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05-06-2008
Teca Calazans lança novo Cd, investindo mais na qualidade que no sucesso fácil Marco Polo Ela já tinha a vontade de fazer um disco de voz e violão, primeiro porque a produção é mais fácil, segundo porque gosta destas coisas minimalistas. Também porque é um desafio, uma vez que não é nenhuma novidade. Fazer uma coisa de qualidade, numa arregimentação muito usada, é mais difícil. Para completar, já tinha um bom repertório de músicas nordestinas. Então, ouvindo um disco de Heraldo do Monte, bateu a idéia de fazer um CD, não de voz e violão, mas sim, de voz e viola. Afinal, Heraldo não é um violeiro comum, vem do célebre Quarteto Novo (ele, Téo de Barros, Airto Moreira e Hermeto Paschoal). Mário de Aratanha, da Quarup, aceitou fazer a produção. Então, ela voltou para Paris e começou a selecionar, no repertório que já tinha, o que achava que daria certo no formato voz e viola, selecionando, também, coisas novas, é claro. E foi desta seqüência de fatos propícios que surgiu o CD, lançado por Teca Calazans, este ano, que leva o nome dela e o de Heraldo, como título. A discografia de Teca é extensa: Cinco discos com Ricardo, na França, mais dois com ele, no Brasil. Os discos solo são: Teca Calazans, que ela chama de Disco Vermelho, Mina do Mar, Mário de Andrade, Intuição, Villa Lobos, Pizindim, Samba dos Bambas, Firuliu, Almas Tupis, Forró de Cara Nova e esse de agora, Teca Calazans & Heraldo do Monte. Intuição era um LP independente que o Geraldo Casado fez e que a Quarup relançou em CD. E Villa Lobos também, era um disco brinde, feito pelo Aluísio Falcão, pela Idéia Livre, com arranjos de Antônio Madureira, e foi relançado na França. Teca diz que, hoje, por morar em Paris, consegue ver com mais nitidez a qualidade única de nossa música. “É aquela história simples: longe dos olhos, perto do coração. A distância dá uma visão mais nítida das coisas. Se eu continuasse vivendo aqui, talvez não fizesse o que fiz. Ficando no lugar, as coisas se banalizam e vem aquela vontade de fazer sucesso, fazer música puramente comercial. E eu venho de uma época em que aprendi que fazer cultura era também educar. Eu venho do Movimento de Cultura Popular, o MCP, quando você fazia as coisas com idealismo. E eu não tenho temperamento para o comercial. Quando lancei o Disco Vermelho, a Odeon queria que eu fizesse como a Elba Ramalho, seguisse aquele filão. E eu não quis. Fui me descobrindo na França, a partir da década de 70, quando eu estava casada com o Ricardo, que foi exilado. E a gente tinha a liberdade de compor o que queria, não precisava ficar pensando se tal música ia ou não fazer sucesso. Pelo contrário, tudo que a gente fazia, quanto mais cultural fosse, mais interesse tinha. Comecei a suar toda pesquisa que tinha feito com ciranda, comecei a compor”. Teca começou cedo na música. Seu avô era professor e todos seus 11 filhos tocavam um instrumento. Sua mãe lhe deu um violão, quando ela tinha 11 anos, e lhe ensinou uns acordes. Foi quando começou a cantar. Mas a grande experiência se deu no MCP. Ela conta que “o MCP funcionava como uma espécie de universidade popular. Eu trabalhei nas divisões de educação e teatro. Viajávamos muito pelo interior e qualquer manifestação de folclore eu gravava. Achava lindo! Gravei bumba-meu-boi, xangô, nau catarineta, cocos, cirandas. O Grupo Construção surgiu daí. Fomos para o Rio de Janeiro, levando uma encenação de O Rio, de João Cabral de Melo Neto. Fui chamada para trabalhar com o Grupo Opinião. Conheci Ricardo, fui ficando por lá. Quando ele foi exilado, em 68, fomos para Paris. Lá formamos a dupla e eu comecei a fazer adaptações das pesquisas que tinha feito e a compor”. Teca Calazans não foi para Paris pensando em ficar, mas a ditadura estava muito rígida naquela época e a Embaixada Brasileira recusou-se a renovar seu passaporte. Ela ficou quatro anos sem passaporte, sem poder sair de Paris. Quando sua filha nasceu, teve que registrá-la como francesa, pois a Embaixada se recusou a registrá-la como brasileira. Em 79, com a anistia, voltou. Aqui, ainda gravou dois discos com o já ex-marido. Depois de desfeita a dupla, gravou o disco Teca Calazans, o Disco Vermelho, pela Odeon. “Como não fez sucesso”, conta ela, “a gravadora me impôs um repertório comercial. Recusei. Foi quando conheci o pessoal da Camerata Carioca e fui convidada para gravar Mário de Andrade e Villa Lobos. Existe público para isso, mas como não passa na televisão, não toca nas rádios, fica mais difícil. Só um público de entendedores, que freqüentam lojas especializadas, tem acesso. Mas meu caminho é esse mesmo”. Na França faz shows e produz discos. “Aproveito para mostrar este lado do meu país que ninguém mostra. A nossa diversidade cultural. Se você mostra João Pernambuco, Jararaca, Levino, Luiz Gonzaga, mistura, frevo, maracatu... As pessoas ficam encantadas”, diz. Marco Polo é editor executivo da Revista Continente Multicultural (© Continente Multicultural)
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