Notícias
Caetano Veloso lança em DVD 'Cinema falado', sua única experiência no cinema

05-06-2008

 

Jamari França - Globo Online

   Caetano Veloso dirigiu um único filme na vida, "Cinema falado", de 1986, polêmico e experimental no sentido mais literal da palavra, o de um artista musical que está experimentando sua capacidade de fazer cinema. O protagonista do longa colorido de 110 minutos é a palavra.

   - É o tema da fala com ecos, respostas, a fala filmada e sempre com o mesmo método, de filmar a fala não direto para a câmera numa situação paradramática cuja dramaticidade tem pouco a ver com a fala - explicou Caetano numa entrevista coletiva depois da exibição do filme na sede da gravadora Universal no Rio.

   Um elenco de amigos e parentes desfila textos escritos pelo próprio Caetano ou de Guimarães Rosa, como é o caso de um trecho de 15 minutos de ‘’Grande sertão: Veredas" falado por Hamilton Vaz Pereira, ator e diretor de teatro, num dos momentos mais difíceis do filme, que está sendo lançado em DVD. Feito a partir da única cópia que existia com internegativo, encontrada na cinemateca de São Paulo, a novidade vem com 172 minutos de extras, incluindo dois clipes dirigidos por Caetano - "Terra" e "O estrangeiro" -, depoimento de pessoas que participaram, comentários de Caetano e explicações dele sobre cada trecho do filme.

O primeiro do século 21

   O filme passou "quase em branco" por ter sido feito por Caetano, pelo menos é o que ele mesmo acredita, irritando-se quando se lembra das críticas que recebeu. Uma delas disse que o filme passaria em branco se não tivesse sido feito por Caetano, mas ele acha que foi o contrário, que passou quase em branco porque foi ele quem fez:

   - Eu fiquei muito deprimido com as agressões que recebi. Evidentemente, como trabalho experimental do ponto de vista técnico, é infinitamente superior a um disco como ''Araçá azul'' de que, no entanto, ninguém ousa dizer que está mal feito. Se você é músico, é obrigado a ser músico, não pode ter liberdade. 'Cada macaco no seu galho', disse a Suzana Amaral na 'Folha' na época, me xingando e, curiosamente, dizendo claramente que não viu e não iria ver o filme.

   Uma das falas do filme diz que "o Brasil ainda não chegou ao século 20, mas quer ser o primeiro país do século 21." Como o século 21 já está em vigor, Caetano foi cobrado a respeito:

   - Excursionando pela Europa senti a ilusão de que o Brasil era o primeiro país do século 21 por causa da eleição de Lula. Os europeus viram isso como a salvação do mundo. Eu acho que esse mito tem a ver conosco. Fernando Pessoa, num poema para Mário de Sá Carneiro diz que ele procurava um oriente ao oriente do oriente. A nossa tarefa é procurar criar um Ocidente ao Ocidente do Ocidente e o Brasil tem todas as ferramentas pra isso. Agora, se vamos fazer ou não, não sei. Essa coisa de ser visionário é do artista, mas eu sou cético, não sou religioso porque acho que a religiosidade nos tem feito muito mal ultimamente. Não tenho a crença de que isso é uma fatalidade, uma destinação.

   Outro trecho que tem traços visionários é uma fala de Dedé e Felipe sobre o cinema brasileiro, quando dizem que a aceitação do cinema em português seria conquistada através da televisão, mas também questiona se o cinema funciona no Brasil por ser caro e termos uma população analfabeta que não vê filmes:

   - Eu dizia que a televisão resolveu o problema da conquista de público pelo cinema, eu sabia que isso ia em frente, é profético neste pequeno detalhe. Neste momento os brasileiros sentem que o cinema atingiu um bom alto padrão médio, o povo da rua fala isso, é uma vitória, mas não é tudo. É muito bom que esteja acontecendo, porque ao mesmo tempo em que você tem de ''Carandiru'' a ''Lisbela e o prisioneiro'', que são filmes estilística e tematicamente opostos no topo do sucesso e com ''Cidade de Deus'' entre os dois, você tem um Festival de Brasília em que cinco grandes autores não comerciais e experimentais apresentaram seus melhores trabalhos.

Regina Casé em caricatura de Fidel

   Caetano rejeita os argumentos de que o cinema comercial está sufocando as produções autorais:

   - O fato de haver essa sensação de abundância provocou uma natural contrapartida do cinema experimental, que estaria muito mais esmagado se não tivéssemos a sensação de uma relativa opulência na criação e distribuição de cinema.

   Ele diz que chegou a pensar em fazer uma nova montagem do filme para o lançamento em DVD, embaralhando-o para que as partes mais difíceis, como monólogos em alemão, francês e do Guimarães Rosa e de Hamilton se misturasse com elementos mais pops, como o de Regina Casé mostrando como interpretou os movimentos de Fidel Castro numa entrevista, ou Dorival Caymmi dizendo que uma mulher precisa tomar o poder em Cuba para restabelecer o requebrado, o remelexo.

