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05-06-2008
Jamari França - Globo Online
Caetano Veloso dirigiu um único
filme na vida, "Cinema falado", de 1986, polêmico e experimental no
sentido mais literal da palavra, o de um artista musical que está
experimentando sua capacidade de fazer cinema. O protagonista do longa
colorido de 110 minutos é a palavra. (© Globo Online) DVD/ LANÇAMENTO Cinema Falado no Grito Caetano Veloso lança em DVD seu único longa, "O Cinema Falado", e abre o verbo sobre o cinema brasileiro SILVANA ARANTES Muitas palavras do músico Caetano Veloso, adjetivando realizadores e críticos do cinema brasileiro, ficaram represadas nos 17 anos que separam a estréia do único longa que dirigiu, "O Cinema Falado" (1986), de seu lançamento em DVD, previsto para a próxima semana. Não mais. Elas (as palavras de Caetano) foram ditas em profusão e com momentos de ênfase colérica, em entrevista para um grupo de jornalistas, anteontem, no Rio de Janeiro. Caetano defendeu (que o Brasil mantenha aspirações de altas realizações), atacou (o pensamento acadêmico que condena ao ceticismo e portanto ao imobilismo; o espírito de corpo dos cineastas nacionais) e contra-atacou os que depreciaram seu filme, em especial a Folha. "Burrice agressiva contra o que me interessa eu não perdôo nunca". "O Cinema Falado" é, na definição de seu autor, "quase 100% composto de falações ou teóricas ou poéticas ou poético-teóricas, mas ditas em meio a uma ação relativamente indefinida e mais ou menos indiferente ao que o texto está dizendo". Em exemplos: o baixista Dadi toca um instrumento, deposita-o no chão, troca-o por outro, enquanto fala texto (de Caetano) analisando o preparo intelectual de Bob Dylan em contraposição à inconsequência dos Beatles. A conclusão é que "os Beatles, pelo caminho das massas, não das elites, nos reorientam no sentido de estudar o poeta Ezra Pound [1885-1972]". Portanto, em repercussão sobre a cultura, logram mais do que Dylan e sua música. As "opiniões sobre cinema, inclusive as contraditórias, as dúvidas", compõem o trecho de maior fôlego do filme, em diálogo de Dedé Veloso, ex-mulher de Caetano, com Felipe Murray. Nele, Caetano primeiro delineia um panorama das tensões subjacentes à produção cinematográfica no Brasil, lembrando tratar-se de um país que não manufatura o filme, matéria-prima da atividade. Em seguida, interroga o cinema brasileiro e sua ambivalência com a televisão ("O cinema brasileiro não passou no teste da TV. A TV passará no teste do cinema?"), para finalmente auto-indagar: "Por que fazer filmes? Por que fazer filmes pretensiosos? Por que fazer filmes sobre filmes?". Um "sim" à última questão estaria na avaliação positiva que o diretor faz de sua obra. ""O Cinema Falado" é infinitamente superior a "Araçá Azul" [álbum de 1973]", considerado pela crítica um disco conceitual e antológico na trajetória do músico. Ainda que satisfeito com sua produção no cinema, Caetano, 61, dirigiu um único filme, quando "queria ter feito muitos". Nessa ausência talvez se insinue uma resposta negativa à questão sobre a pertinência do "luxo de fazer filmes pretensiosos no Brasil". Caetano explica a supressão de sua carreira cinematográfica porque "é caro fazer filmes" e também pelo desânimo de prosseguir diante das reações agressivas a "O Cinema Falado". Ele acha que a rejeição ao filme (não apenas por parcela do ambiente intelectual brasileiro, mas também pela crítica da época) reflete a intolerância a talentos artísticos plurais, resumida na máxima "cada macaco no seu galho". "Porque sou músico, então sou obrigado a ser músico. Não posso ter liberdade", diz. Comparando "O Cinema Falado" a outros filmes, Caetano reivindica a superioridade do seu: "Tem muito longa que passa aí que está muito abaixo desse meu e que foi até saudado pela crítica. Você acha que sou bobo? Fui crítico de cinema aos 18 anos. Você acha que vou ler gente da USP escrevendo na Folha que "Cronicamente Inviável" [Sérgio Bianchi, 98] é um grande filme e vou engolir isso? Aquele abacaxi de caroço? Isso aqui [aponta para imagens de "O Cinema