05-06-2008
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Xilogravura
ilustra a capa de um folheto de cordel que passaram a ter esta
denominação pelo fato de serem vendidos nas feiras livres nordestinas
pendurados em varais como os de roupa |
Batista de Lima
Escritor
O cordel é uma literatura popular.
Difícil portanto será encontrar o que há de erudito nesse tipo de
literatura. Daí ser importante inicialmente definir sua nomenclatura para
se ter um ponto de partida para o entendimento.
A definição de cordel que
consideramos mais abrangente é a de Veríssimo de Melo (1982:13) quando
afirma ser uma ´poesia narrativa, popular, impressa´. O fato de ser
narrativa já estabelece uma ligação com o épico, com o clássico, com a
função referencial da linguagem onde o que prevalece é a terceira pessoa
gramatical.
Outros pontos em comum com o
clássico são o ritmo, a rima, a metrificação e a composição da estrofe,
geralmente em sextilha. Aparecem em menor escala, estrofes de sete versos
e também oitavas e décimas. Com essas formas aparecem os mourões, os
galopes à beira mar, as gemedeiras, os desafios.
São três os modelos de cordel,
dependendo da origem: o da área rural, o da área urbana e o da metrópole
(Rio e São Paulo). Os clássicos cordéis, os mais antigos são de origem
rural. Sendo o poeta desse modelo o mais conservador dos cordelistas. Está
sempre em defesa do poder dominante: do governo, do juiz, do padre, do
delegado. Qualquer mudança social é motivo para seu ataque. Entre esses
clássicos podemos citar Leandro Gomes de Barros e João Martins de Athayde,
cujos folhetos foram comprados e divulgados por José Bernardo da Silva, da
Tipografia São Francisco, de Juazeiro do Norte. Antes, Athayde havia
comprado o espólio cordelista do pioneiro Leandro Gomes de Barros para
repassá-lo comercialmente a José Bernardo da Silva.
Esse conservadorismo do Cordel
remete-nos a um passado histórico em que o herói de origem medieval possui
características épicas e o originário da Renascença vem revestido de
caracteres picarescos. Os épicos são bem nascidos, os pícaros, marcados pela
esperteza, são anti-heróis. Essa ligação à tradição histórica da Ibéria
caracteriza o cordelista como um monarquista, armorial, sebastianista,
muitas vezes visionário em busca da construção de um quinto império. Daí que
vão se abeberar no cordel, escritores como Ariano Suassuna, Gerardo Melo
Mourão, João Cabral de Melo Neto, Dias Gomes e Guimarães Rosa, que no seu
personagem Diadorim, retoma o famoso cordel da infanta princesa que vai à
guerra pois o pai tinha sete filhas e uma tinha que ir à guerra, já que não
possuía filho homem.
Outra questão que atinge o cordel,
principalmente o pesquisador, responde pela autenticidade autoral. Era comum
os herdeiros de um cordelista venderem os direitos de um poeta a outro, que
ao comprar o espólio passava a assiná-lo como autor. Exemplo bem patente da
confusão que esse fenômeno provoca, está no acervo referente a três
cordelistas de três momentos diferentes: Leandro Gomes de Barros, João
Martins de Athayde e José Bernardo da Silva. Os familiares do primeiro
venderam suas produções ao segundo que por sua vez teve toda sua herança em
versos vendida ao José Bernardo. Comprar os direitos de um cordel era o
passaporte para poder colocar seu próprio nome no frontispício da obra.
Além desse fenômeno, há o fato de
que correm de boca em boca, quadras, versos, décimas, oitavas com autoria
atribuída a vários autores, sem que se defina realmente a sua autoria
original. Por exemplo, de quem é essa décima?
´Não me leves para a guerra
não me faça esta surpresa
pois não tenho natureza
de ver meu sangue na terra
me leve praquela serra
me bote lá nos buracos
pra eu conviver com os macacos
com sede e passando fome
depois escrevam meu nome
no livro dos homens fracos´
Outro caso interessante responde pelo
nome de Zé Limeira. ´Poeta do absurdo´, como bem o qualifica Orlando Tejo
(1974), que com seus versos de cunho surrealista, apresenta estrofes
inteiras de pura poesia fescenina, imprópria para a declamação em salões
respeitáveis. O que se comenta é que quando qualquer poeta popular produzia
um desses textos e não tinha coragem de autorá-lo, dava-o de mão beijada a
Zé Limeira que o assinava, assumindo sua autoria. Afirma-se também que um
dos poetas que mais doou versos a Limeira fora Otacílio Batista Patriota,
exímio cordelista, como seus irmãos Dimas e Lourival. O fato é que não se
tem total certeza de que a poética atribuída a Zé Limeira seja
originariamente sua. Afirma-se também que o próprio Orlando Tejo, principal
divulgador de Zé Limeira, foi também responsável por muitos dos versos
atribuídos ao chamado poeta do absurdo.
Assim como Zé Limeira outros poetas
se utilizaram das fórmulas do cordel para apresentarem seus poemas, como é o
caso do poeta e diplomata brasileiro Francisco Otaviano que num sistema de
martelo elaborou seu famoso poema ´Ilusões da vida´ (1982:22).
´Quem passou pela vida em branca nuvem,
em plácido repouso, adormeceu;
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu:
Foi espectro de homem, não foi homem,
Só passou pela vida, não viveu.´
A sextilha com rimas xaxaxa é bem
característica do cordel. Nessa mesma situação limítrofe entre o clássico e
o popular há casos como Catulo da Paixão Cearense, Rogaciano Leite e
Patativa do Assaré. É comum se encontrar em Patativa sonetos clássicos ao
lado de poemas populares nos moldes do cordel. E o que dizer de Morte e Vida
Severina, de João Cabral de Melo Neto?
Esse meio termo entre o popular e o
erudito sempre foi alvo dos críticos. Uns reclamando padronizações
clássicas, outros, paradoxalmente, exigindo mais identidade com o popular.
Essas críticas levam a uma reação dos poetas, como é o caso de Patativa em
Cante lá que eu canto cá, e principalmente de Catulo da Paixão Cearense
quando afirma:
´Zoilos! Parvos! Aretinos
Criticóides pequeninos!
Passadistas refratários!
Futuristas - legionários!
dos maiores desatinos!
Poetastros retardatários!
Reis e Príncipes cretinos!... (1965:9)
Por fim, o que se verifica, é que
mesmo fazendo o verso popular, o poeta estabelece vínculo com o clássico de
que tem conhecimento. Exemplo patente disso são essas duas décimas de Benone
Conrado: (1995:360)
´Sequei todas as águas do Aqueronte,
Discuti muitas teses com Platão,
Dei escola a Ovídio de Nasão,
Fiz Narciso deixar a sua fonte;
Dei um óbulo na barca de Caronte,
Destronei alguns reis orientais;
Formulei direções horizontais,
Viajei de Changai a Bombaim;
Derrubei as muralhas de Pequim,
O que é que falta fazer mais?
- X -
Fui na lira melhor do que Orfeu
Combinei com Heródoto na História,
Superei toda Roma em oratória;
Disputei com Hortêncio, ele perdeu!
Dominei a espada de Teseu,
Promovi os poetas provençais,
Assisti de Guatama os funerais,
Confortei Arimar com Zoroastro,
Ensinei ditadura a Fidel Castro
O que é que me falta fazer mais?
Bibliografia
CEARENSE, Catulo da Paixão. Luar do Sertão e outros poemas escolhidos. Org.
Guimarães Martins. Rio de Janeiro: Ediouro, 1965.
CONRADO, Benone. ´O que é que ainda falta fazer mais´. In: PEREIRA,
Vanderley. De repente cantoria. Fortaleza: LCR, 1995.
LOPES, José Ribamar. Org. Literatura de Cordel; Antologia. Fortaleza: BN,
1982.
OTAVIANO, Francisco. ´Ilusões da vida´. In: LINHARES, Francisco et BATISTA,
Otacílio. Antologia ilustrada dos contadores. Fortaleza: Edições UFC, 1982.
TEJO, Orlando. Zé Limeira, o poeta do absurdo. 3ª ed. João Pessoa: Iterplan,
1974.
(©
Diário do Nordeste)
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