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Accademia é templo de uma vida inteira

05-06-2008

Repouso, 2001. Bastão aquarelado e caneta sobre papel (Francisco Brennand)

DIANA MOURA BARBOSA

   O artista plástico Francisco Brennand abre hoje o mais novo espaço do impressionante complexo de arte que é a sua Oficina Cerâmica Francisco Brennand. O local, que em homenagem à Escola de Veneza chama-se Accademia, é uma enorme galeria de arte, com mais de mil metros quadrados de área expositiva, além de contar com um auditório de 128 lugares, reserva técnica e lugar para abrigar uma biblioteca. O prédio foi erguido para desfazer o equívoco, já por demais comentado, de se restringir a obra de Brennand à sua produção de cerâmica, relegando desenho e pintura a segundo plano. Agora, além de dizer que não se limita ao ofício de escultor, o artista pode mostrar toda a riqueza do seu trabalho.

   No propósito de corrigir o engano, o artista conta com pelo menos três grandes colaboradores. O primeiro é o escritor Weydson Barros Leal, que há dois anos pesquisa sobre os desenhos de Brennand e lança um livro sobre o assunto (ver matéria na pág. 5), o segundo é o arquiteto Reginaldo Esteves, responsável pelo projeto da Accademia, por fim, o curador de arte Emanoel Araújo, convidado para selecionar e organizar os desenhos e pinturas do artista. Para usar um termo caro ao universo brennandiano, pode-se dizer que Araújo teve um trabalho hercúleo. Ao selecionar ‘apenas’ 230 desenhos e 73 pinturas, ele revela que o dobro dessa quantia ficou de fora da exposição.  

   “Brennand é um artista inquieto. Ele produz muito. Eu já conhecia seu trabalho, porque foi quando dirigi a Pinacota do Estado de São São Paulo que ele expôs lá. Mas, mesmo para mim que já conhecia, foi muito surpreendente ver o volume do trabalho. Por outro lado, facilitou meu trabalho, porque há uma quantidade enorme de peças de boa qualidade. Seria mais difícil ter que garimpar esse material em outros ateliês. Aliás, esse é também um desafio, que é apresentar um artista em toda sua inteireza, com obras que revelem sua totalidade como criador”, explica o curador.

   Brennand, muito bem-informado do que se passa no cenário institucional da arte pernambucana, sabe que ele mesmo é o seu maior trunfo. Ao contrário do Museu de Estado, que teve que recorrer à obra de João Câmara para inaugurar o Espaço Cícero Dias – para ficar só em um exemplo –, a Accademia não precisa voltar-se para outros acervos. O trabalho de Brennand não só se basta como vale seu peso em ouro para qualquer instituição que precisar se validar. “O cenário cultural pernambucano está crescendo muito nos últimos anos. Temos o recém-inaugurado Espaço Cícero Dias, além da previsão de abertura do Centro Cultural Banco do Brasil e da Fábrica Tacaruna. Sem contar com o Mamam, o Instituto Cultural Bandepe e com aquele de meu primo (Instituto Ricardo Brennand), que não deixa de ser um espaço cultura, não é?”, enumera o artista plástico.

   E sua Accademia não fica atrás de nenhum dos projetos citados por Brennand. Todos os requesitos de um bom espaço cultural estão contemplados. Áreas climatizadas, espaço confortável para exposição das obras, ampla reserva técnica e sala para conferências fazem do lugar um centro completo. Além disso, Brennand lembra que o lugar é inspirado por musas-sereias (“mulheres-aves, como está em Homero”, lembra Brennand) Leucósia, Partênope e Lígia, além de estar protegido por Medusa.

Exposição
Uma Obra em Perspectiva e lançamento do livro Brennand Desenhos, hoje, às 20h30, na Oficina Cerâmica Francisco Brennand – Propriedade Santos Cosme e Damião, s/n, Várzea. fone: 2371.2466.

