05-06-2008
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Fred Zeroquatro |
Por Giuliana Tatini e Moacyr Vieira
Martins
No lançamento do seu
quinto disco, O Outro Mundo de Manuela Rosário, o pernambucano Fred
Zeroquatro, 41 anos, líder da banda Mundo Livre S/A, fala sobre o destino da
música na era da MP3, entrega que existe jabá até na MTV e discute as
armadilhas do sucesso, das drogas e da terapia.
TRIP A banda está morando no Recife ou em São
Paulo?
ZEROQUATRO Já tem mais de um ano que voltamos a morar no Recife.
Bactéria, Marcelo, Pianinho e o antigo baixista estavam morando em Campinas,
mas acabaram voltando para cá. Manuela Rosário é o primeiro disco que
gravamos em Recife. Foi massa. É outra atmosfera você estar num estúdio na
sua cidade, saber que vai sair dali e encontrar a sua família, vai para
casa. Isso se refletiu até no ritmo do disco, mais relaxado na concepção.
Era difícil viver longe de casa, mesmo sendo rock
star?
Sim. Ainda mais para quem cresceu em orla de praia. Todo fim de semana a
gente encontra com a galera, pega um carro e vai para Porto de Galinhas. No
caso do mundo livre, a gente formou a banda em Candeias (bairro do Recife).
Eram todos caras que começaram a tirar som na praia à noite, na beira da
praia. Aí você chega em São Paulo e tem aquela coisa maluca da praia do
sábado ser a praça. Vai para a Benedito Calixto (bairro de Pinheiros)
e fica na calçada. Teve um lado legal, de ter mais informação. São Paulo
combina mais se você é solteiro, gosta da balada e está disposto a ir para
festas. Mas quando você assume um ritmo de vida mais caseiro, de curtir a
família, de curtir o filho, não combina muito. Prefiro estar no Recife.
TECNOLOGIA
Você fala muito de MP3, direito autoral, colocar
música na internet. A internet não corre esse mesmo risco de ter muita coisa
e você não saber o que escolher ali?
Tem. Me sinto quase um náufrago ali, me afogando num mar de informações. E
fico com essa sensação de que não estou tendo tempo de trabalhar nada, de
ter critério de nada. Você perde um pouco as referências. Fico tentando
imaginar qual é a relação que a geração mais nova, o pessoal que está
entrando na adolescência agora com acesso a tudo isso, tem com a música.
Deve ser uma coisa muito diferente do que era na minha adolescência. Pode
ser uma coisa talvez muito mais rica, muito mais aberta do que a nossa
geração.
Mas toda essa informação de que você fala, um monte de
coisa acontecendo ao mesmo tempo, acaba tirando um pouco a importância das
coisas...
Também. Esse era um comentário que se fazia antes de a gente lançar o
primeiro disco, quando fomos fazer os primeiros shows underground no
Aeroanta (em 1994). Nego até se espantava com o nível de informação
musical que o pessoal tinha, tanto o Nação como o mundo livre. Nossa
formação musical era de ir atrás de revista importada no aeroporto, pegando
ondas curtas em rádio muito mal sintonizada. Quando sabíamos que fulano
estava indo para a Europa, todo mundo juntava uma grana e fazia lista de
disco para trazer. A diferença é essa: São Paulo tem muito mais quantidade e
acesso mais rápido e por isso mesmo se torna uma coisa mais banal. Nego não
assimila, não dá tempo nem de decodificar direito cada coisa, é um
bombardeio. No Recife, não. Pelo fato de ter que correr atrás, a gente
acabava se aprofundando mais, escolhendo mais, tendo mais critério, até
porque não tinha grana para comprar todas as revistas. Eu comprava discos
junto com o Renato L., (jornalista), a gente rachava o disco
importado e encomendava. A primeira versão do Combat Rock (The
Clash, 1982), por exemplo, a gente comprou importado porque não
agüentava esperar até chegar a versão brasileira.
Por um lado eles têm muito mais acesso, mas também não
têm esse gosto de descobrir, de ir atrás.
O Areia, que é o baixista, tem uma ligação com a internet, inclusive ele nem
gosta de Windows, gosta de Linux. Ele é bem mais novo do que eu e vive
dizendo que tem uma galera que já está comprando esses e-books, um
troçozinho que você baixa os livros da rede e fica passando as páginas. Pode
levar para cama, leva para todo canto. Terminou de ler aquele, você baixa
outro, sai catando livro pela internet, livro virtual e até os clássicos,
que agora já estão saindo em versão virtual também. Mas você não tem aquele
fetiche de ter o livro guardado na estante, principalmente livro de
não-ficção, de consulta. É outra relação você ter o negócio lá guardado, às
vezes você lê cinco anos depois, com outros olhos. Mas essa geração nova não
tem essa relação com livro, não tem esse apego.
