05-06-2008
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Fernando de Mello Freyre |
Fernando de Mello Freyre, filho caçula de
Gilberto Freyre e diretor da fundação que leva o nome do pensador
pernambucano, conta como seu pai escreveu Casa Grande & Senzala, que está
completando 70 anos
Felipe Araújo
da Redação
Setenta anos depois de seu lançamento, Casa Grande & Senzala ainda é
um fenômeno editorial entre os clássicos das ciências humanas. No ano
passado, com o encerramento do contrato de mais de dez anos com a Record,
sete grandes editoras brasileiras (incluindo a própria Record) entraram na
briga pelos direitos de publicação da obra-prima de Gilberto Freyre. Venceu
a paulista Global, que arrematou também Sobrados e Mucambos e Ordem e
Progresso, os outros dois títulos da chamada trilogia fundamental do
pensador pernambucano.
‘‘Agora em outubro, Casa Grande & Senzala foi lançado em nova edição,
a 47ª. Vendeu tão bem que chegou a ocupar o sétimo lugar entre os livros
mais vendidos no ranking da revista Veja. O resultado foi que, já no mês de
novembro, saiu a 48ª edição’’, comemora Fernando
de Mello Freyre, filho caçula de Gilberto e diretor da Fundação Gilberto
Freyre, em Recife. Representando o conselho diretor da instituição, que
detém os direitos da obra de seu pai, Fernando esteve à frente da
negociação.
‘‘Só este ano, o livro deve ter
vendido uns oito mil exemplares, o que é um número muito bom. Ao todo, eu
não tenho essa informação precisa, mas estimo que Casa Grande & Senzala já
vendeu uns 150 mil exemplares no Brasil, o que é uma marca impressionante
para um livro de ensaios. E que não é barato. Hoje, por exemplo, ele está
sendo vendido por R$ 89,00. No exterior, já foi editado em 12 países’’, ele
explicou por telefone ao Vida & Arte durante uma entrevista realizada na
última quarta-feira.
O mote da conversa foi o aniversário
de 70 anos da publicação do livro. ‘‘Casa Grande & Senzala não deixará nunca
de ter o seu leitor, porque trata do que é ser brasileiro, trata da formação
da sociedade brasileira’’, defendeu. Em quarenta minutos de conversa,
Fernando falou sobre a obra e sobre a trajetória de Gilberto, contou as
dificuldades que ele enfrentou quando escreveu e quando lançou seu livro
mais famoso - que chegou a ser queimado em praça pública -, lembrou seu
convívio com Freyre e reafirmou o fanatismo de seu pai pelo Brasil.
‘‘Ele foi realmente um fanático por
nosso País, porque acreditava no Brasil, acreditava nos brasileiros’’.
O POVO - Casa Grande & Senzala está completando 70 anos. Como o
senhor situa esse livro dentro do contexto da obra de seu pai?
Fernando de Mello Freyre - Foi um livro idealizado por Gilberto
Freyre desde a sua dissertação de mestrado na Universidade de Columbia, em
1922, quando ele apresentou o trabalho Vida social no Brasil nos meados do
século XIX, que é considerado não só por mim mas por vários outros leitores
como o embrião de Casa Grande & Senzala. Esse livro está para a obra de
Gilberto Freyre como o livro-mãe. Dele, saíram os demais livros que compõem
a sua obra. Quase todos já estão previstos no Casa Grande & Senzala. Ele é a
matriz teórica da obra do Gilberto Freyre.
OP - No ano passado, o livro foi alvo de uma grande disputa entre
algumas editoras porque tinha terminado o contrato com a Record...
FF - A chamada trilogia fundamental - Casa Grande & Senzala, Sobrados
e Mucambos e o Ordem e Progresso - está com a editora Global, de São Paulo.
