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05-06-2008

Divulgação

Tom Zé está viajando capitais do Nordeste: renda revertida para o projeto Fome Zero

O baiano Tom Zé apresenta o show Imprensa Cantada, sábado e domingo, dentro do projeto MPB Petrobras, no anfiteatro do Centro Dragão do Mar. Na tarde de domingo, ele faz tarde de autógrafos para lançamento do livro Tropicalista Lenta Luta, na Siciliano Megastore

Luciano Almeida Filho
da Redação

   ''Local de alimentação do raro peixe-boi marinho (Tricherus manatus) no município do Icapuí (litoral leste do Ceará) está ameaçada pela construção de uma plataforma de exploração de petróleo a 2 km da costa. Ambientalistas reivindicavam área para reserva de proteção da fauna marinha. Uma notícia como esta, perdida entre dezenas de outras nas páginas de um jornal, uma nota coberta num noticiário televisivo ou mesmo uma chamada de poucos segundos ouvida no rádio do táxi entre o aeroporto e o hotel. Para virar música com a assinatura do baiano Tom Zé, basta apenas tocá-lo na sensibilidade aguçada de artista com uma visão toda própria das coisas que o cercam.

   A imprensa vem municiando este baiano de inspiração desde os primórdios como artista, quando ainda vivia na dúvida entre dar continuidade aos negócios da família em Irará e o chamado para 'ser artista' na capital, Salvador (BA). Mas somente agora Tom Zé deixa explícita sua verve de cronista-cantador no recém-lançado CD Imprensa Cantada, que chegou às lojas mês passado pela gravadora Trama, juntamente com o lançamento do DVD Jogos de Armar, registro do show de lançamento do disco anterior, e do livro autobiográfico Tropicalismo Lenta Luta (este pela editora PubliFolha).

   Em entrevista a O POVO, mês passado (11/11/2003), Tom Zé já deixou apalavrado o encontro com seus ''patrões cearenses'' - como vem chamando carinhosamente o público fiel que o segue. Oportunidade para o público local conferir duas apresentações do recém-montado show Imprensa Cantada, dentro da programação do projeto MPB Petrobras, amanhã e domingo no anfiteatro do Centro Dragão do Mar. A abertura local fica por conta do cantor Marcvs Britto mostrando também seu mais recente show.

   O repertório do show Imprensa Cantada é baseado no CD novo com músicas inspiradas em fatos divulgados pela mídia, como a vaia recebida por João Gilberto num show em São Paulo (''Vaia de bêbado não vale''), um libelo bem humorado contra o belicismo do presidente norte-americano George W. Bush a partir da expressão cunhada pelo presidente brasileiro Luís Inácio Lula da Silva (''Companheiro Bush''), uma manifestação pela paz mundial (''Urgente pela paz''), duas músicas sobre censura (''Requerimento à censura'' e ''Sem Saia, Sem Cera, Censura''), a descrição de uma corrida automobilística (''Interlagos F1''), a canção sobre a dignidade desconsiderada do brasileiro (''1, 2, Identificação''), e sua interpretação à capella de ''Dona Divergência'' (música de Lupicínio Rodrigues que usa a briga de um casal para falar de conflitos entre nações), entre outros.

   Completam ainda o set-list músicas que fizeram parte do trabalho anterior, Jogos de Armar, cujo show de lançamento realizado em 2000 foi registrado em vídeo e sai agora no formato DVD. Coisas como ''Chamegá'', ''O PIB da PIB (Prostituir), ''A Chegada de Raul Seixas e Lampião no FMI'', entre outras. Tom Zé vem acompanhado por sua banda de primeira linha: Jarbas Mariz (violão de 12 cordas, cavaquinho, percussão e vocais), Sérgio Caetano (guitarra e vocal), Cristina Carneiro (vocal e baixo), Geraldo Vieira (baixo e vocal) e Lauro Léllis (bateria). Músicos de primeira linha capazes de seguir Tom Zé nos improvisos. E assim o músico se sente à vontade para incluir composições suas a pedido do público.

   Além dos dois shows do projeto MPB Petrobras, Tom Zé aproveita a passagem por Fortaleza para fazer o lançamento do livro Tropicalista Lenta Luta, numa tarde de autógrafos no domingo na Siciliano Megastore, às 15 horas. A idéia do livro partiu de um convite do amigo Guga Stroeter de fazer um texto sobre o movimento tropicalista para uma coleção de livros escritos por artistas. A idéia, a princípio, não animou muito Tom Zé: não queria meter a mão neste vespeiro de egos inflamados. Mas foi fazendo o serviço contando os primórdios de sua carreira de autor de ''não-canções'' - como ele próprio salienta - na cidade natal Irará (BA), passando por sua experiência como aluno de Hans Joachin Koellreutter e Walter Smeták na Universidade Livre de Música, em Salvador, até chegar ao estouro da Tropicália.

   A coleção não foi pra frente. Mas o texto foi resgatado por Arthur Nestrovski, editor da PubliFolha, e a ele acrescido de textos de Tom Zé publicados em jornal, uma discografia, uma biografia musical completa com todas as letras e uma entrevista do artista ao próprio Nestroviski e o músico e jornalista Luiz Tatit (fundador do grupo Rumo). Nesta revisão de 38 anos de carreira discográfica - desde o primeiro compacto para a RCA-Victor do espetáculo Arena Canta Bahia até o novíssimo Imprensa Cantada.

   Passando os olhos por Tropicalista Lenta Luta, ressaltou a breve parceria com o então jovem cearense Tiago Araripe, natural do Crato e recém-chegado a São Paulo, com quem Tom Zé fez shows e gravou um compacto para o selo Continental em 1974: ''Conto de fraldas'' (Tom Zé/Tiago Araripe) / ''Teu Coração Bate, o Meu Apanha'' (Tiago Araripe/ Décio Pignatari). Posteriormente, Tiago integrou a banda Papa Poluição, precursora do movimento da Vanguarda Paulista, e lançou o LP solo Cabelos de Sansão, no início dos anos 80. Hoje morando em Fortaleza e atuando como publicitário, Tiago Araripe escreveu sobre as lembranças deste fértil período de convivência com o mestre Tom Zé.

SERVIÇO
Imprensa Cantada
- Show do cantor e compositor baiano Tom Zé dentro do projeto MPB Petrobras. Abertura: Marcvs Britto. No anfiteatro do Centro Dragão do Mar (Rua Dragão do Mar, 81 - Praia de Iracema), sábado (amanhã) às 21 horas e domingo às 20 horas. Preço: R$ 14,00 (inteira) e R$ 7,00 (meia) + 1 kg de alimento não perecível ou R$ 1,00. Renda revertida ao projeto Fome Zero, do Governo Federal. Vendas antecipadas nos postos Guararapes Vip (Av. Dom Luiz esq. Av. Sen. Virgílio Távora), Mitre Iguatemi (Av. Washington Soares, 611), Record (Av. Pontes Vieira, 1700) e no local. Informações: 488.8600.
Tropicalismo Lenta Luta - Tarde de autógrafos de Tom Zé. Domingo, dia 7, na Siciliano Megastore (Shopping Iguatemi Expansão), às 15 horas. Lançamento PubliFolha. 285 páginas. Preço do livro: R$ 35,00. Informações: 241.0710.

(© O Povo - NoOlhar.com.br)


Recordações do futuro

 

Álbum de Família

Tiago Araripe e Tom Zé juntos em 1974: parceria e amizade de três décadas



O cearense Tiago Araripe resgata aqui os tempos em que foi ter com o mestre Tom Zé que o recebeu em sua imensa generosidade

Tiago Araripe
Especial para O POVO

   Quando saí de Recife para tentar a sorte como cantor e compositor em São Paulo, deixando pela metade o curso de Arquitetura e um emprego de copy-desk no Diário de Pernambuco, só tinha um objetivo cem por cento definido: estudar na escola de música de Tom Zé. A fixação tinha seus motivos. Tom Zé era, como 30 anos depois continua sendo para muitos, uma referência de inventividade musical. Suas entrevistas que acompanhei pela televisão me indicavam um criativo invulgar, sempre capaz de lançar um olhar novo sobre os mais diversos assuntos da vida e da cultura do país.