E não vai ter com disco...
Não vai. Tenho vontade de comprar muita coisa que perdi em vinil. Por
exemplo, o próprio Sandinista! (The Clash, 1980) eu não tenho
mais. Já tive a oportunidade de comprar o CD, mas é outra história, sinto
como se estivesse traindo a minha relação com aquele trabalho. Agora mesmo
em São Paulo, pela primeira vez autografei o vinil do Samba Esquema Noise.
Era meio velho, sambado. Foi o máximo. Posso estar soando nostálgico, mas é
um outro mundo que está se formando, outra realidade. A tecnologia vai
moldando novos valores, transforma o ser humano. O homem cria tecnologia que
também cria o homem.
Você vive bradando por aí que libera música pela
internet. Não é contraditório, ao mesmo tempo, criticar e defender?
Não, não. Defendo MP3 como defendia anos atrás a fita demo. Com MP3, nego lá
no Japão pode te ouvir. Antigamente, você tinha que arrumar um jeito de
mandar uma fita cassete para um crítico. Quem mora em São Paulo ou no Rio
ainda circula nos shows. E uma banda de Recife, da Paraíba, Belo Horizonte?
Críticos, produtores fonográficos, gravadoras não estão lá. Então, defendo o
MP3 como a fita demo. Além disso, para uma banda que já tem carreira
formada, a internet é uma forma de não depender do esquema. Quando ficamos
sem gravadora e soltamos o single de “Caiu a Ficha” foram 54 mil downloads
em dois dias. Não só para uma banda nova, mas para uma banda que resolve
assumir uma independência das gravadoras e já tem um público, já tem um
nome, já tem uma carreira formada, a internet é uma forma de você não
depender tanto do esquema de divulgação de gravadora. Seu público já lhe
conhece, então você solta o troço ali. Agora, você vai liberar o direito
autoral? Eu acho que é uma questão muito delicada essa história do direito
autoral. É diferente a questão da internet, por exemplo, da questão, sei lá,
de uma música sua num filme ou numa emissora de TV. Numa propaganda nego
fatura em cima do seu trabalho, aí tem que ter formas de arrecadar mesmo.
Mas, na internet tem que ser livre.
Liberar música em MP3 é uma alternativa?
Agora, o fato de a gente ter concebido um disco onde uma faixa interage com
outra, a história da personagem tem uma linha narrativa que atravessa o
disco, faz com que o hábito de baixar uma faixa isolada na internet já perca
um pouco o sentido. Isso valoriza o CD. Cada vez mais estou superfascinado.
Da mesma forma que a gente consegue fazer um disco hoje aqui em Recife,
gravado e mixado com a mesma qualidade que em Los Angeles – ninguém comentou
em nenhuma matéria até hoje que é um disco que soa independente por causa da
qualidade técnica de gravação –, já que os software de finalização e edição
são os mesmos, isso é possível para imagem também, porque você tem acesso a
vários softwares de animação, de computação gráfica, de edição de imagens
digitais em qualquer lugar. Por isso eu criei essa história de clipe
genérico. Estou cada vez mais interessado nessa coisa de usar tanto a música
digital como a imagem digital para ficar independente. Por exemplo, o
Outro Mundo de Manuela Rosário é o primeiro genérico porque não tem
nenhum tostão da Trama.
O que você acha dessa história das gravadoras
norte-americanas processarem quem baixa músicas pela Internet?
Isso é desespero das corporações, que não admitem abrir mão de uma mina de
ouro. Li uma entrevista recente do André Midani, importante ex-diretor de
gravadoras multinacionais aqui no Brasil. Há uns dois ou três anos ele se
aposentou e agora está abrindo o verbo sobre como funcionava o esquema de
jabá, de corrupção. Ele disse que até os anos 80 as multinacionais faziam
questão de controlar o mercado no Brasil, mas só por uma questão de
conquista. Uma vez por ano tinha uma convenção com três dias de putaria e
farras, dinheiro jorrando, e as apostas da tal multinacional para o próximo
ano, no mundo todo, de quem seria “o” fulano. E tinha um show com aquele
cara que eles estavam apostando para o ano seguinte.
