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05-06-2008
Série Duas Cidades, que João Câmara levou 14 anos para concluir, marca a inauguração, hoje, do Espaço Cultural Cícero Dias, anexo ao Museu do Estado DIANA MOURA BARBOSA O artista plástico João Câmara nasceu na capital paraibana, há 59 anos, mas escolheu Pernambuco como ponto de partida de sua obra. Agora, com a abertura da mostra Duas Cidades, o Estado converte-se também em ponto de chegada do seu trabalho. A exposição, que inaugura o Espaço Cultural Cícero Dias, anexo ao Museu do Estado, rende-se aos encantos e desencantos de Recife e Olinda, retratando espaços geográficos, políticos e afetivos. Estranhamente, as cidades de Câmara não são sociais. As pessoas são colocadas em cena como metáforas, quase sempre remetem a um significado que está fora delas mesmas. Aliás, na maioria das vezes, o elemento humano aparece pintado fora da tela, num objeto que termina por acoplar-se a pintura. É como se não dialogassem com os lugares que (não) habitam. Minimizado o efeito que os personagens teriam sobre as telas, sobra espaço para Câmara narrar as cidades. Assim, prédios, lugares, paisagens e momentos históricos ganham o foco central das obras. O tempo também tem status de protagonista, ocultando e revelando arquiteturas, edificações ou ruínas. “Não procurei fazer uma paisagem no sentido clássico do termo. Elas servem de suporte para que eu crie uma viagem pessoal, são o ponto de partida para uma pintura poética”, resume Câmara. Então, antes de mais nada, as imagens captadas em Duas Cidades não são narrativas documentais, mas afetivas. “Temos a relação entre as duas cidades, as duas topografias. Olinda e o Recife, o aéreo e o aquático, que são também estados de espírito”, explica o artista, dando pistas aos que quiserem desvendar seu mundo. Escapando do campo da subjetividade, dos desejos e devaneios do artista, Duas Cidades consagra ainda mais um trabalho que esbanja domínio técnico naquilo que se propõe a fazer. Merece um olhar atento a maneira como Câmara mistura materiais (tinta a óleo, acrílica, tela de linho, juta, poliéster, suportes de madeira), cores (sucedem telas multicoloridas, com um céu carregado e rasgado em vermelho, outras feitas totalmente em tons de cinza), retratos fiéis, lugares imaginários, camadas de tinta que de tão planas parecem uma impressão e o tracejado nervoso dos impressionistas. Passar por tudo isso é uma tarefa hercúlea para qualquer pintor, fazê-lo numa única exposição, conseguindo manter a unidade visual e o fio condutor do trabalho, é ainda mais notável. Câmara atribui a diversidade de técnicas ao tempo de produção – a série levou 14 anos para ficar pronta e o artista teve que construir uma estante para ‘esconder’, os trabalhos dos colecionadores. Entretanto, não é preciso estar muito atento para notar que essa variação não se deve apenas à distância temporal. Claro que o longo percurso deixou suas marcas em Duas Cidades, mas a mudança de técnicas muitas vezes está ligada à poética de Câmara, à maneira que ele escolheu para evidenciar suas narrativas e revelar a todos o que as cidades haviam, até então, guardado só para ele. (© Jornal do Commercio-PE) Trilogia documenta obra de João Câmara com precisão Além da exposição Duas Cidades, João Câmara também aproveita a reabertura do Museu do Estado para lançar o catálogo da mostra e a primorosa publicação Trilogia. O livro, em três volumes, é dedicado a séries de obras pintadas por João Câmara: Cenas da Vida Brasileira, Dez Casos de Amor e Duas Cidades. Numa classificação rápida, João Câmara tece algumas considerações sobre a trilogia que pintou. Para ele, Cenas da Vida Brasileira traz uma face mais explicitamente política, com o rigor de um documento inventado que precisa fazer-se acreditar. Já Dez Casos de Amor representa o enlace de um artista com a pintura e seu desejo de expressar a sensualidade, o que transparece, na pintura, no uso de transparências e veladuras. Por fim, Duas Cidades reflete uma riqueza maior de elaboração, ou, em outras palavras, a liberdade do artista quando maduro. Todos os três livros são de um rigor documental impressionante. Trazem cronologia, reprodução cuidadosa das obras, ressaltam e valorizam detalhes e apresentam uma quantidade invejável de textos sobre o artista. No primeiro volume, que retrata o Brasil do getulismo, há longos artigos de Tadeu Chiarelli, Frederico Morais e Barbosa Lima Sobrinho, sem falar no requinte de trazer uma transcrição da carta-testamento de Getúlio Vargas. segundo volume traz reproduções das pinturas de Dez Casos de Amor, conjunto integralmente adquirido pela Fundação Roberto Marinho. Por fim, Duas Cidades traz imagens das obras e texto de Fredederico Morais e Emanoel Araújo. Todos têm artigos de Câmara e fortuna crítica. O catálogo e Trilogia serão vendidos a R$ 50 e R$ 200, respectivamente, com renda revertida para o Museu do Estado. (© Jornal do Commercio-PE) Museu recebe selo de qualidade Depois de exibidos em São Paulo e no Rio, quadros de João Câmara chegam ao Museu do Estado como uma espécie de selo de garantia para nova fase Antes de chegar ao Recife, a exposição Duas Cidades, de João Câmara, foi vista na Pinacoteca do Estado de São Paulo e no Museu Nacional de Belas Artes (RJ), no ano passado. O fato de ter preservado suas obras dos olhares pernambucanos por mais de um ano tem um significado político interessante. Ao reservar as telas para inauguração do anexo do Museu do Estado (Espaço Cícero Dias), Câmara deseja conceder ao lugar o mesmo grau de qualidade das instituições que o abrigaram anteriormente. Neste caso, sua pintura funciona como um tipo de selo de garantia e legitimação. Não é para menos. A equipe contratada para reformar e ampliar o anexo foi a mesma que cuidou da abertura do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães. Nos dois casos, o grupo criou um espaço em Pernambuco para inseri-lo no roteiro nacional de mostras e exposições. O resultado é uma mostra de profissionalismo. O Espaço Cultural Cícero Dias é totalmente climatizado, tem sistema de iluminação regulável apropriado para todos os tipos de exposições, possui portas separadas para o público e para o manuseio das obras de arte e antigüidades. Até as janelas instaladas em lugares indesejados foram satisfatoriamente fechadas. Ao todo, foram gastos R$ 2.161.000. Além disso, o mais importante, a partir de 2004 o Museu do Estado passa a contar com um conselho curatorial que deve gerir melhor as mostras do local. Para isso, o orçamento da Fundarpe para a instituição prevê gastos de até R$ 600 mil. Com o novo espaço, o Museu do Estado passa a contar com mais de 1,4 mil metros quadrados de área expositiva. Para se ter uma idéia de como ele vai funcionar, pode-se conferir a mostra do térreo do anexo, que abriga peças do acervo do museu: de ruínas da invasão holandesa no século 17 a pinturas do século 20. No segundo andar, foram dispostas todas as obras da série de Câmara. Além das mostras, o Museu do Estado também apresenta, hoje, um compêndio com reproduções de peças do acervo da instituição. A publicação faz parte de uma série de catálogos de museus que vêm sendo sistematicamente lançados com patrocínio do Banco Safra. Serviço Abertura do Espaço Cícero Dias, no Museu do Estado, com peças do acervo e exposição Duas Cidades. Hoje, às 19h, na Av. Rui Barbosa, 960, Graças. Só para convidados. (© Jornal do Commercio-PE)
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