todos esgotados)

(© Folha de S. Paulo)

 

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