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05-06-2008
Diretor de 'Santo Forte' e de 'Edifício Master' concorre, pela segunda vez, à premiação; "a idéia de que o cinema é imagem e ação é um dos mitos do cinema; cinema é imagem e som", diz HAROLDO CERAVOLO SEREZA Eduardo Coutinho conta que voltou ao cinema depois de uma década e meia, quando decidiu fazer Santo Forte (1999), para realizar um filme que ninguém queria ou podia fazer. "Podiam até querer, mas não podiam fazer: um filme sobre religião, num só lugar, sem cena de culto."Coutinho é um dos indicados para o Prêmio Multicultural Estadão deste ano. Ele é, também, até agora, na história do prêmio, o único indicado a concorrer por uma segunda vez. Pelo regulamento, para ser indicado uma segunda vez, é preciso que se passem pelo menos três anos de uma indicação para a outra. O documentarista concorreu em 2000 e voltou a ser indicado pela comissão neste ano. "Não sou movido a prêmios, mas não posso negar que gosto de recebê-los. Esse caso também é interessante, até porque a gente não se candidata", comenta. Quando diz que ficou mais de uma década longe do cinema, Coutinho, de certo modo, exagera. Depois de concluir Cabra Marcado para Morrer (1984), o diretor filmou, em 16 mm, O Fio da Memória (1991), sobre o centenário da abolição da escravatura. "Na época, foi um dos filmes menos vistos da história de cinema", lembra, sobre a obra exibida poucas vezes, num ano em que o cinema brasileiro acabara de iniciar uma das maiores crises de sua história, com a chegada de Fernando Collor de Mello à Presidência. "Foram pouquíssimas sessões; mesmo em vídeo, teve uma distribuição restrita." A finalização de Cabra Marcado para Morrer, conta o cineasta, permitiu que Coutinho fizesse a opção definitiva pelo documentário. "Meu último filme antes do Cabra, nos anos 1970, foi de ficção. Larguei o cinema e fui para o jornalismo. Não voltaria ao cinema se não fosse para fazer o Cabra." Cabra só podia, por sua vez, ser feito por Eduardo Coutinho, que não pudera, devido à ditadura militar, concluir as filmagens de um documentário sobre o líder camponês João Pedro, assassinado em 1962, e as Ligas Camponesas. As filmagens, realizadas em 1964, foram interrompidas com o golpe militar. Com a abertura política no final da ditadura, Coutinho foi reencontrar as pessoas que faziam parte da história do filme. Nas faculdades de jornalismo, Cabra é exibido para os estudantes de graduação como um modelo de reportagem. Nas de ciências sociais, O Fio da Memória ajuda a debater etnografia. O próprio Coutinho considera seu documentário Theodorico, O Imperador do Sertão (1978), feito para a TV, uma espécie de sociologia do coronelismo. "Não fiz pensando nisso, não estou preocupado em ser visto na universidade", diz. "O documentário pode ajudar a entender um aspecto do Brasil, mas, antes, precisa existir como filme; se não for assim, não vai existir de outra forma." Se Cabra marcou a escolha pelo cinema documental, Santo Forte marcou uma aposta ainda mais radical na oralidade. "A idéia de que o cinema é imagem e ação é uma das mitologias do cinema. Cinema é imagem e som. As pessoas falam em todos os filmes, a diferença é que nos meus a palavra está encarnada, corporificada." Os filmes seguintes, Babilônia 2000 (2001) e Edifício Master (2002) seguem o "suposto modelo", como prefere Coutinho, surgido com Santo Forte. "Não se trata de criar padrão", explica o documentarista. Mas há algumas regras que Coutinho segue e que abriram algumas novas possibilidades na hora de se fazer o documentário no Brasil. Coutinho não filma em sets, não tem uma pauta, não troca a imagem planejada e bonita pela casualidade de uma entrevista em lugares "instáveis". Coutinho acaba transformando entrevistas em conversas, em que seus personagens também fazem perguntas, pedem licença para atender o telefone, ficam em silêncio. "Filmando assim, a ética é também uma estética e a estética é também uma ética." Coutinho não tem o medo infantil de perder o controle da filmagem, nem acha que pode evitar um plano ou uma imagem tradicional usando seis, sete câmeras diferentes. Para achar enquadramentos diferentes, outros cineastas, brinca, acabam deixando o entrevistado "torto na cadeira". Aí, não dá para virar conversa mesmo e a entrevista pouco acrescenta ao que já se sabia. O tal "método Coutinho" foi favorecido por uma inovação tecnológica - a câmera digital - que chegou ao mercado na segunda metade dos anos 1990. "Para mim, foi essencial", diz. Antes, os filmes em película permitiam a gravação sem interrupção de 11 minutos de imagens e 15 de som. Agora, são duas horas de gravação. Um filme de Coutinho tem orçamento de cerca de "R$ 400 mil, R$ 450 mil", segundo ele. Incluindo a transferência da gravação digital para o filme em película, para ser exibido no cinema. Se para Coutinho a câmera digital trouxe novas perspectivas, "para a garotada", diz, "ela é uma bênção". E vai mudar, "para o bem ou para o mal", a forma de se fazer documentários. Porque, como ela barateia muito o custo, permite que se iniciem as filmagens sem o dinheiro para a finalização e se busque esse dinheiro com algo concreto - e não com um roteiro, que pode engessar um filme do gênero. Atualmente, Coutinho trabalha na edição do filme que realizou com os antigos companheiros de São Bernardo do sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva. "Estou angustiado." O filme deve ficar pronto até abril de 2004. (© O Estado de S. Paulo)
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