(© Jornal do Commercio-PE)


Todas as mulheres de Brennand

Desenhos revelam pluralidade de Brennand ao apresentar variação de técnicas e materiais para materializar a sedução plástica do corpo feminino

   É o desejo, nada mais, que deve guiar o observador em suas descobertas ao universo dos desenhos e pinturas do artista plástico Francisco Brennand. Não a ânsia do novo – já que algumas das obras expostas são da década de 1940 –, mas a busca pelo desconhecido, por algo verdadeiramente valioso e que até então esteve escondido. Em seguida, é preciso encontrar o desejo que emana da própria obra do artista. Apesar de contar com alguns desvios, o principal motivo do acervo que abre a Accademia é a inquietude de Brannand diante do universo feminino. A maioria de suas obras são interessantes variações da mulher como mesmo tema.

   Para os que estão acostumados com a presença marcante das esculturas arredondadas de Brennand, seus desenhos parecerão mais delicados e sutis. Nos dois casos, entretanto, a figura feminina é retratada com uma força impressionante. Enquanto no primeiro caso a densidade das obras vem do tratamento mitológico e grandiloqüente que dilacera mulheres com dramaticidade, nos desenhos, os corpos são vistos com mais inteireza, materizando um sem número de intenções e sentimentos.

   Nas imagens criadas por Brennand, é possível encontrar volúpia e recato, desejo e medo, sensualidade e ingenuidade na mesma medida. Essa diversidade de formas se reflete também nas técnicas empregadas pelo artista. Essas foram os dois guias usados por Emanoel Araújo para agrupar as obras que fazem parte da exposição.

   “A mostra conta com quase 400 trabalhos. Por isso, para amenizar essa exaustão, eu tive que separar e reunir os desenhos e pinturas de acordo com certos temas. Essa organização facilita a observação das imagens”, destaca o curador. Para Araújo, além da tão conhecida qualidade do trabalho de Brennand, a exposição se destaca por essa variedade de formas. “É uma lição de vida, de transpiração e disciplina artísticas. Porque, na realidade, esse trabalho tem um volume que é muito respeitável, mas não é apenas quantidade, tem também muita qualidade, está resolvido em si mesmo. Não são esboços, são obras de arte prontas e numa quantidade que só é possível para quem trabalha muito”, destaca.

   De fato, o artista produz tanto que está quase sendo expulso do seu ateliê pelas suas próprias obras, que acumulam-se por todos os cantos da sala. “Isso não seria um privilégio meu. Também Picasso, entre outros artistas, teve que mudar de residência por diversas vezes para acomodar a si e a suas obras”, lembra Brennand. (D.M.B.)

(© Jornal do Commercio-PE)


Artista revela força e surpresa da sua contemporaneidade

   Assim como Emanoel Araújo fez para montar a exposição, também o escritor Weydson Barros Leal precisou reagrupar os desenhos do artista Francisco Brennand para conseguir dissertar sobre eles. A edição do livro Brennand Desenhos, fruto da persistência e da luta pessoal do autor, com apoio do Funcultura e da Gráfica Santa Marta, traz várias séries de obras do artista, cada uma mais deliciosa que a outra.

   Entretanto, ao contrário da exposição, que funciona como uma gigantesca retrospectiva, o livro de Weydson traz apenas algumas das imagens realizadas entre 1940 e 1990. A maioria do farto material concentra-se na produção mais recente do artista pernambucano, com ênfase nos trabalhos realizados entre 2000 e 2003. Isso quer dizer que o livro não funciona como um catálogo da mostra, mas entrega-se com prazer à tarefa de desmistificar um Brennand pouquíssimo conhecido do público: o contemporâneo.

   É então, com um misto de surpresa e regojizo, que os leitores poderão perceber a densidade das obras de um artista do seu tempo – com toda a carga que esse termo carrega. Seu trabalho não traz ranços das belas-artes, apesar de ter passado por elas com maestria. “Brennand não demonstra preconceitos com materiais, indo do nanquim à caneta bic, passando pelo pastel, guache e lápis de cor. Da mesma forma, ele passeia por todas as maneiras de desenhar, ora apresentando figuras compostas apenas com traços, ora criando imagens hiper-reais ou completamente manchadas”, atenta Weydson.

   Da mesma forma, o artista se comporta em relação aos papéis que abrigam seus trabalhos, que podem ser folhas importadas ou páginas rabiscadas pelo seu filho mais novo. Brennand se apropria dessas imagens com uma destreza de fazer inveja a muitos contemporâneos. Em alguns momentos, a relação entre ‘figura’ e fundo é imperceptível, noutras peças, ele faz o desenho infantil interagir com seu próprio traçado, criando diálogos interessantes.