   O menino do Rio e tribalista Dadi pilota uma guitarra para falar de Bob Dylan e Beatles, arrancando solos ao estilo de Jimi Hendrix. Mauricio Mattar aparece num nu frontal, há outras aparições sexuais no módulo específico do filme, dividido em seções como arte, literatura, artes plásticas etc. Uma jovem Paula Lavigne, atual mulher de Caetano, diz que o corpo da mulher é um fardo e mistura sua fala erótica com os grunhidos de Linda Blair possuída pelo diabo em ''O exorcista''.

   Tudo isso mexeu com o público na estréia no festival do Rio em 1986, mas Caetano afirma que a única vaia da platéia, e bem caprichada, foi quando Dedé fala mal de ''Paris, Texas'', o incensado filme de Win Wenders, o cineasta da moda na época, segundo Caetano, que acha o filme um dramalhão mexicano. Já ''Cinema falado'' ele acha muito bem feito. E anuncia que pretende fazer outros filmes.

(© Globo Online)


DVD/ LANÇAMENTO

Cinema Falado no Grito

Caetano Veloso lança em DVD seu único longa, "O Cinema Falado", e abre o verbo sobre o cinema brasileiro

SILVANA ARANTES
ENVIADA ESPECIAL AO RIO

   Muitas palavras do músico Caetano Veloso, adjetivando realizadores e críticos do cinema brasileiro, ficaram represadas nos 17 anos que separam a estréia do único longa que dirigiu, "O Cinema Falado" (1986), de seu lançamento em DVD, previsto para a próxima semana.

   Não mais. Elas (as palavras de Caetano) foram ditas em profusão e com momentos de ênfase colérica, em entrevista para um grupo de jornalistas, anteontem, no Rio de Janeiro.

   Caetano defendeu (que o Brasil mantenha aspirações de altas realizações), atacou (o pensamento acadêmico que condena ao ceticismo e portanto ao imobilismo; o espírito de corpo dos cineastas nacionais) e contra-atacou os que depreciaram seu filme, em especial a Folha. "Burrice agressiva contra o que me interessa eu não perdôo nunca".

   "O Cinema Falado" é, na definição de seu autor, "quase 100% composto de falações ou teóricas ou poéticas ou poético-teóricas, mas ditas em meio a uma ação relativamente indefinida e mais ou menos indiferente ao que o texto está dizendo".

   Em exemplos: o baixista Dadi toca um instrumento, deposita-o no chão, troca-o por outro, enquanto fala texto (de Caetano) analisando o preparo intelectual de Bob Dylan em contraposição à inconsequência dos Beatles. A conclusão é que "os Beatles, pelo caminho das massas, não das elites, nos reorientam no sentido de estudar o poeta Ezra Pound [1885-1972]". Portanto, em repercussão sobre a cultura, logram mais do que Dylan e sua música.

   As "opiniões sobre cinema, inclusive as contraditórias, as dúvidas", compõem o trecho de maior fôlego do filme, em diálogo de Dedé Veloso, ex-mulher de Caetano, com Felipe Murray.

   Nele, Caetano primeiro delineia um panorama das tensões subjacentes à produção cinematográfica no Brasil, lembrando tratar-se de um país que não manufatura o filme, matéria-prima da atividade. Em seguida, interroga o cinema brasileiro e sua ambivalência com a televisão ("O cinema brasileiro não passou no teste da TV. A TV passará no teste do cinema?"), para finalmente auto-indagar: "Por que fazer filmes? Por que fazer filmes pretensiosos? Por que fazer filmes sobre filmes?".

   Um "sim" à última questão estaria na avaliação positiva que o diretor faz de sua obra. ""O Cinema Falado" é infinitamente superior a "Araçá Azul" [álbum de 1973]", considerado pela crítica um disco conceitual e antológico na trajetória do músico.

   Ainda que satisfeito com sua produção no cinema, Caetano, 61, dirigiu um único filme, quando "queria ter feito muitos". Nessa ausência talvez se insinue uma resposta negativa à questão sobre a pertinência do "luxo de fazer filmes pretensiosos no Brasil".

   Caetano explica a supressão de sua carreira cinematográfica porque "é caro fazer filmes" e também pelo desânimo de prosseguir diante das reações agressivas a "O Cinema Falado".

   Ele acha que a rejeição ao filme (não apenas por parcela do ambiente intelectual brasileiro, mas também pela crítica da época) reflete a intolerância a talentos artísticos plurais, resumida na máxima "cada macaco no seu galho".

   "Porque sou músico, então sou obrigado a ser músico. Não posso ter liberdade", diz.

   Comparando "O Cinema Falado" a outros filmes, Caetano reivindica a superioridade do seu: "Tem muito longa que passa aí que está muito abaixo desse meu e que foi até saudado pela crítica. Você acha que sou bobo? Fui crítico de cinema aos 18 anos. Você acha que vou ler gente da USP escrevendo na Folha que "Cronicamente Inviável" [Sérgio Bianchi, 98] é um grande filme e vou engolir isso? Aquele abacaxi de caroço? Isso aqui [aponta para imagens de "O Cinema Falado" projetadas atrás de si] é muito melhor. Do que "A Grande Arte" [Walter Salles, 91] é muito melhor. Uma porcaria, um filme amador, malfeito, ruim. E ninguém tinha coragem de dizer isso. Agora, do meu filme, até xingar minha mãe xingaram. Literalmente."

   O DVD de "O Cinema Falado" contém quase três horas de extras, incluindo dois clipes dirigidos por Caetano ("Não Tem Tradução", "Don't Think Twice").

   Nas filmagens, o diretor usou como método filmar apenas um take de cada sequência. Além dos já citados, participam do longa atores, parentes e amigos de Caetano, como Chico Diaz e Hamilton Vaz Pereira (recitando trecho de "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa), Regina Casé (fazendo paródia do ditador cubano Fidel Castro) e Paula Lavigne (analisando a nudez feminina e a sexualidade no cinema, sob o prisma de que "a curva da grande interrogação sobre o sexo passa necessariamente pelo homossexualismo masculino").

   A primeira cena de "O Cinema Falado" mostra uma reunião de amigos na casa de Caetano, em que se distinguem, entre outros, os cineastas Julio Bressane e Guel Arraes. O primeiro venceu neste ano o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, com "Filme de Amor". O segundo é vice-líder de público em 2003, com "Lisbela e o Prisioneiro" (3,1 milhões de espectadores), produzido por Paula Lavigne, mulher de Caetano.
"Neste momento, os brasileiros sentem que o cinema brasileiro atingiu um alto padrão médio. O povo da rua fala isso. É uma vitória. Mas não é tudo o que nós queremos. É muito bom que, ao mesmo tempo que você tem "Carandiru" e "Lisbela e o Prisioneiro" no topo do sucesso, você tem um Festival de Brasília em que nomes de autores radicais, não-comerciais, experimentais apresentaram o seu melhor", diz.

O CINEMA FALADO (DVD) - Direção: Caetano Veloso (Brasil, 1986). Preço médio: R$ 55.

A jornalista Silvana Arantes viajou a convite da gravadora Universal

(© Folha de S. Paulo)


Caetano lança "Cinema Falado" em DVD e critica governo Lula

   Rio - Caetano Veloso não está muito convencido de que o governo Lula justifique o entusiasmo que ainda provoca entre a esquerda de todo o mundo. Foi uma das coisas polêmicas que o cantor e compositor disse no fim da tarde desta terça-feira, num encontro com jornalistas, no estúdio da Universal Music, na Barra.

   Durante anos, Caetano amargou a tristeza que lhe causou a má acolhida dos críticos ao único filme que dirigiu. Cinema Falado, 17 anos depois, está sendo lançado em DVD justamente pela Universal, que fez todo um trabalho de restauração do original, acrescendo ao disco várias horas de material extra.

   Caetano soltou o verbo. Elogiou o próprio filme, produto da sua lucidez, e não poupou críticas aos críticos, à imprensa nem a colegas diretores. No final, disse que havia sido equilibrado e que, eventualmente, uma ou outra coisa que disse poderia ser usada fora de contexto e provocar discussões.

   Caetano falou mal de Deus - disse que Deus é sempre nocivo, tanto faz que seja o de Osama Bin Laden ou de outro qualquer. Disse também que seu filme é profético e que antecipa qualidades e problemas que o cinema brasileiro apresenta neste ano em que atinge 20% de ocupação do próprio mercado, a maior taxa de a retomada da produção após a era Collor.

   Mas o que mais se presta a discussões foi realmente o que Caetano disse sobre política. Ele avalia que o entusiasmo pelo governo Lula seja resultado de uma crise da esquerda em todo o mundo, que ficou sem projeto após a derrocada do comunismo e a ascensão da globalização. "O desemprego continua muito grande para se ter esperança. A caminho daqui, encontrei aleijados pedindo esmolas na esquina e crianças fazendo malabarismos nos semáforos para ganhar um pouco de dinheiro. Nada disso pode ser considerado um sintoma de que as coisas andam bem."

   Ele acredita que o governo fez muita coisa boa nesses 11 meses, mas considera um problema as crises de Lula com sua própria base partidária. "Na tentativa de mostrar internamente que não é de esquerda, o problema está criando para si mesmo."

   Mas elogiou o colega baiano Gilberto Gil. "Ele deu ao Ministério da Cultura, uma visibilidade e uma importância que nunca teve antes. Tem trabalhado bastante e eu ainda não precisei brigar com ele, como fiz com o Celso Furtado quando pediu a proibição do Je Vous Salue Marie, de Jean Luc Godard. Isso não era coisa que um ministro de Cultura fizesse, e eu tive de polemizar com ele. Com o Gil tenho certeza que isso não aconteceria nunca." (Luiz Carlos Merten)

(© O Estado de S. Paulo)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


powered by FreeFind

 

© NordesteWeb.Com 1998-2003

O copyright pertence ao veículo citado ao final da notícia