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Brennand exibe suas pinturas

05-06-2008

Divulgação

Francisco Brennand

Ettiene Ramos

   RECIFE - Mesmo que fosse só um escultor, seria um escultor com coração de pintor. A frase do escultor e ceramista Francisco Brennand, reconhecido em todo o mundo como um dos maiores artistas modernos contemporâneos, resume seu desejo de libertar de vez o pintor adormecido desde os anos 70. A inauguração, anteontem, da Accademia, um espaço criado ao lado da antiga cerâmica da família, no bairro da Várzea, no Recife, onde nasceu, projetou e esculpiu sua obra, revela que Brennand sempre deixou seu coração falar mais alto por meio da incessante produção de desenhos e pinturas iniciada nos anos 40.

   A exposição Brennand: uma obra em perspectiva, que marca a abertura da Accademia, é composta por 355 trabalhos. São 236 desenhos, 76 pinturas, 24 esculturas e 19 placas cerâmicas que poderão ser vistas durante um ano, como mais um atrativo para os visitantes da oficina cerâmica do Engenho São João. A idéia de Brennand é abrir o espaço nos fins de semana, como um museu, e, para isso, vem buscando apoio e repensando a estrutura fabril da oficina que hoje só permite a visitação de segunda a sexta.

   Escolhidas pelo curador Emanoel Araújo, baiano radicado em São Paulo, as obras da Accademia retratam vários temas recorrentes no trabalho de Brennand, simbolizado pelo erotismo e a natureza, com o traço incomparável do homem que vive cercado pela arte, pelo sonho e, aos 76 anos, revela-se um incansável produtor. Feliz com a exposição que o atesta como pintor para o grande público, Brennand diz que ''um bom quadro é o que o leva em seguida a fazer outro''.

   Na série 2003, que tem alguns desenhos concluídos este mês, Brennand mostra mulheres em roupas que escondem seus braços, uma alusão à mutilação sofrida pelas vítimas do ano que, segundo ele, foi pleno em desgraças.

   - Uma delas é a guerra entre os EUA e o Iraque, com duas nações poderosas tentando justificar a paz, no sentido delas. É uma alusão velada, de foro íntimo ao seu infortúnio. São mulheres deformadas. Não me sinto animado a cultuar a beleza num momento de destruição - explica o artista.

   Guardadas durante décadas, as pinturas de Brennand eram um mistério para o mercado de arte, onde se cultiva a idéia de que ele não vende seus trabalhos. Grande equívoco, garante o artista.

   - Se não vendesse morreria de fome. Participei de várias exposições internacionais por ter sido convidado. Não se pode forçar uma galeria a me convidar, mas estou aberto ao mercado - afirma Brennand, excluindo de futuros negócios, porém, o acervo da Accademia por tratá-la como um museu. Mas muitas obras que ficaram de fora da mostra, segundo ele, podem ser vendidas.

   Para Emanoel Araújo, as declarações de Brennand mostram que ele chega ao ponto de completar o ciclo de sua obra - baseado no talento e no volume da produção - com o mercado.

   - Nunca vi uma obra dele num leilão. Ele se manteve ausente por total convicção - confirma Araújo, que considera o colecionismo uma forma de aprisionamento.

   - O mercado não tem amarras de sentimentos. Acho que Brennand está começando a ter esse desprendimento.

(© JB Online)

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