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Moraes Moreira: armado de violão e civismo

05-06-2008

Moraes Moreira comemora 34 anos de carreira

Em novo álbum, o baiano prega contra o analfabetismo e recebe Arnaldo Antunes como convidado especial

Mônica Loureiro

  
Moraes Moreira comemora 34 anos de carreira despido musicalmente - e armado civicamente. Explica-se: Meu Nome É Brasil, seu novo CD, lançado pela MZA Music, tem o violão na linha de frente, o que lhe dá uma sonoridade acústica. "Um disco com banda grande e uma variedade de instrumentos é fácil de ser feito. Desta forma, é mais difícil. Primeiro, gravei voz e violão, já tendo que funcionar daí. A qualidade tem que ser garantida, sem truques. Depois entra uma percussão aqui, umas cordas acolá...", explica Moraes. Menos óbvia é a preocupação "sociológica" do cantor e compositor baiano, que encerra com o novo disco uma trilogia de trabalhos que têm o Brasil como tema.

   "Em 1979 lancei o Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira e, em 1994, O Brasil Tem Concerto", relembra Moraes. "Isso mostra que a brasilidade sempre tem sido a tônica da minha atuação na música popular", continua o cantor, que meses antes de por Meu Nome É Brasil nas lojas já demonstrava estar antenado com os desvãos da sociedade brasileira. Uma das canções do novo álbum, Indagações de um Analfabeto (Moraes/Zé Valter), foi adotada pelo Ministério da Educação e Cultura como hino oficial da campanha pró-erradicação do analfabetismo. Na letra, Moraes incorpora um popular iletrado e fala que ''a mió coisa que existe no mundo é a inducação''.

   "A pessoa começa a saber o que é cidadania ao aprender a ler e escrever", acredita o cantor, que musicou em Indagações um cordel de seu irmão Zé Valter sobre o analfabetismo. Apresentada em primeira mão em agosto passado ao ministro Cristóvam Buarque, a música agradou e foi logo doada à campanha. "Tenho tocado em shows e todo mundo tem aplaudido muito. Várias escolas já pediram a gravação, para ajudar na conscientização da garotada. Sabia que a música renderia um bom hino para a campanha e nunca deixo de mencioná-la, ao me apresentar ao vivo", conta Moraes. A preocupação social e a vontade de colaborar do baiano, no entanto, não são totais e irrestritas. "Agora que temos um presidente mais com a cara do Brasil, acho que é uma boa hora para seguirmos otimistas, como sempre fui. Pensar soluções de forma positiva é o que estamos precisando neste país", diz o cantor.

   Voltando ao novo álbum, Moraes Moreira afirma ter se preocupado com o ecletismo e a variedade sonora - depois de ter feito em 2001 um disco basicamente dedicado ao baião (Bahião com H). "Tem de tudo um pouco, como eu sempre gostei de fazer. Gravei xote, forró, samba, até modinha de viola", fala o cantor. "Ainda naquele conceito de fazer um disco bem brasileiro, quis mostrar diversas faces e musicalidades do país", completa. A abordagem se reflete nas sete (de treze) músicas inéditas, que passeiam por vários climas. "Minha Pérola, por exemplo, mostra um Brasil mais romântico. Já em Aos Pés da Cruz, o que importa é a religiosidade, a fé. E Tô Fazendo traz um retrato bem caricato do carioca, da vida no Rio de Janeiro", narra o compositor.

   Tão eclética quanto a nova safra foi a escolha de versões de clássicos do nosso cancioneiro. Há o baião de Luiz Gonzaga (Respeita Januário), o ancestral tema de Garoto Gente Humilde, o samba-canção Aos Pés da Cruz (Zé da Zilda/Marino Pinto) e até o cavalo de batalha de Adoniran Barbosa, Trem das Onze. "Tive a preocupação de incorporar a música de tal forma que parecesse minha. Fiz os arranjos bem do jeito que eu gosto de tocar e cantar, mas respeitando a idéia do compositor", detalha Moraes, ressaltando que na produção assinada por Marco Mazzola, o violão ocupa sempre lugar de destaque. "A voz e o violão foram os guias. Partimos desta base acústica para encorpar os arranjos", resume Moraes.

   Três curiosidades saltam aos olhos. No campo das participações especiais, dois nomes aparentemente antípodas se cruzam: Arnaldo Antunes, que canta em Trem das Onze, e Anderson Leonardo, vocalista do grupo Molejo, em Tô Fazendo. "Como gravei a música num tom bem grave, lembrei da voz do Arnaldo Antunes, que realmente ficou muito parecida com o meu registro", fala Moraes sobre a versão da música de Adoniran. Já o líder do Molejo caiu como uma luva na faixa em que participa. "É um pagodinho bem malandro, uma brincadeira", conta o compositor. Quase fechando o disco há Eu Sou o Caso Deles (Moraes/Galvão), gravada em parceria com os filhos de Moraes, Davi e Ari. "É uma música dos tempos dos Novos Baianos. Na época, cantei para meus pais, agora, canto para meus filhos!", brinca o autor.

(© Cliquemusic.com.br)

 

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