Novos rumos...
Numa entrevista à Folha de S.Paulo você disse que O
Outro Mundo de Manuela Rosário poderia ser o último CD da banda. É isso
mesmo?
Não foi bem assim. Aí foi sensacionalismo, um bom gancho para uma manchete.
Estava me referindo, e até não foi colocado na matéria, à história do
primeiro disco da gente. Chegamos a gravar um disco que teve versão em CD,
vinil e cassete. O segundo já não, só em CD. Não foi opção nossa,
simplesmente foram formatos que a indústria abandonou, pelo menos não viu
mais viabilidade comercial no formato cassete nem no formato vinil. E aí se
deu mal, no caso do vinil se deu mal para caramba. E o pior é que não deixou
de existir, o cassete continua existindo. Como o Brasil é um país continente
com uma disparidade regional braba, existem séculos separados. Você vai a
lugares no Brasil que não têm saneamento, aqui mesmo em Recife, se for então
para o interior, para o sertão, não tem luz elétrica. A fita cassete ainda
funciona para caralho em vários rincões do país. Você vai para Petrolina,
pára em várias rodoviárias no caminho, e nego está lá vendendo cassete de um
violeiro da região ali que ainda usa o tape. Quando falei do CD, quis dizer
que há uma boa possibilidade de, nos próximos anos, surgir uma alternativa
de distribuição diferente, sem gravadoras, lojas. Por exemplo: um serviço em
que você assiste a um show e 15 minutos depois pode comprar o CD da
apresentação, queimado ali mesmo, na hora. Você pode imaginar uma gravadora
de CD que seja uma casa de show. Até escrevi um conto sobre isso, “A
Residência”. Aquele encontro só vai ter naquele dia e o cara vai levar para
casa um troço que nunca vai sair em CD de gravadora.
O que é clipe genérico?
Porque o remédio de marca é mais caro que o remédio genérico? Porque tem uma
grana que a indústria colocou ali para fazer embalagem, propaganda... O
clipe genérico não tem nenhum tostão da gravadora, da distribuidora, da
banda. O fonograma está à disposição de quem quiser, estudantes de
comunicação, de cinema. Já tivemos várias propostas de nego que quis fazer
clipe da gente sem custo. Mas sem a garantia de que vai poder exibi-lo.
Porque o fonograma não é nosso. Pode fazer um clipe do caralho, se a
gravadora não quiser comprar a idéia, não só tu vai ter prejuízo como não
vai poder exibir esse clipe em canto nenhum, porque o fonograma é da
gravadora. Temos um acordo com a Candeeiro (selo pelo qual saiu o ultimo
disco da banda): todos os fonogramas são liberados para clipe. Pode ter
dez clipes de uma mesma música, botar na internet sem custo para ninguém.
Nosso próximo disco vai ser o primeiro brasileiro com clipe para todas as
faixas. Nem que eu mesmo faça.
Com quem você troca idéia sobre essas coisas na
música?
Tem um cara com quem discuto um bocado, o Mabuse (editor da Manguetronic,
a primeira rádio virtual do Brasil). O grupo dele, Re:congo, é uma
comunidade mundial de troca de arquivos musicais. Eles lançaram uma licença
declarando que tudo que fazem está livre de direito autoral e de
propriedade. Substituíram a noção de propriedade intelectual por
solidariedade intelectual: o copy left no lugar do copy right.
O Chico Science era um cara com quem você tinha essa
troca de idéias?
Ele era um beatbox ambulante. Desde que o conheci, vivia com uma batida na
cabeça. O nome do disco de Marcelo D2 é uma coisa de que Chico falava muito,
“em busca da batida perfeita”. Veja: Chico escolheu cinco percussionistas do
Lamento Negro, um bloco de samba reggae montado nos moldes do Olodum, por
uma ONG de consciência negra (Daruê Malungo). Mestre de bateria
fuderoso, escolheu os que não eram presos ao samba reggae e tinham a cabeça
mais aberta para assimilar outras batidas, maracatu, hip hop, ciranda, côco.
Na mesma música, uma ciranda vira hip hop, tudo saído da cabeça de Chico, o
catalisador, aquele negócio que acelera e antecipa as coisas. Chico tinha
uma visão profética.
Cultura X Política
E onde você se alimenta? É só reflexão?