   Outra série que merece destaque pela sua atualidade é a de desenhos sobre peixes. O artista reutiliza uma série de ilustrações de peixes, criados com filigranas de botânico, na década de 1960, quando praticava a pesca submarina como esporte. Sobre as imagens, inventa novos desenhos, misturando completamente os elementos, que às vezes são fundidos de uma maneira perturbadora.

   “Quando decidi fazer o livro de desenhos, eu o fiz porque sabia que estava diante de um material quase todo inédito, pouquíssimo visto e ainda não analisado. Eu sabia da riqueza que tinha em mãos”, pontua Weydson. Além de seus textos, o volume traz uma abertura de Ferreira Gullar, que avalia as imbricações desenho-pintura no material apresentado na publicação. (D.M.B.)

O livro será vendido por R$ 130

(© Jornal do Commercio-PE)


Brennand dialoga com sua criação
 
Exposição que abre espaço Accademia revela a insuspeita pintura descritiva, psicológica e realista do artista
 
Júlio Cavani
Da equipe do DIARIO
 
   Um novo artista será revelado ao Brasil hoje à noite com a inauguração do espaço Accademia, inicialmente dedicado à obra de Francisco Brennand. Mais do que confirmar sua contribuição para a arte brasileira por meio de uma linguagem eclética consagrada, a exposição que abre o centro cultural, intitulada Perspectiva de uma Obra, faz o público descobrir um Brennand sem uma estética rígida definida, em muitos casos irreconhecível, com aproximações até mesmo do universo urbano contemporâneo e da fotografia. É lógico que estão lá suas famosas pinturas de frutas, suas esculturas mitológico-sexuais e seus painéis de cerâmica, mas a coleção apresentada não deixa que essas imagens se sobreponham a uma reveladora pintura descritiva, psicológica, narrativa e realista, agora também manifestada em paisagens, auto-retratos e retratos.

  "A idéia é mostrar um retrospectiva em que a obra se agrupa por momentos, por fases, por avanços e recuos desse inquieto criador Francisco Brennand", esclarece o curador da exposição Emanoel Araújo. "É um diálogo constante entre ele e ele mesmo, onde pintura, desenho e escultura se aproximam e reaproximam. A construção da sua pintura já parte da tridimensionalidade", comenta, referindo-se a uma série de aquarelas que retratam as esculturas do artista.

  O próprio Araújo confessa que descobriu características novas na obra de Brennand, em fases de seu trabalho que nem ele conhecia. Apontando para uma das paredes do novo espaço, o curador mostra uma série de telas da década de 1980, que retratam frutas de forma fragmentada e volumosa. "Nelas, percebemos uma nítida procura da natureza brasileira, da brasilidade. Elas são reveladoras pela aproximação com a obra de outros artistas brasileiros, como Tarsila e Vicente do Rego Monteiro. Há uma antropofagia", analisa.

  O lado urbano, narrativo e declaradamente atual de Brennand está manifestado de forma gradual em três séries dedicadas ao retrato de jovens mulheres, uma delas recontando sem inocência a história de Chapeuzinho Vermelho. Na mais recentedas três, com obras de 2001 a 2003, mulheres sem rosto são espionadas enquanto aparecem usando cores pops em roupas ousadas.

  A Accademia, localizada ao lado da famosa oficina cerâmica da Várzea, é mesmo monumental, mas o antigo ateliê, ainda ganha em impacto, por se confundir com a própria obra do artista. "Ele construiu uma cenografia em que a obra se integra na paisagem e a escultura ganha uma função na construção do espaço. A monumentalidade está manifestada no desenho, na cerâmica, na pintura, na escultura e nos painéis", comenta Emanoel Araújo, sobre o painel da Rua das Flores, cujos esboços estão reunidos em uma sala exclusiva da mostra.
 
