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Tradição dá a cara do Mercado Cultural de Salvador

05-06-2008

Bule Bule foi um dos destaques da mostra

Jamari França - Globonews.com

   A tradição encerrou o V Mercado Cultural em Salvador, depois de sete dias de conferências, espetáculos de música, dança e teatro na maior mostra da arte independente que acontece na América Latina. O ex-Mestre Ambrósio Siba trouxe o grupo A Fuloresta – “o mais novo tem 73 anos” - com um espetáculo de dança com muito coco e maracatu. De Santiago de Cuba vieram Los Jubilados, encabeçados por Mario Carcasses e Juan Gualberto Ferrer, cada um levando oitentinha nas costas. Os velhinhos não decepcionaram, atiçando a platéia durante uma hora com muita rumba e son, que teve como ponto alto Chan Chan, de Compay Segundo, falecido em julho último.

   No encerramento foram anunciados os vencedores do Prêmio Unesco de Fomento às Artes, com um diploma e cinco mil dólares cada para Beth Goulart por Dorotéia minha, Lula Queiroga por seu show com o grupo Wolfgang, o grupo baiano de dança Vila Dança pelo espetáculo Caçadores de Cabeças e o artista plástico baiano Guache Marques que expôs com o tema da ancestralidade.

   Ancestralidade não faltou no Mercado Cultural. Não apenas pela profusão de grupos que preservam as raízes africanas como por outro ponto alto do domingo de encerramento, uma missa na Igreja de N.S. do Rosário dos Pretos no Largo do Pelourinho, construída pelos escravos no século 18 e um caso único dentro da igreja católica. Lá tem música com muita percussão, incluindo samba e reggae, o padre jesuíta Alfredo Dória fala a linguagem de seus párocos, a população modesta do Pelourinho, pede que cada um agradeça ao Deus que está acostumado, seja de que crença for e chama a igreja de “a catedral da negritude na América Latina”.

   Na concha acústica do Castro Alves, o dia foi da americana Ani di Franco, uma artista independente com mais de 1 milhão de cópias vendidas em uma década, e de Lenine, que é rei na Bahia. Sua presença foi a principal responsável pela presença de seis mil pessoas na platéia, contra 2,5 mil no dia anterior quando se apresentaram o Jongo da Serrinha, do Rio de Janeiro e o endiabrado Silvério Pessoa com uma coleção de frevos que incendiou a massa. Num encontro com a imprensa, Ani defendeu sua autonomia com muito bom humor, dizendo que preferia fazer em 10 anos o que uma multinacional do disco pode fazer em 10 meses porque acha mais divertido o trabalho de formiguinha que realiza desde 1990.

   - Meu segredo é o contato direto com o público, ficar na estrada sem parar conquistando as pessoas que vãos aos shows e confiando também no boca a boca. Acho que hoje em dia está havendo uma desilusão dos jovens com o controle das corporações e eles estão indo mais às lojas que vendem independentes – diz ela, que disse ter vindo ao Brasil graças à ajuda de Lenine, com quem já fez duas turnês e gravou no disco dele Falange Canibal.

   Lenine disse que os dois são artesãos musicais e que o mercado cultural é um produto do circuito mundial independente que já existe e não o projeto de alguma coisa que ainda está por acontecer.

   - O nicho parece menor, mas na verdade não é. A Ani freqüenta a discoteca de muita gente no mundo. Está havendo uma mudança de foco. O poder real tem que estar na mão de quem faz e não na de quem distribui.

(© Globo News)


Mais de mil artistas passaram pelo evento

Jamari França - Globonews.com

   O Mercado Musical reuniu em Salvador durante seis dias, mais de mil artistas que se apresentaram em 12 pontos da cidade em diversos horários, em alguns casos fazendo interferência no cotidiano, como foi o caso da companhia alemã Angie Hiesl Produktion com seu espetáculo "X-vezes gente cadeira", que colocou pessoas sentadas em cadeiras a 10 metros de altura fazendo coisas do cotidiano como se fosse a coisa mais normal do mundo ver uma senhora pendurada preparando um arranjo de flores.