Agora sou presidente do Conselho de Cultura do Município. Recentemente
prestei uma consultoria a uma comissão, chamada Comissão de Sistema de
Incentivo Cultural (SIC), para receber recursos para a Lei de
Incentivo. O SIC é formado por representantes de cineastas, escritores,
artistas plásticos, e de vários segmentos artísticos. Tinha lá um projeto de
um clipe: o pessoal de cinema defende que seja utilizado o recurso do
Município, do Sistema de Incentivo Cultural, para a realização de clipes de
bandas independentes. Eu disse: “Rapaz, eu sou contra”. Isso é uma opção
minha, pessoal, mas acho que os músicos daqui também são contra. Sou pela
lógica, velho. Qual o sentido de você pegar 15 mil reais de uma cidade pobre
como o Recife para fazer um clipe de um disco que já é independente? Aí um
cara contestou, porque acha interessante que se estimule a produção de
clipes, porque você estará contratando técnicos, testando fotógrafos, você
está botando a coisa para funcionar. Mas a função do SIC não é fazer isso,
não. Porra, gastar 15 mil num clipe, usando película, 16 milímetros, usando
os mesmos recursos que as gravadoras usam, de edição, de textura de imagem
para tentar veicular em alguma madrugada na MTV?
Tem jabá na MTV?
Lógico que tem. Na Globo então nem se fala. E em todas as grandes emissoras
comerciais. O próprio (André) Midani, que foi um executivo da
indústria fonográfica, diz. É uma prática que a indústria vem impondo ao
mercado há mais de dez anos. Por que a MTV seria diferente?
Quais são suas prioridades como presidente do Conselho
de Cultura?
Na área de música é gravar discos mesmo. Agora, eu, como representante da
parte de música, não concordo que se use 15 mil reais para se fazer um clipe
independente aqui em Recife. No Estado até eu concordaria, porque lá são
milhões e milhões, quase 20 vezes mais do que o recurso do município. Vou
propor que em vez de prensar todo ano mil cópias de seis aprovados, que se
crie um selo Recife Discos e se tente parcerias com gravadoras e
distribuidoras de São Paulo, do Rio, dos centros da indústria fonográfica
mesmo, para distribuição nacional.
Que avaliação você faz do Ministério da Cultura com o
Gil à frente?
Todo o mundo já esperava que esse primeiro ano seria de erguer as mãos para
o céu se conseguisse livrar o Brasil do colapso total. Já ia me considerar
muito satisfeito se Lula conseguisse superar o mês de maio. E vemos que o
cara conseguiu diminuir o risco Brasil, recuperar o crédito, o investimento
externo, recuperar o poder do real consideravelmente. Mas a gente sabia que
era um ano complicado e na cultura, como no geral, espero que o governo Lula
comece no ano que vem. Tanto é que o primeiro orçamento feito por esse
ministério atual vai ser o orçamento de 2004. No Ministério da Cultura, o
processo já está começando. Com o orçamento que a cultura tem de 0,2%, Gil
não poderia fazer muita coisa além disso. Tem algumas questões que ainda
precisam ser discutidas seriamente, como essa da Ordem dos Músicos. Gil,
como músico, poderia se empenhar mais nessa história, levar uma discussão
séria sobre isso ao Congresso inclusive, uma medida provisória ou um
projeto, como estão fazendo na questão do jabá, como fizeram desde o ano
passado esse projeto com relação à numeração dos discos. A questão da OMB é
tão relevante quanto isso. Ainda mais Gil sendo baiano, e na Bahia
imaginar-se que todo guri que aprende com Carlinhos Brown vai ter que saber
ler partitura. Isso é surreal.
Você pensa em seguir uma carreira política?
[Risos] Outro dia estive num debate em São Paulo promovido por uma
vereadora do PT, no KVA (casa de shows no bairro de Pinheiros). No
outro dia de manhã, o motorista, que viu o show, me disse: "Rapaz, acho que
você devia ser político". Uma assessora disse: "Mas ele já é um político".
Eu concordo. Nunca me filiei a um partido. Todo mundo acha que sou petista,
até porque fui chamado para discussão do programa de governo, participei de
todas as campanhas de Lula. Sempre recusei a me filiar a qualquer partido
que seja por essa visão. Qualquer que seja o partido tem uma coisa
doutrinária de seguir as orientações de forma irredutível. Tanto é que está
tendo esse conflito todo dos radicais do PT, considerados radicais porque
estão tentando seguir coisas que eram programáticas do partido e que não são
mais. Uma coisa muito cabulosa você ser filiado a determinada doutrina
ideológica, não combina muito com minha formação, nem diria do rock, mas
minha formação libertária. Sou mais identificado com a postura do anarquismo
político.