Falado" projetadas atrás de si] é muito melhor. Do que "A Grande Arte" [Walter Salles, 91] é muito melhor. Uma porcaria, um filme amador, malfeito, ruim. E ninguém tinha coragem de dizer isso. Agora, do meu filme, até xingar minha mãe xingaram. Literalmente." O DVD de "O Cinema Falado" contém quase três horas de extras, incluindo dois clipes dirigidos por Caetano ("Não Tem Tradução", "Don't Think Twice"). Nas filmagens, o diretor usou como método filmar apenas um take de cada sequência. Além dos já citados, participam do longa atores, parentes e amigos de Caetano, como Chico Diaz e Hamilton Vaz Pereira (recitando trecho de "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa), Regina Casé (fazendo paródia do ditador cubano Fidel Castro) e Paula Lavigne (analisando a nudez feminina e a sexualidade no cinema, sob o prisma de que "a curva da grande interrogação sobre o sexo passa necessariamente pelo homossexualismo masculino"). A primeira cena de "O Cinema
Falado" mostra uma reunião de amigos na casa de Caetano, em que se
distinguem, entre outros, os cineastas Julio Bressane e Guel Arraes. O
primeiro venceu neste ano o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, com
"Filme de Amor". O segundo é vice-líder de público em 2003, com "Lisbela e o
Prisioneiro" (3,1 milhões de espectadores), produzido por Paula Lavigne,
mulher de Caetano. O CINEMA FALADO (DVD) - Direção: Caetano Veloso (Brasil, 1986).
Preço médio: R$ 55. (© Folha de S. Paulo) Caetano lança "Cinema Falado" em DVD e critica governo Lula Rio - Caetano Veloso não está muito convencido de que o governo Lula justifique o entusiasmo que ainda provoca entre a esquerda de todo o mundo. Foi uma das coisas polêmicas que o cantor e compositor disse no fim da tarde desta terça-feira, num encontro com jornalistas, no estúdio da Universal Music, na Barra. Durante anos, Caetano amargou a tristeza que lhe causou a má acolhida dos críticos ao único filme que dirigiu. Cinema Falado, 17 anos depois, está sendo lançado em DVD justamente pela Universal, que fez todo um trabalho de restauração do original, acrescendo ao disco várias horas de material extra. Caetano soltou o verbo. Elogiou o próprio filme, produto da sua lucidez, e não poupou críticas aos críticos, à imprensa nem a colegas diretores. No final, disse que havia sido equilibrado e que, eventualmente, uma ou outra coisa que disse poderia ser usada fora de contexto e provocar discussões. Caetano falou mal de Deus - disse que Deus é sempre nocivo, tanto faz que seja o de Osama Bin Laden ou de outro qualquer. Disse também que seu filme é profético e que antecipa qualidades e problemas que o cinema brasileiro apresenta neste ano em que atinge 20% de ocupação do próprio mercado, a maior taxa de a retomada da produção após a era Collor. Mas o que mais se presta a discussões foi realmente o que Caetano disse sobre política. Ele avalia que o entusiasmo pelo governo Lula seja resultado de uma crise da esquerda em todo o mundo, que ficou sem projeto após a derrocada do comunismo e a ascensão da globalização. "O desemprego continua muito grande para se ter esperança. A caminho daqui, encontrei aleijados pedindo esmolas na esquina e crianças fazendo malabarismos nos semáforos para ganhar um pouco de dinheiro. Nada disso pode ser considerado um sintoma de que as coisas andam bem." Ele acredita que o governo fez muita coisa boa nesses 11 meses, mas considera um problema as crises de Lula com sua própria base partidária. "Na tentativa de mostrar internamente que não é de esquerda, o problema está criando para si mesmo." Mas elogiou o colega baiano Gilberto Gil. "Ele deu ao Ministério da Cultura, uma visibilidade e uma importância que nunca teve antes. Tem trabalhado bastante e eu ainda não precisei brigar com ele, como fiz com o Celso Furtado quando pediu a proibição do Je Vous Salue Marie, de Jean Luc Godard. Isso não era coisa que um ministro de Cultura fizesse, e eu tive de polemizar com ele. Com o Gil tenho certeza que isso não aconteceria nunca." ( Luiz Carlos Merten)(© O Estado de S. Paulo)
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