   No Pelourinho, a muvuca normal das noites do mais badalado ponto turístico da cidade recebeu centenas de pessoas adicionais a cada noite para quatro espetáculos que começavam com intervalos de meia hora em três grandes bares que aqui chamam de praças. Não faltaram, desfiles pela rua que arrebanharam gente porque baiano não precisa de desculpa para pular carnaval e assim foi com o Maracatu Nação Porto Rico e o Grupo Boi Axé, que foram desembocar na Fala, uma feira de artes com 80 estandes onde se pode comprar de tudo, desde tecidos com padrões africanos a discos de artistas independentes de todo o mundo, muito artesanato e também negócios, porque havia estandes de empresários e produtores.

   Teve muita discussão também. Uma série de conferências tratou de assuntos como o Fórum Cultural Mundial que vai acontecer pela primeira vez de 26 de junho a 4 de julho de 2004 em São Paulo, abrindo uma tribuna de discussões que se juntará aos fóruns econômico e social já existentes que mobilizam interessados do mundo inteiro. O Brasil foi aceito pela riqueza de sua cultura e por estar à parte dos conflitos mundiais e o presidente do Fórum é o brasileiro Ruy Cezar Silva, diretor do Mercado Cultural, que trabalha há mais de 10 anos na formação de uma rede latino-americana que já tem 300 escritórios que fazem coleta de tudo que se faz de arte independente em seus países.

   A diversidade de espetáculos e sua quantidade diária são um desafio para quem se interessa por cultura, que ao final dos seis dias mal se agüenta de pé. Do que foi possível ver, houve momentos de grande emoção com mestres da tradição como Manoel Marinheiro, do Boi de Reis, uma mistura de boi bumbá e folia de reis e com Chico Daniel, mamulengueiro, que passou mal no meio de seu espetáculo na Feira e foi parar no hospital com uma crise de hipertensão.

   Bule Bule, do interior da Bahia, é outra força na natureza, poeta de mão cheia, autodidata, faz músicas e poemas de grande sabedoria e abre o verbo contra o descaso em relação ao artista popular. Houve boas surpresas como o grupo Dona Zica, de São Paulo, liderado por Anelis Assumpção, filha de Itamar Assumpção, que leva a bandeira do pai em músicas que tem humor e crítica social. Da Suíça veio a cantora Laurence Revey mostrar as tradições de seu país com roupagem contemporânea de elementos eletrônicos. Na seara orgânica, o uruguaio Leo Masliah surpreendeu com um espetáculo de muito humor acompanhando-se ao piano, Guinga deu uma aula de sensibilidade e virtuosismo, os componentes do grupo Barbatuques de São Paulo mostraram todas as possibilidades musicais do corpo humano, o único ‘instrumento’ que tocam, quem gosta de rock se divertiu com o peso do grupo Norman Bates do Pará e com o La Sarita do Peru e o Xique Xique baratinho de Alagoas.

   A Praça Pedro Arcanjo no Pelourinho quase foi abaixo no último sábado com o show da Orquestra Spok de Frevo de Recife, que inova colocando solos jazzísticos no meio das músicas, mas não deixou ninguém parado. Como o tempo dos shows era de apenas 50 minutos e não havia negociação, eles desceram do palco e saíram tocando pela rua, transformando por meia hora o Pelourinho em Olinda, a cidade histórica vizinha a Recife onde brinca-se o carnaval com a mesma disposição dos baianos. Durante seis dias, Salvador deixou de ser a capital do axé para receber arte de qualidade que precisa ganhar mundo com a mesma força que a música industrializada destas bandas. Talento e qualidade há de sobra, como o Mercado Cultural mostrou. E olha que nem falei dos mestres da guitarrada do Pará, do Speak in Tones, do Abuela Coca...

(© Globo News)

 

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