MÚSICA E VIDA
A gente já esbarrou no manguebeat algumas vezes nessa
conversa. Você tinha noção do tamanho que o negócio ia chegar?
Quando vi a primeira experiência (das guitarras com o os tambores) no
palco do Espaço Oásis (bar em Olinda), fiquei arrepiado. Era um
negócio tosco para caralho, eles faziam cover do Ira!, do Africa Bambaataa,
do Jimi Hendrix. A guitarra que Lúcio tocava era de quinta mão, amplificador
peba do caralho, não saía som direito. Mesmo assim, tive a impressão de que
seria uma epidemia. Mas a noção de que ia virar referência nacional, citação
no New York Times, que viriam pesquisadores europeus fazer tese sobre
o mangue, isso nunca, jamais.
E qual foi a contribuição do mundo livre para o
movimento manguebeat?
O mundo livre tinha esse mesmo conceito de Chico de misturar informação
mundial com música brasileira, samba. Postura similar, mas linguagem
própria. Eu, que era fã da experiência punk, trouxe o cinismo, a ironia, a
antiarte. Junto com Renato L. e Mabuse, minha contribuição foi na hora de
conceitualizar, no vocabulário, no visual, misturando palha com chips,
parabólica na lama.
Mas cabe qualquer tipo de música no mangue?
Aí é uma discussão que até gerou uma polêmica recente nos cadernos
culturais, onde um músico antigo de MPB levantou vários questionamentos
sobre o suposto império do mangue, um império estético. O Abril Pro Rock,
tido como o festival que por excelência abriga a cena mangue, já teve
figuras como Tom Zé, Sepultura, Caju e Castanha. Falo no sentido de que, em
termos de sonoridade, o público mangue é um público que está aberto para
tudo. Agora um cara colocou uma teoria de que existia uma certa receita ou
determinados elementos de “atitude mangue” e se o cara não estiver dentro
desse tipo de fórmula, está excluído automaticamente. É ridículo, né?
Você se lembra qual é o grande show desse começo de
carreira?
Teve um fato interessante antes de a gente virar profissional, em 90. Não
existia o manifesto, não existia o mangue, não existia nada ainda, mas mundo
livre já fazia algumas coisas junto com o Loustal (a antiga banda de
Chico Science, Jorge Du Peixe e Lúcio Maia, embrião da Nação Zumbi).
Teve um show do Ira! em Recife, e a gente tinha marcado por coincidência uma
festa-show na mesma noite, no Oásis, um bar meio afastado lá de Olinda, dos
poucos lugares onde tinha um palco que a gente tinha acesso para tocar.
Chico teve uma idéia, porque tinha conhecido o Ira! recentemente nas férias
em São Paulo e, de alguma forma, o Nasi estava envolvido com as primeiras
festas de rap e hip hop que rolavam em São Paulo, junto com Thaíde, que
Chico freqüentou nessas férias. Chico teve a idéia de falar com Nasi e
chamar ele para o show da gente. Já era alta madrugada, não tínhamos mais
esperanças... Dali a pouco chega Chico com Nasi, Scandurra, com a banda
toda, com a equipe técnica, para ver o show, e depois subiram no palco. Eu
toquei com o Scandurra várias músicas do The Clash, cantei com o Nasi, tudo
música que a gente sabia que eles gostavam a gente tocava, The Who. Foi a
maior jam, uma farra até de manhã. E os caras chegaram: “Velho, vocês estão
se perdendo aqui, pô. Têm que ir para São Paulo amanhã, o lugar de vocês é
lá”. Eu trabalhava com televisão na época, no outro dia ia chegar detonado
para trabalhar, mas saí com a alma lavada e botando todas as fichas mesmo,
apostando assim. Eu deixei de encarar a banda como uma coisa de garagem ali.
Como foi a saída do Otto da banda?
O lance do Otto é assim: ele não combina muito com essa história de banda e
hoje está bem evidenciado isso, porque não faz parte do temperamento dele
seguir roteiros, seguir o que foi ensaiado. Como ele é front man, qualquer
coisa que ele invente na hora não vai comprometer tanto a parte da execução
da música, do instrumental. Na banda era meio foda, porque a gente ensaiava
um arranjo que, para passar para a segunda parte, dependia da conga dele, do
chocalho. A música tinha que começar com ele, ou tinha que terminar com ele,
ou tinha que passar para a segunda parte. