05-06-2008
Esforço de pesquisa
resgata trajetória do mestre Jackson do Pandeiro
Michelle de Assumpção
Enviada especial
SALVADOR -
"Jackson do Pandeiro é o homem-orquestra. Em seu gênero, há poucos artistas
que merecem essa classificação. Sob todos os aspectos, poderia ser apontado
como o maior cantor de sambas ritmados do norte do país", diz uma das
primeiras críticas impressas sobre o ídolo do horário nobre da rádio Jornal
do Commercio. O fato é que Jackson - naquele começo de carreira, apenas Jack
do Pandeiro -, mesmo com a rasgação dos fãs nas portas dos auditórios, só
tornou-se unanimidade quase duas décadas depois de sua morte, em 1982, aos
63 anos, ainda fazendo shows, mas pouco considerado pela mídia.
Dez anos depois, na mesma Paraíba de Jack, o jornalista Fernando Moura
apurava informações que resultariam num livro sobre a música tradicional da
Paraíba. Durante as entrevistas, geralmente com artistas conterrâneos como
Elba Ramalho, Zé Ramalho, Bráulio Tavares, entre outros, Jackson aparecia
como a referência única e mais importante, era tido como a fonte onde todos
iam beber. Como então escrever um livro sobre a música da Paraíba, se ela
era tão somente Jackson?
Foi assim que nasceu Jackson, O Rei do Ritmo (Editora 34, 412 páginas),
assinado ainda por Antônio Vicente, que auxiliou Fernando na pesquisa sobre
o Zé Jack da Paraíba. O livro foi apresentado ontem ao público do V Mercado
Cultural, que termina hoje em Salvador. O autor, junto com o livro, abriu
uma exposição de objetos que pertenceram a Jackson, e que deverão ser
guardados num Memorial a ser erguido na Paraíba. Entre os pertences do
ritmista estão pandeiros, violão, punhal, jaqueta de couro, camisa de seda
(figurino), chapéus, documentos pessoais, fotos e capas de todos os discos
gravados por Jackson. Essa foi a parte mais trabalhosa de toda a pesquisa.
Não havia informações certas sobre quantos e quais foram os discos
gravados por Jackson. Colocar anúncios nos jornais foi a primeira iniciativa
do autor para entrar em contato com pessoas que tivessem alguma informação
sobre esses LPs. O levantamento foi feito nas editoras e gravadoras, sebos,
acervos públicos, Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro e São Paulo. O
acervo particular foi muito importante (Geralda Gomes, Cícero Gomes, Biliu
de Campina, Almira Castilho, entre outros). Foi com a sobrinha Geralda
Gomes, considerada como filha de Jackson, que estavam também cerca de 200
papéis, com letras de músicas que compositores diversos encaminhavam para
serem gravadas por ele. Foram levantados 137 discos, entre 141 presumíveis,
abrangendo desde os velhos bolachões até seu último álbum, Isso é Que é
Forró, lançado em 1981.
O processo mais exaustivo do livro é também o que poderá render mais
dividendos para esse projeto. De posse de todos os discos de Jackson,
Fernando Moura viabiliza um contrato com alguma gravadora, para recuperação
dessas gravações. Algumas, como a Trama, já fizeram contato, mas nada está
fechado até agora. "Antes do livro, as gravadoras não estavam informadas,
não se interessavam. Agora, é desleixo, pois está tudo aí", diz Moura.
Fernando Moura diz que se não houver interesse das gravadoras, vai elaborar
projeto de lei de incentivo à Cultura e fazer ele mesmo o trabalho. "É um
tesouro que não pode ficar escondido", diz o escritor.
Fernando Moura abraçou a causa em sete anos de pesquisas e se emociona com
a narrativa regional, poética e rica em detalhes da trajetória do Rei do
Ritmo. Vai do menino pobre e analfabeto ( que após a morte prematura do pai,
torna-se chefe de família e base de sustentação dos irmãos e da mãe, a
coquista Flora Mourão), até o ritmista respeitado que conquistou algumas
glórias, como amor, bens materiais; e ainda que desperdiçou tudo isso quando
se separou da mulher, Almira Castilho. Aí amargou outra vez, com problemas
de saúde e pouco dinheiro.
O acidente, em 1968, que deixou seqüelas em Jackson, o afastou mais ainda
dos palcos. Foi Gilberto Gil quem combateu essa primeira fase de ostracismo,
quando grava, em 1972, o disco Expresso 2222. Estavam lá Chiclete com
Banana, e ainda O Canto da Ema. Na visão de Gil, Jackson seria um
pré-tropicalista, o cantor que mais lhe influenciou. Conforme o autor, no
entanto, "a clarividência de Gil coloca Jackson de novo em cartaz".
Vinte anos após sua morte, a obra de Jackson, imortalizada, segue na boca
de artistas populares que ainda hoje dizem aprender com o seu talento (de
Alceu Valença a Silvério Pessoa). Jackson, Rei do Ritmo é outro gancho para
recolocar Jackson no posto de pilar da música nordestina de raiz, ao lado de
Luiz Gonzaga. Uma referência unânime da música popular nacional.
(©
Diário de Pernambuco-Pernambuco.com)
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