Eles estão sendo republicados. O Sobrados e Mucambos já está em gráfica e
logo a seguir vem o Ordem e Progresso. Agora em outubro, Casa Grande &
Senzala foi lançado em nova edição, a 47ª. Vendeu tão bem que chegou a
ocupar o sétimo lugar entre os livros mais vendidos no ranking da revista
Veja. O resultado foi que, já no mês de novembro, saiu a 48ªedição. Só este
ano, o livro deve ter vendido uns oito mil exemplares, o que é um número
muito bom. Ao todo, eu não tenho essa informação precisa, mas estimo que
Casa Grande & Senzala já vendeu uns 150 mil exemplares no Brasil, o que é
uma marca impressionante para um livro de ensaios. E a gente tem que ver que
não é um livro barato. Hoje, por exemplo, ele está sendo vendido por R$
89,00.
OP - Foram quantas edições no exterior?
FF - No exterior, ele já foi editado em 12 países.
OP - A que o senhor credita essa permanência e esse interesse
renovado por um livro que foi escrito há setenta anos?
FF - É um livro que descobre aos brasileiros quem somos nós. Então,
ele não deixará nunca de ter o seu leitor, porque trata do que é ser
brasileiro, trata da formação da sociedade brasileira, tendo a índia como a
grande matriz. O Sérgio Pena, inclusive, prova isso agora. Ele levantou o
DNA de todo o Brasil e isso veio comprovar a tese de Gilberto Freyre com
relação à grande matriarca da civilização brasileira. A índia aparecendo em
toda a base da sociedade brasileira.
OP - Qual era a opinião do Gilberto Freyre sobre o livro?
FF - Ele dizia que, com relação ao livro, se sentia como o marido da
professora. O Casa Grande & Senzala, muitas vezes, estava acima de seu
próprio autor. Era um livro mais conhecido do que o próprio autor. Isso ele
dizia na brincadeira. Mas realmente foi um livro que ele gostou de ter
escrito, vibrou com ele e chegou inclusive a afirmar que ia ser ou a obra
reconhecida de um gênio ou de um imbecil (risos).
OP - Quanto tempo ele levou para escrever Casa Grande & Senzala?
FF - Três anos. Mas foi um livro amadurecido desde 1922. Desde 1922
que ele tinha essa vontade de escrever o Casa Grande. Mas ele só passou a
escrever em 1930, quando saiu acompanhando o governador Estácio Coimbra, de
Pernambuco, que foi deposto do governo. Ele era chefe de gabinete do
governador e achou por bem acompanhá-lo no seu exílio. Para ele foi um
exílio voluntário, ele não estava obrigado a deixar o País, mas acompanhou o
governador Estácio Coimbra em sua viagem até Lisboa, onde começou a
pesquisar nos arquivos portugueses. E aí o Casa Grande & Senzala começou a
tomar forma. Quando ele voltou ao Brasil no ano seguinte, já em 31, ele se
dedicou mais profundamente a isso, indo morar com o irmão na chamada Casa do
Carrapicho, onde ficaram ele e Ulisses, o irmão mais velho. Ele tinha levado
toda a sua biblioteca para lá e ela foi salva exatamente por esse motivo, do
saque e do incêndio na casa dos pais. Quando ele acompanhava o governador,
em 30, a casa dos meus avós foi saqueada e incendiada. Ele só não perdeu a
biblioteca dele porque ela estava na casa desse irmão.
OP - E por que a casa foi saqueada?
FF - O governador Estácio Coimbra foi deposto quando da morte de João
Pessoa. Então, houve aquela junção do Getúlio Vargas com João Pessoa e houve
a revolução de 30. Nessa revolução de 30, como ele estava ligado a Estácio
Coimbra, que foi o governador deposto, ele também recebeu as pauladas em
nome do governador sem ter nada a ver com isso, porque nem vinculção
partidária à época ele tinha.
OP - Como era o ritmo de produção de Gilberto Freyre durante esses
três anos em que ele escreveu o livro?