   Cheguei a São Paulo no início de 1973, trazendo na bagagem algumas composições tão estranhas quanto imaturas, feitas no eixo Crato-Recife por onde eu me movimentava. Não por acaso, o primeiro show a que assisti na grande metrópole foi o de Tom Zé e Grupo Capote, no auditório do Masp. Depois um vizinho pianista me forneceu o telefone do cantor e marcamos o primeiro encontro. De antemão soube que a escola de música já não existia. Mas fui em frente. Na longa conversa que tivemos no estúdio do maestro tropicalista Rogério Duprat, no bairro do Bixiga, entremeada pela apresentação ao violão de meu precário repertório, Tom Zé se mostrou um ouvinte atento e respeitoso. O contato, que durou toda uma tarde, teve desdobramento inesperado: trabalhamos juntos durante um ano, fazendo apresentações nas quais eu tinha espaço para mostrar algumas de minhas músicas.

   A princípio, reunimos um time de músicos amadores, universitários de uma forma ou de outra atraídos pelo trabalho do baiano de Irará. (Alguns deles se profissionalizaram e chegaram a dar boas contribuições ao que se configuraria mais tarde como a Vanguarda Paulistana.) Ensaiávamos no apartamento de Tom Zé nas Perdizes, provavelmente no mesmo edifício onde mora até hoje e do qual é jardineiro oficial. Na mesma vizinhança habitavam os articuladores do movimento concretista: Décio Pignatari e os irmãos Augusto e Haroldo de Campos. Cheguei a participar de alguns encontros de Tom Zé com esses poetas de campos e espaços. Muitos deles no bar Cristal, regados a chopp e Steinhager. Não raro surgiam intersecções musicais interessantes, como a audição da obra do músico austríaco Anton Webern, promovida e comentada por Augusto de Campos, no apartamento deste, com a presença de Tom Zé e do poeta Régis Bonvicino. Ou as cinco letras que Décio pediu a Tom Zé para musicar e este me repassou: um desafio, pois eram extensas e sugeriam tudo menos versos de canção popular. Mesmo assim, a partir delas consegui fazer duas composições: ''Teu coração bate, o meu apanha'', lado B do compacto simples Tom Zé e Tiago Araripe, lançado pela Continental em 1974, e ''Drácula'', que interpretei no Festival Abertura da Globo no ano seguinte. Ambas são tangos, gênero no qual até então eu não me aventurara, definidos pela crítica especializada da época como uma vertente nova, não enquadrada nem no tango tradicional nem no tango jazzístico de Piazzola. Aprovado pelo novo parceiro, ganhei depois uma letra específica (e curiosíssima) das mãos do próprio Décio, transformada numa espécie de rumba: ''Hipopopótamo'' (sic).

   Voltando ao fio da meada. Nos ensaios com os universitários, trabalhando a partir da sonoridade acústica de violões, era interessante observar a capacidade de Tom Zé de extrair o melhor dos músicos incipientes que éramos. Valia-se dos seus conhecimentos de música erudita (chegou a estudar cello e ter aulas com Smetak, quando morava em Salvador) e sua intuição de artista inquieto, sempre em busca do inusitado, para nos ensinar. Lembro de um arranjo que ele criou para ser executado por mim numa harmônica de boca, mostrando-me como tocar sem me atrapalhar com o manejo da clave. Assim a gaita incorporou-se aos shows, que fazíamos em diversos espaços da capital e do interior paulistano. E olha que nunca fui tocador de gaita.

   Em determinada altura do campeonato, sugeri a ele que deveríamos modernizar o show, dando-lhe uma característica pop. Algo que fizesse jus ao disco Todos os olhos (sim, aquele da foto polêmica), recém-lançado. Ele aceitou de pronto, e convidei alguns amigos, nordestinos e músicos, constituindo assim o que viria a ser o embrião do grupo Papa Poluição, que integrei entre 1975 e 1980.

   A derradeira apresentação que fizemos juntos foi num evento sobre cultura baiana no Anhembi, do qual participou também Walter Smetak. No seu show, Tom Zé entrava todo paramentado de artista pop, com uma máscara aplicada sobre o rosto que o deixava transfigurado. Aos poucos ele ia tirando o disfarce, arrancando nariz, orelhas etc. Se queria impacto, conseguiu.

   O registro do trabalho que fizemos juntos foi o compacto gravado no mesmo estúdio, de apenas dois canais, onde nos conhecemos: de um lado ''Conto de fraldas'', de Tom Zé, e do outro ''Teu coração bate, o meu apanha''. Queríamos uma sonoridade diferente para o disco, e convidamos um músico na época bem cotado nos estúdios, mas completamente desconhecido do grande público: Guilherme Arantes. Foi quem fez os arranjos, pilotou os sintetizadores e participou do coro.

   Tom Zé tinha uma maneira peculiar de viver a cidade de São Paulo. Acompanhá-lo dirigindo no trânsito caótico era muito interessante. Ele sabia de todos os fluxos e contrafluxos, de todos os meandros do tráfego, como um pescador conhece as oscilações das marés. O que não quer dizer que sua convivência com a cidade fosse tranqüila. Não o era em absoluto. Que o digam algumas de suas músicas, como ''Botaram tanto lixo, botaram tanta fumaça''.

   Fazia anos que não o via e nos encontramos na pré-estréia do filme The Doors, à qual ele foi por insistência da esposa Neusa. Tinha voltado há pouco de Nova York onde tivera o primeiro contato pessoal com David Byrne. Assistimos ao filme juntos e perguntei-lhe como estava a cena musical novaiorquina. Ingenuamente, imaginava que me contaria novidades quentíssimas. No entanto, ele me respondeu que não sabia: ficara o tempo todo dentro do hotel.

   Esse é o Tom Zé que conheci. Um ser híbrido, meio Irará meio futurismo universal. Durante o longo período em que ficamos sem nos ver, tive um sonho premonitório que contei a Neusa numa fila de cinema. Nele, Tom Zé obtinha finalmente amplo reconhecimento. Isso foi antes de o mundo lhe abrir as portas, a partir do convite de David Byrne. Que bom que se tornou real.

Tiago Araripe é compositor e publicitário
tararipe@click21.com.br

(© O Povo - NoOlhar.com.br)


Urbano cearense

   Marcvs Britto abrirá os shows do projeto MPB Petrobras, antes de Tom Zé. Levará ao palco do anfiteatro do Dragão do Mar o show que tem o título provisório de Camomila
Marcvs Britto é atração local de abertura dos shows do projeto MPB Petrobras, antes de Tom Zé. Levará ao palco do anfiteatro do Dragão do Mar o show que tem o título provisório de Camomila. ''Tem este título, que pode mudar ainda, porque Camomila é uma coisa natural, que não tem contraindição, que é calmante, alivia dores de cabeça, do estômago'', adianta o intérprete. Segundo ele, este é um show que tinha a idéia de buscar referências cearenses, nordestinas. ''Quero dizer que já encontrei e isso tem sido muito prazeroso para mim'', aponta.

   Depois de mergulhar no show-temático MarcvsMúsicaPopularBritto, onde interpretava clássicos românticos da música brasileira, Marcvs Britto conta que sentiu a necessidade de buscar como cidadão fortalezense, cearense, nordestino. ''Tenho uma formação urbana que, muitas vezes, não deixa estas referências aflorarem'', declara. O repertório traz em sua maior parte músicas de autores cearenses: Raimundo Fagner e Ricardo Bezerra (''Manera Fru Fru Manera''), Abidoral Jamacaru (''Canto de côco para Azuleika e Asa Branca''), Eugênio Leandro e Oswald Barroso (''Maria e Marquin''), Roberto Flávio (''Flores Mortas''), entre outros.

   Para acompanhá-lo os músicos Carlinhos Patriolino (violão e bandolim) e Paulinho do Pandeiro. ''Trabalhar com músicos virtuosos dá uma liberdade maior de improvisação. Existe um repertório e um roteiro a seguir mas é a minha relação com os músicos e o público que dá o matiz de cada show'', informa. Este show é o embrião do próximo CD de Marcvs Britto, que está em busca de patrocinadores. ''Se for possível gostaria de fazê-lo ao vivo, justamente para capturar esta relação. Mas se tiver que ser de estúdio, tudo bem!' (LAF)

(© O Povo - NoOlhar.com.br)

 

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