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Alegria e choros do Ouro Negro

05-06-2008

Moacir Santos

João Pimentel

   Quem diria que um dos maiores músicos brasileiros voltaria a fazer deveres de casa. Pois é mais ou menos isso que o maestro Moacir Santos, aos 79 anos, está tendo que fazer desde que chegou ao Rio, no início do mês. Sentado à mesa da sala do violonista e compositor Mário Adnet, ele exercita sua memória para pôr no papel os arranjos originais de choros criados há mais de 60 anos. Depois de lançarem no ano passado o CD duplo “Ouro negro”, uma obra-prima que registrou de forma definitiva pérolas do maestro como as dez composições da série “Coisas”, “April child” e “Anon”, Adnet e o saxofonista Zé Nogueira resolveram produzir um outro trabalho em cima das primeiras composições de Santos. “Choros e alegria” será gravado em janeiro e fevereiro de 2004 com previsão de lançamento, pelo selo Biscoito Fino, para o segundo semestre.

   — Quando estávamos produzindo o “Ouro negro”, Moacir começou a lembrar de muitas coisas que tinha composto com 16, 17 anos. São obras primorosas para um compositor tão jovem, com uma carga de identidade especial, encontrada apenas em gênios como um Pixinguinha ou um Ernesto Nazareth — conta Mario Adnet.

   — Foi com estas músicas embaixo do braço que ele chegou ao Rio para fazer um teste na Rádio Nacional, nos anos 40. Ficamos deslumbrados com a profundidade das músicas e resolvemos fazer esse projeto — completa Nogueira.

Primeiros choros remetem a uma fase rica e inédita do maestro

   Os dois produtores comparam o trabalho realizado com o intuito de trazer à tona o trabalho do músico — que na realidade começou em 1999, quando promoveram tributos que seriam o embrião de “Ouro negro” — com a seqüência de filmes de “Guerra nas estrelas” (“Star wars”), de George Lucas. Ou seja, começaram explorando a fase madura do maestro — radicado há 36 anos nos Estados Unidos, e que há sete sofreu um derrame que o afastou do seu instrumento predileto, o saxofone — para retomar agora o início de sua bela trajetória.

   Os choros são de sua fase inicial, quando ainda circulava como um nômade pelo Nordeste. Moacir Santos saiu ainda menino de um lugarejo entre Serra Talhada e Bom Nome, no interior de Pernambuco (sua mãe morreu quando ele tinha 3 anos), tocou em bandas e circos, foi parar no Acre, na Bahia, voltou a Pernambuco e, com menos de 18 anos, foi morar na Paraíba. O jovem músico entrou na banda da Polícia do Exército mas, pouco depois, já conhecedor da arte de ler partituras, apresentou-se com seu saxofone na Radio Tabajara, para substituir o maestro Severino Araújo, que veio tentar a sorte com sua orquestra no Rio.

   O Rio de Janeiro seria também a próxima parada de Moacir Santos. Ele lembra com clareza de quando chegou aqui com uma carta do prefeito de João Pessoa que recomendava sua contratação.

   — Ninguém me levou muito a sério até a hora em que eu peguei o sax para fazer um teste tocando o choro “Urubu malandro” — lembra. — Tirei de letra e, pouco depois, toquei um dos meus choros, o “Inofensivo”. Anos mais tarde, o maestro Chiquinho veio me dizer que a orquestra é que foi testada ao tentar me acompanhar naquele dia.

   A partir daí, Moacir Santos trabalhou com Radamés Gnattali na Nacional — paralelamente tocou em dancings como o Brasil e o Avenida onde, curiosamente, ganhava o dobro do que conseguia no rádio — estudou harmonia, contraponto, fuga e composição com expoentes da época como Claudio Santoro, Guerra-Peixe e o alemão Hans Joachim Koellreuter, este também professor de Tom Jobim.

   — Tive cinco professores ao mesmo tempo. Eu me aprofundei muito em investigar o que eles diziam sobre um determinado assunto. Depois de um ano e meio, todos disseram: “Agora você pode fazer qualquer coisa”. Então segui o meu caminho.

   Nesse período trabalhou muito criando trilhas de cinema e ensinando a sua arte para, por exemplo, Paulo Moura, Sérgio Mendes, Roberto Menescal, Nara Leão, Dori Caymmi, Carlinhos Lyra, Baden Powell, João Donato e outros.

   — O Paulo César Pinheiro diz que os afro-sambas de Baden foram feitos nas aulas que ele tinha com o Moacir — diz Adnet. — Não duvido disso, até pela estrutura da música de Moacir, que mistura elementos africanos às suas sofisticadas estruturas sonoras.

   Em 1967, o maestro foi morar nos Estados Unidos, onde deu aulas particulares até ser descoberto por Horace Silver. Continuou a fazer trilhas para diversas produções, trabalhou com Henri Mancini e sua composição mais conhecida, “Nanã”, em parceria com Mário Telles, já foi gravada mais de 150 vezes por músicos e grupos como Kenny Burrell, Zimbo Trio e Herbie Mann.

   Os choros fazem parte da produção completamente desconhecida do maestro e levam nomes singelos como “Felipe”, “Adriana”, “Paraíso” e “Saudades de Jacques”, curiosamente feito para Jackson do Pandeiro.

   — Esse choro foi feito nos tempos em que tocávamos juntos em um cabaré em João Pessoa. Para nós, Jack, como ele ainda era chamado, não era nome de alguém que veio do mato, da Paraíba.

“Ouro negro” vai ser lançado nos EUA e na Europa em 2004

   Moacir Santos, que também veio ao Brasil receber um prêmio pelo conjunto de sua obra, fica no Rio até o fim da gravação do novo CD. Enquanto isso, o disco “Ouro negro” ganha um caderno de partituras e será lançado nos Estados Unidos em janeiro de 2004, pelo selo Adventure Music e, no fim do ano, chegará à Europa.

   — A nossa intenção é levarmos a música do maestro para todos os lugares possíveis — conta Adnet. — Compositores como Moacir demoram a ter reconhecimento, não apenas aqui, mas no mundo todo, pois ele pensa em todos os instrumentos separadamente. Tem formações para violão e piano completamente raras e se utiliza da polifonia e da polirritmia que podem levar para vários caminhos.

   Enquanto Adnet e Zé Nogueira exaltam suas qualidades, o maestro diz que estava quieto, no seu canto, quando teve a sua obra revirada:

— Esses meninos não param de trabalhar. E quem trabalha muito, alguma hora, Deus ajuda. Não foi à toa que chorei quando ouvi o solo que o Zé Nogueira fez para “Anon”, em “Ouro negro” — lembra-se, mais uma vez emocionado.

(© Jornal O Globo)

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