FF - Era uma época das chamadas vacas magras. Ele contava que não
tinha nem como se alimentar direito. E não saía de casa, ficava com as
frutas do sítio, mas totalmente dedicado a esse trabalho. Ele teve em Luis
Jardim um grande apoiador. Foi o Luis Jardim quem datilografou algumas
páginas do Casa Grande & Senzala. Porque meu pai não escrevia à máquina,
escrevia à mão e a lápis.
OP - Quando o livro foi lançado, ele foi acusado de imoral e
anti-católico. Que dificuldades Gilberto Freyre enfrentou na época da
publicação do livro?
FF - Muitas sociedades religiosas o acusaram disso porque o livro
citava fatos da realidade popular. Por exemplo, ‘‘juro pelos pentelhos da
virgem’’. Era um dito popular, e ele retrata isso no livro. Ele apenas copia
o que o povo estava dizendo. Então, você imagina, na época, 1933, o
escândalo que foi para essas sociedades religiosas. E tinha um padre indiano
morando aqui no Recife, da congregação mariana, ligada aos jesuítas, que
realmente fez uma campanha enorme na cidade, de queimar o livro em praça
pública. Outros mais exaltados propunham queimar não apenas o livro mas o
próprio autor.
OP - Que aspectos da biografia de Gilberto Freyre contribuíram para
sua visão de mundo e para sua compreensão do Brasil? Que aspectos da
biografia dele foram determinantes ao ponto de lhe permitir escrever Casa
Grande & Senzala?
FF - A minha observação foi que ele sempre gostou muito de ler.
Apesar de ter tido dificuldades no aprender a ler e a escrever. Ele só foi
alfabetizado aos 8 anos de idade, para você ter uma idéia. Ele se recusava a
aprender a ler e a escrever e só se expressava através de desenhos. Depois
que foi alfabetizado, ele se tornou um grande leitor, com uma ânsia muito
grande de aprender. Já desde jovem, ele teve um grande orientador dessas
leituras que foi o Oliveira Lima, que eu considero, na biografia dele, o pai
intelectual de Gilberto Freyre. A partir daí, ele foi procurando cada vez
mais se aprofundar nos estudos, não apenas sobre o Brasil mas sobre o mundo
inteiro. Era um grande comprador de livros. O que ele via de novidades, ele
gastava todo o dinheiro que tinha na compra de livros. Ele saiu do Brasil
ainda jovem, com 18 anos, foi para a Universidade de Baylor, no Texas, para
fazer a graduação. De Baylor, ele foi diretamente para Columbia, para o
mestrado. Ele não se importava com diplomas, com títulos, essas coisas. O
negócio dele era o aprender, era aproveitar cada minuto da vida que pudesse
ser útil para ele. Tanto que recebeu o diploma de Columbia pelo correio. As
universidades não gostavam de fazer uma formatura desse tipo. Mas para
Gilberto eles abriram essa exceção.
OP - Mas ao longo dessa formação, que aspectos o senhor acha que
foram determinantes para a visão de Brasil que ele tinha?
FF - Na universidade de Columbia, ele dizia que seus colegas tinham a
visão de seus países. O que era ser indiano, o que era ser russo, e ele não
conseguia enxergar o que era ser brasileiro. Ele passou, então, a buscar
esse conteúdo, a explicar para ele mesmo o que era ser brasileiro. Então, a
partir daí, ele teve um papel fundamental e brincava dizendo que foi um novo
Pedro Álvares Cabral, descobrindo não o Brasil, mas descobrindo o que era
ser brasileiro dentro do Brasil. Foi aí que ele partiu com as suas teses
mostrando o papel da miscigenação, que não era para ninguém se esquivar
disso e dizer que não tinha sangue negro. Pelo contrário, era para dizer com
orgulho que tinha sangue negro e índio. A partir daí, ele se aprofundou
nesses estudos e buscou novas formas de trabalho. Não apenas utilizando
livros em bibliotecas, mas buscando fontes e documentos em arquivos que
nunca tinham sido manuseados, em diários de família, em anúncios de jornais,
no cotidiano das famílias. Ele teve uma série de pioneirismos.