(© Pernambuco.com)
 
Livro reúne desenhos recentes
 
   Além do pavilhão dedicado à exposição Uma Obra em Perspectiva, a Accademia acrescenta à Oficina Cerâmica Francisco Brennand uma biblioteca, pátios ornamentados com cerâmica, jardins projetados por Burle Marx e um teatro. Projetado pelo arquiteto Reginaldo Esteves, o conjunto é uma referência do artista às accademias de Veneza, instituições monumentais dedicadas ao conhecimento e à arte. Além da inauguração do espaço, na noite de hoje será lançado o livro Brennand Desenhos, de Weydson Barros Leal.

  Com prefácio de Ferreira Gullar, que confirmou presença no lançamento, o livro reúne 260 desenhos de Brennand em 13 capítulos, concentrando-se em sua produção mais recente, dos últimos cinco anos. Segundo Weydson, 70% deles são retratos de mulheres, principalmente jovens, obsessão do artista herdada de sua maior influência, Balthus. Entre os mais antigos estão um figurino desenhado por Brennand para a primeira montagem de O Auto da Compadecida, ilustrações para uma cartilha de alfabetização de Paulo Freire (a maioria se perdeu durante o golpe de 64) e os esboços do painel da Batalha dos Guararapes.

  Nos retratos femininos, Weydson observa que Brennand praticamente se transforma em um outro artista. "Enquanto nas esculturas ele aborda partes isoladas do corpo da mulher, nos desenhos ele é extremamente descritivo. Na verdade, toda a sua obra está voltada para o corpo feminino, seja na sensualidade ou na filosofia ligada a temas como a fecundidade." O escritor ainda chama atenção para a desconhecida relação de Brennand com a fotografia. "Praticamente a totalidade dos desenhos é feita a partir de fotografias tiradas por ele mesmo e em muitas isso é perceptível, apesar de haver uma preocupação pessoal em diferenciar as duas linguagens."
 
(© Pernambuco.com)

Para lembrar que Brennand também é pintor

Com rara exposição de pinturas e desenhos, o artista inaugura hoje o espaço Accademia

ÂNGELA LACERDA
Correspondente

   RECIFE - Francisco Brennand, o artista que já alumbrava os visitantes de sua oficina cerâmica, onde mais de 2 mil esculturas povoam espaços abertos e fechados num ambiente que remete ao sagrado e ao mitológico, vai ampliar a magia que construiu na sua propriedade Cosme e Damião, no bucólico bairro da Várzea. Hoje, ele inaugura o Espaço Cultural Accademia, brindando o público com uma rara exposição de pinturas e desenhos, a maioria deles inéditos.

  São quase 300 peças, realizadas desde a década de 40, que também incluem esculturas - para a expressão de todas as linguagens do artista -, numa mostra intitulada Brennand: Uma Obra em Perspectiva, com curadoria de Emanoel Araújo, diretor da Pinacoteca de São Paulo entre 1992 e 2002. "A mostra tira da minha pintura esse caráter secreto, inatingível", afirma Brennand. "As novas gerações nem sabem que sou pintor." Ele lembra que sua última grande exposição de pinturas foi em 1969, em São Paulo, seguida de outra mostra, 20 anos depois, em que alguns quadros apareciam ao lado de cerâmicas.

  A exposição ficará em cartaz durante um ano e as obras não estão à venda.

  "Pretendo que esse lugar seja um museu definitivo das minhas obras e não se vende o acervo de um museu", explica ele. A Accademia, expressão escolhida para homenagear a Accademia de Veneza, tradicional espaço da arte italiana dos séculos 17 e 18, tem pé-direito duplo, é toda climatizada, com mezanino para biblioteca informatizada e loja. A biblioteca vai dar acesso a todos os livros de arte e sobre arte consultados, pesquisados e acumulados por Brennand nos últimos 60 anos.

  Também está integrado à Accademia um teatro de 128 lugares, com sofisticado sistema de acústica e iluminação, para pequenas representações teatrais, concertos, palestras. A Accademia é separada da oficina cerâmica por um belo e amplo jardim idealizado por Roberto Burle Marx em 1992. Burle Marx morreu em 1994, antes da sua execução, mas o projeto foi batizado com o seu nome, como atesta uma placa fixada no local.

  Todo esse complexo se situa numa área de 12 hectares cortada pelo Rio Capibaribe, que enfeita o Recife, numa área remanescente da Mata Atlântica.

