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05-06-2008
JOSÉ TELES Em João Pessoa, cerca de 500 pessoas estiveram até alta madrugada no estacionamento do Shopping Sul, no bairro dos Bancários, para prestigiar o lançamento de Malocage (Independente) segundo disco do cantor, compositor e percussionista Escurinho. Numericamente não é um grande público, porém é bastante gente para uma cidade onde a maioria dos habitantes ainda não se habituou a sair de casa para assistir aos artistas locais. Como comentou o jornalista e escritor Fernando Moura (co-autor de Chapéu de Couro, biografia de Jackson do Pandeiro), “Escurinho é o primeiro artista da nova cena de João Pessoa a conseguir um público fiel sem precisar emigrar para o Sudeste”. Pernambucano de Serra Talhada, Escurinho morou em Catolé do Rocha, onde conheceu Chico César. E assim como ele, também se mudou para a capital paraibana exatamente quando ali o movimento cultural efervescia, comandado pelo grupo Jaguaribe Carne, uma lenda paraibana, formado pelos irmãos Pedro Osmar e Paulo Ró. Escurinho fez estágio no Jaguaribe Carne, e saiu para carreira solo. Passou a fazer música e teatro. De sonoplasta foi promovido a ator. Encarnou o diabo na premiada peça O Vau da Sarapalha, de Ângelo Nunes, que percorreu o Brasil e Europa. Foi o já falecido Ângelo Nunes que incentivou Escurinho ir fundo na música, que hoje ocupa a maior parte do seu tempo. No Recife, ele já é relativamente conhecido, com passagens pelo Abril Pro Rock e pela prévia do Guaiamum Treloso: “Mas estamos só no começo. João Pessoa não tem ainda produtores, empresários interessados em investir em música paraibana, e são poucos os espaços que a gente possui aqui para shows”. A apresentação de sábado, por exemplo, foi a primeira realizada num shopping, com uma estrutura precária. Desde 1998 que Escurinho não lança disco novo. O álbum daquele ano, Labacé, sedimentou seu prestígio na nova cena pessoense, onde é o principal nome. No show do lançamento, mostrou o repertório de Malocage inteiro, e poucas canções do CD anterior. Malocage ainda não havia chegado às lojas, e tudo mundo cantava em coro com ele: “Venho fazendo essas músicas nos shows há bastante tempo, todo mundo já conhece”, minimiza. Com as devidas proporções, Escurinho desempenha hoje na nova cena musical de João Pessoa o papel que Chico Science desempenhou no Recife há dez anos. É o catalizador de um movimento, ainda sem nome, mas que bem poderia ser chamado de malocage beat, que congrega diversas bandas e artistas, ligados mais pela vontade de mudar do que por laços estéticos, e que conta com um relativamente grande números de “maloqueiros” e “maloqueiras” que curtem seus shows e compram seus discos. O trabalho de Escurinho comunga de algumas semelhanças com o dos grupos do mangue beat. É um amálgama dos vários ritmos regionais (coco, maracatu, ciranda, caboclinho, repente), com elementos de rock, tendo o guitarrista Alex Madureira como o maestro da banda Labacé. A música de Escurinho foi assim definida e analisada por ele, em entrevista recente: “Eu diria que a minha música é um pouco da extensão de mim mesmo... É um pouco dessa angústia do povo nordestino, a carência afetiva, essa carência de vida. Os versos da minha música são muito angustiados, muito revoltado. Mesmo a música falando de amor, vai falar de uma forma desgostosa. Não porque eu queira que a vida seja assim, ela ensina assim, difícil como a vida do povo nordestino”.
(©
Jornal do Commercio-PE)
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