OP - Como era a relação dele com outros intérpretes do Brasil, como
Florestan Fernandes e Sérgio Buarque de Holanda?
FF - De Sérgio Buarque de Holanda, ele foi um amigo quase que irmão.
Tinham as suas divergências de pontos de vista, mas eram amigos fraternais.
Com o Florestan também tinha várias divergências, mas a amizade pessoal ele
mantinha, separada das discussões públicas que tinham sobre seus pontos de
vista. Ele foi inclusive convidado por Florestan Fernandes para participar
da banca julgadora do Otavio Ianni e do Fernando Henrique Cardoso.
Infelizmente, não pôde comparecer porque já estava com outros compromissos.
Mas tem a correspondência dele fazendo esse convite, está aqui no acervo da
Fundação Gilberto Freyre. As divergências de pontos de vista, de estudos,
eram diferentes de inimizades. Ele não tinha inimizades, era uma pessoa
realmente muito aberta ao debate. Nunca gostou de travar polêmicas pelo
jornal, mas sempre respondia a cada uma das provocações que lhe eram feitas.
OP - Nos anos 40, por conta de uma série de homenagens que passou a
receber de empresários e políticos, Freyre, que até então era tido como um
homem de esquerda, passou a ser visto como um homem de direita. Tanto que
houve quem lhe acusasse de, com Casa Grande & Senzala, ser um apologista de
uma sociedade agrária reacionária. Como era afinal a relação entre seu pai e
a política?
FF - Política partidária foi uma coisa que passou à margem de
Gilberto Freyre. Ele teve em 45 a eleição, que ele teve que se filiar a um
partido político. Então, foi levado à UDN porque os estudantes queriam ter
um representante no Congresso Nacional, na Constituinte de 46, e Gilberto
foi instado a ser esse candidato e para isso ele precisaria ter um partido
político. Foi aí que ele se filiou à UDN, mas só teve mesmo a permanência na
Constituinte e no mandato seguinte, até 51 mais ou menos. Já nas eleições
seguintes, ele foi derrotado, não prosseguiu nessa parte política. Isso foi
muito bom para ele porque ele tinha um outro campo para atuar. Ele nunca foi
realmente um político partidário. Ele era um livre legislador, vamos chamar
assim. Agora, a vida inteira ele teve amizades de todos os lados. Do mesmo
modo que ele era amigo de um grande empresário, de um governante, era amigo
de um pai de santo de um babalorixá. O Pai Adão, aqui no Recife, foi um dos
maiores amigos de Gilberto Freyre. E ele lamentou muito quando Pai Adão
faleceu. Era um confidente, vamos chamar assim.
OP - Por falar nisso, como o senhor definiria Gilberto Freyre do
ponto de vista religioso?
FF - No Colégio Americano Batista, ainda jovem, ele passou a ser
pregador protestante da religião Batista. Quando foi para a Universidade de
Baylor e conheceu o interior da Congregação Batista e viu pretos sendo
queimados em torno da universidade, naquela região, sem nenhum protesto dos
protestantes, dos pregadores, dos pastores, ele, então, se desiludiu muito.
Depois disso, nenhuma religião ele professava. Respeitava todas elas mas não
tinha nenhuma religião.
OP - Durante muito tempo, uma parte do meio acadêmico, especialmente
do meio universitário paulista, demonstrou uma certa reticência ao nome de
Gilberto Freyre como um pensador social. Como o senhor vê essa reticência?
Como é que ele próprio se colocava diante disso?
FF - Olha, houve realmente, por parte especialmente da USP, um ‘‘não
li e não gostei’’. Os trabalhos do Freyre não eram levados aos estudantes da
USP. Era um pecado um estudante da USP dizer que tinha lido Gilberto Freyre.
Mesmo os que leram diziam que não leram, nem citavam nem coisa nenhuma. Há
artigos, inclusive, chamando Gilberto de provinciano porque ele permaneceu
no Recife, dizendo que se ele tivesse ido ser professor na USP ele seria um
nome internacional. Aí eu pergunto: qual é o professor da USP hoje que tem o
nome mais internacional do que Gilberto Freyre? Qual foi o livro de um
professor da USP, um sociólogo, um ensaio de um antropólogo, que tenha tido
maior número de traduções e de vendas no exterior do que Casa Grande &
Senzala? Agora, ele foi muito ligado ao movimento de 64 e passou a ser
chamado de sociólogo maldito, que não devia ser lido nem comentado. Mas hoje
Gilberto volta a ser muito mais lido. Inclusive na própria USP, não existe
mais essa separação, apesar de ainda existir um ranço de jogar Gilberto
contra Florestan, Florestan contra Gilberto, quem é leitor de Florestan não
deve ler Gilberto, acho uma besteira isso.
OP - Qual foi, efetivamente, a ligação de Gilberto com a Revolução de
64?
FF - Gilberto apoiou a Revolução de 64. Ele era amigo de Humberto de
Alencar Castello Branco, que era então comandante do Quarto Exército e vinha
muito à casa de Apipucos, chegava muitas vezes às seis horas da manhã. Ele
chegava com o jornal debaixo do braço e ficava no terraço esperando que
papai o atendesse. Ele acordava muito cedo e os dois iam conversar. Mas em
determinado momento da Revolução de 64, Gilberto achou que a coisa estava se
alongando muito e já fazia sérias restrições ao problema das torturas. Com
isso, ele nunca concordou, nunca apoiou. Ele defendia um movimento que
viesse elevar a política brasileira a uma situação de cuidar dos problemas
brasileiros sem nenhuma demagogia. Quando a Revolução tomou esse rumo, ele
passou a atacar inclusive os governantes da época. Tem gente que diz que ele
só apoiou a Revolução de 64 porque queria ser governador de Pernambuco. Isso
nunca foi por ele comentado. Em momento algum, nem comentou em casa, nem eu
tenho conhecimento de que ele tenha comentado isso. Inclusive, ao próprio
Castello Branco ele recusou ser ministro da educação. Se você está querendo
ser governador do estado, nada para ele melhor do que ter aceito o cargo de
ministro da educação de Castello Branco. Então, daí você já pode tirar as
conclusões. Ele declarou diversas vezes que tinha muita vontade de ser
governador de Pernambuco mas nunca condicionando isso ao apoio à Revolução.
Do mesmo jeito que ele era chamado de o inacadêmico porque para entrar na
Academia Brasileira de Letras, ele precisava pedir votos. Então, ele alegava
que Getúlio Vargas foi para a Academia Brasileira de Letras sem pedir votos
porque era Presidente da República. Alguém alegou que sendo Presidente da
República ele não precisava pedir votos. E Gilberto dizia: ‘‘presidente por
presidente eu também sou, de um clube esportivo aqui de Apipucos chamado
Prata Futebol Clube’’.
OP - O Gilberto gostava de futebol, portanto.
FF - Gostava sim. Gostava muito. Era torcedor do Sport do Recife e do
Vasco da Gama no Rio de Janeiro.
OP - No plano pessoal, como era a relação do Gilberto com os filhos,
com a família? Que lembranças o senhor traz do convívio com seu pai?
FF - Era um convívio muito bom. Eu digo sempre que ele era um pai-avô
porque já casou com 41 anos e demonstrava os cuidados excessivos que se tem
depois de certa idade com os filhos. Ele cuidava muito das crias dele, era
somente um casal, eu e uma irmã. Então, ele tinha sempre muitos cuidados.
Sempre que viajava, as cartas eram com recomendações, ‘‘tenham cuidado com
isso’’, ‘‘cuidado com aquilo e tal’’, ‘‘olha as escadas’’. Ele estava sempre
conversando com os filhos, orientando. Eu digo sempre que ele foi a minha
grande universidade porque foi ele quem me orientou em todas as leituras que
eu tive desde pequeno, desde as indicações de livros infantis.
OP - Certa vez, o escritor Carlos Heitor Cony definiu Gilberto Freyre
como um fanático pelo Brasil. Como esse fanatismo se evidenciava na
intimidade de seu pai?
FF - Ele sempre acreditou no Brasil. Em momento algum ele
desacreditou no Brasil, no potencial do Brasil de ser uma grande nação.
Amava o fato um país ser miscigenado em todos os sentidos.
Gilberto Freyre
O sociólogo e escritor Gilberto de
Mello Freyre nasceu em Recife-PE, em 15 de março de 1900, em uma família de
senhores de engenho. Iniciou seus estudos com professores particulares e,
posteriormente, foi viver nos Estados Unidos, onde graduou-se em Artes
Liberais pela Universidade de Baylor (Texas). Na Universidade de Columbia
(Nova York), obteve o título de mestre em Ciências Políticas, Jurídicas e
Sociais com a dissertação Social life in Brazil in the middle of the 19th
Century (A Vida Social no Brasil em meados do século XIX).
Depois de um período na Europa,
regressou a Pernambuco. Em 1930, novamente na Europa, morando em Portugal,
iniciou as pesquisas para o livro Casa-Grande & Senzala, complementadas nos
anos seguintes no Brasil. O livro foi publicado pela primeira vez em
dezembro de 1933 e tornou-se o centro de sua obra. Além de deixar uma
bibliografia extensa em estudos sociológicos e antropológicos, Gilberto
Freyre foi também poeta, ficcionista e pintor, realizando exposições no
Recife, Rio de Jnaeiro e São Paulo e publicando livros de poemas (Talvez
Poesia e Poesia Reunida) e romances (Dona Sinhá e o Filho do Padre e O Outro
Amor do Dr. Paulo). Faleceu em 18 de julho de 1987, no Hospital Português,
no Recife, em decorrência de problemas cardíacos.
(© O Povo -
NoOlhar.com.br)
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Uma grande lição de
pesquisa |
Podemos tomar este pernambucano, neto de senhores de engenho, como
pioneiro dos estudos etnográficos no Brasil. (...) O procedimento
metodológico adotado por ele, o colocou na dianteira, em relação a
intelectuais do seu tempo
Sulamita Vieira
Professora
Nascido em 1900, Gilberto Freyre publicou, aos 33 anos, uma obra
revolucionária. Além de consagrar-se pelo valor literário, Casa
Grande & Senzala é, já a partir do seu lançamento, reconhecida
pela intelectualidade brasileira que via ali uma nova interpretação do
Brasil, gerando, simultaneamente, amplas discussões.
Gilberto Freyre trouxe a público,
na ocasião, um trabalho ousado. Contrapondo-se às idéias dos precursores
das ciências sociais no Brasil - que, na passagem do século XIX ao XX,
explicavam o ser brasileiro apoiados nos determinismos biológico e
geográfico, vigentes na Europa e nos Estados Unidos, nos séculos XVIII e
XIX - o autor foi buscar na cultura os critérios para construir a sua
argumentação. Pressupondo uma associação estreita entre história e
produção cultural, fez uma espécie de viagem de volta ao Brasil
colonial, procurando identificar as raízes ou os fundamentos da
brasilidade.
Ancorado, pois, nesta concepção,
Gilberto Freyre tomou para si a tarefa de elaborar uma resposta para a
inquietação que elegera como central: ''afinal, o que é ser
brasileiro?'. É este o presente que nos deixa em Casa Grande &
Senzala, obra que conquistou igualmente reconhecimento
internacional, e criou para o seu autor um infindável espaço de
interlocução - dos críticos mais árduos aos mais veementes apoiadores.