  Foi construído a partir das ruínas da olaria do seu pai, Ricardo, surgida em 1917, uma das primeiras de Pernambuco, e desativada em 1950. Em 1971, o filho artista da família de empresários reconstruiu e reabriu a fábrica, recuperando seus imensos galpões e criando o museu de esculturas.

  Desde então trabalha incansavelmente no local, que ganha cada vez mais vida e arte, movido pela inquietação criativa de Brennand. Aos 76 anos, para ele maior satisfação que a inauguração da Accademia, é o fato de continuar ativo, produzindo arte. Ele lembra da existência de desenhos, pinturas e esculturas pós-retrospectiva, nascidos muito recentemente, e afirma: "Esse é o meu legado, não um fetichismo de pedra e cal."

  Durante a inauguração da Accademia, uma edição de luxo do livro Brennand Desenhos será lançada pelo seu amigo e biógrafo Weydson Barros Leal. Com apresentação de Ferreira Gullar, o livro é dividido em 13 capítulos e apresenta 230 desenhos.

  Cercada de grades de ferro desenhadas pelo artista, a Accademia representou um investimento de R$ 2 milhões, parte dos quais foi financiada pelo irmão Cornélio, que o ajudou a concretizar a expansão da oficina cerâmica. Como o projeto é ambicioso e já prevê novas construções - praças, templos e até uma igreja católica -, Brennand pretende transformar o espaço cultural em um instituto, a fim de captar recursos para sua manutenção. O projeto arquitetônico da Accademia é assinado pelo arquiteto e urbanista Reginaldo Esteves, enquanto a luminotécnica é de Peter Gasper e a acústica da arquiteta Maria Berenice Lins.

  Nordestino e universal - Emanoel Araújo qualifica Brennand como "uma grande figura mundial da arte, um nordestino universal" e um artista "moderno no sentido mais amplo da palavra". Para ele, o maior desafio da exposição é mostrar o artista na sua inteireza, reunindo todas as suas ansiedades e circunstâncias, dentro de uma visão retrospectiva que vasculhe todo esse tempo ocorrido na sua vida, através da arte. Araújo, que entrou em contato com a obra de Brennand nos anos 60, considera-o único - tanto pelo volume da obra, como pela preocupação com a sua preservação e pela originalidade da apropriação do espaço (a oficina cerâmica e seu entorno) como criação. "Verdadeiras instalações, esses espaços vão muito além do pioneirismo e são uma nova forma de expressão, pela monumentalidade teatral dessas acumulações de formas, texturas e cores", afirma o curador, que em uma grande parede da galeria procurou fazer um retrato "do complexo senhor que é Brennand", inter-relacionando e dando unidade a desenhos, quadros e cerâmicas de variadas épocas.

  Outras paredes trazem trabalhos nunca vistos, a exemplo de figurinos da peça O Auto da Compadecida, do amigo Ariano Suassuna, desenhos criados para a campanha de alfabetização do método Paulo Freire, na década de 60, e para a realização do painel A Batalha dos Guararapes, instalado no centro da cidade.

  A apresentação da exposição traz também poemas feitos para Brennand, inspirados na sua obra, assinados por Carlos Pena Filho (A Solidão e Sua Porta) e João Cabral de Melo Neto (O Ceramista), além de textos de críticos como Olívio Tavares de Araújo, em que ele observa que a arte de Brennand "fala do homem, da sua trajetória no planeta (sobretudo seus sofrimentos e tragédias) e do sexo como força motriz".

  A forte carga sexual dos seus trabalhos é explicada por ele mesmo com uma frase do historiador inglês Arnold Toynbee, que disse que "o sexo, mais do que a morte, deixa o homem diante de uma perplexidade insanável". E Emanoel Araújo cita Picasso - "Não se deve pintar senão que se ama" - para dizer que "no caso de Brennand, é muito mais do que amor, é um turbilhão de paixões".

  Com seu ar fidalgo, digno, chapéu de palha realçando a longa e bem cuidada barba branca, Brennand é um homem acessível que atende a imprensa com total disponibilidade, assim como conversa e explica sua obra a visitantes que o flagram nas dependências da oficina-cerâmica - também chamada museu das esculturas. Recluso, ele tem uma rotina rígida, herdada do pai, que começa muito cedo. O dia tem sua atenção dividida entre a arte, os funcionários e a fábrica de azulejos e cerâmica - cuja produção caiu de 15 mil metros quadrados/mês para 8 mil metros quadrados/mês, por causa da retração do mercado. Praticamente sem vida social, confessa que o filho de 11 anos, Oliver Edward, "prova do quanto foi travesso", tem sido o encanto da sua velhice.

(© O Estado de S. Paulo)


O outro lado do barro

Pernambucano Francisco Brennand traz à luz 248 obras de toda a carreira que revelam outras facetas de sua produção

ALEXANDRA MORAES
ENVIADA ESPECIAL A RECIFE

   Numa antiga oficina de cerâmica, nos arredores de Recife, Francisco Brennand, 76, moldou a sua arte mais conhecida, e expõe, em cerca de 14 mil m2, quase 2.000 esculturas. No mesmo espaço, surgem agora os outros lados de Brennand, que são muitos. Para mostrá-los, o artista inaugura amanhã, dentro da Oficina Cerâmica que leva seu nome, o espaço Accademia.

   A galeria é aberta com "Brennand: Uma Obra em Perspectiva", uma mostra de 248 desenhos, óleos, gravuras e murais que estavam guardados pelo artista. A curadoria ficou a cargo de Emanoel Araújo.

   Sobre antigos nanquins do fim dos anos 50 em que apareciam peixes, foram desenhadas, mais de 40 anos depois, formas femininas, dando origem à série "Mulheres Peixe". "Eu fazia pesca submarina e, quando não comia os peixes, eu os desenhava. Cada vez aquilo ficava mais apetitoso, à medida que ia envelhecendo", relata o artista. "Mais ou menos 30, 40 anos depois, desenhei sobre eles um tema bem mais interessante, que é mulher."

   O interesse de Brennand pela mulher perpassa toda a sua obra gráfica, assim como está presente nas esculturas. As séries "Chapeuzinho Vermelho", "Casa das Pernas" e "2003" expõem a visão/ pulsão de Brennand acerca do que se chama "universo feminino". Enquanto "Chapeuzinho" e "Casa das Pernas" (uma referência a "Casa de Bonecas", de Henrik Ibsen) exploram formas curvilíneas e algo de volúpia, "2003" apresenta deformações. "É uma série supostamente trágica, porque 2003 foi um ano de guerra, por isso quis dar deformidade às figuras femininas", explica.

   "Há um clima psicológico em que eu não quis entrar muito", adverte Emanoel Araújo. "É algo muito particular de Brennand, uma coisa erótica e intranquilizadora ao mesmo tempo", continua.

   Perto de "2003", está a multicolorida série de desenhos que o artista fez para os figurinos do filme "O Auto da Compadecida", dirigido em 1969 por George Jonas a partir da obra de Ariano Suassuna, amigo de Brennand. "Fiz 76 desenhos, com muitas cores, sobreposições. Só não percebi que havia pensado em muita roupa para uma filmagem no sertão pernambucano", diz. "[O ator] Armando Bogus [1930-93], que fazia João Grilo, disse que não iria vestir aquelas roupas, que passava calor, e acabou filmando de calça preta e camisa do Flamengo."

   Outra série peculiar é composta por desenhos de Brennand para o método de alfabetização do educador Paulo Freire (1921-1997). "São desenhos muito simples, de traços muito estilizados. Quase tudo desapareceu nos primeiros dias do governo militar. Mas foram microfilmados por americanos, existem em algum lugar remoto", especula.

A jornalista Alexandra Moraes viajou a convite da Oficina Cerâmica Francisco Brennand

BRENNAND: UMA OBRA EM PERSPECTIVA. Quando: quinta, às 20h30, para convidados. A partir de sexta, dia 12. De seg. a sex.: das 8h às 18h. Até 11/12/2004. Onde: Oficina Cerâmica Francisco Brennand (propriedades Santos Cosme e Damião, s/nº, Várzea, Recife, tel. 0/xx/81/3271-2466). Quanto: entrada franca.

(© Folha de S. Paulo)

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