Neste artigo, não me atenho ao
conteúdo do livro, ou à interpretação em si. Optei por enfocar um
aspecto ao qual nem sempre se dá a importância devida, quando se fala do
legado de Gilberto Freyre ao pensamento social brasileiro. Refiro-me à
sua grande contribuição em termos metodológicos. Sem dúvida, podemos
tomar este pernambucano, neto de senhores de engenho, como pioneiro dos
estudos etnográficos no Brasil. Ele nos deixou preciosas lições acerca
de como fazer pesquisa em ciências sociais. Diga-se de passagem, que, em
Casa Grande & Senzala, Gilberto Freyre elege como unidade
de referência, para análise, a família patriarcal, no espaço da casa
grande. É a partir desse universo, que ele tenta alcançar, numa
perspectiva relacional, o escravo, o índio e outras categorias sociais.
Tomando, pois, o estudo da
cultura como base para definir a brasilidade, ao longo do processo de
investigação social cujo primeiro fruto foi Casa Grande & Senzala,
Gilberto Freyre direcionou sua lente para os mais diferentes espaços e,
neles, focalizou uma multiplicidade de fontes. Deslocou-se para a
África, chegando depois a Lisboa e a outras cidades portuguesas; nos
Estados Unidos, da Califórnia a Nova York, passando pelo Novo México,
Arizona e Texas, deteve-se na observação acurada daquele cenário,
comparando-o aos ''nossos sertões ouriçados de mandacarus e de
xique-xiques''. Palmilhou, cuidadosamente, os mais diversos recantos de
cidades como Recife e Salvador; percorreu inúmeros engenhos e fazendas,
em diferentes regiões do Brasil, à cata de ''sinais'' de manifestações
da cultura. Em cada lugar, guiado por uma curiosidade científica
inesgotável, Freyre se debruçou sobre acervos de museus, bibliotecas,
cartórios, órgãos de imprensa, enfim, os mais variados, públicos e de
particulares.
Com igual perspicácia, e
abrangendo diferentes temporalidades, se embrenhou em complexos
universos tais como: literatura, fotografia, artes e variadas expressões
gráficas (desenhos, pinturas, litografias, gravuras...), folclore e
educação escolar. Vasculhou anuários estatísticos e relatórios
institucionais diversos; coleções de artefatos e objetos de uso pessoal
e doméstico; cartas de jesuítas, do século XVI, relatando, por exemplo,
a ''falta de inteligência dos nativos'' ou ''irregularidades sexuais na
vida dos colonos, nas relações destes com os indígenas e os negros'';
cartas e ordens da Corte; cartas de famílias e livros de viajantes
estrangeiros. Buscou também: poesias; livros de registros de batismos,
casamentos e óbitos, de homens livres e de escravos; testamentos e
inventários; documentos de parlamentares e do clero; relatórios médicos;
teses acadêmicas; cadernos escolares, cadernos de receitas culinárias e
cadernos de modinhas.
Mergulhando nesses mares e
bebendo nessas fontes, o autor desvenda um mundo que estaria atrás das
portas da casa grande e na escuridão da senzala. Portanto, traz à luz
todo um conjunto de representações, estas integrantes de um tecido
cultural historicamente constituído e que permeia a diversidade de
relações sociais.
O procedimento metodológico
adotado por Gilberto Freyre na sua pesquisa o coloca na dianteira, em
relação a intelectuais do seu tempo. Ademais, evidencia a multiplicidade
de linguagens da cultura e, em particular, aponta caminhos para a
elaboração de outras interpretações e para focalizarmos, na atualidade,
certas zonas aparentemente sombreadas.
Sulamita Vieira é
socióloga e professora
(© O Povo -
NoOlhar.com.br) |
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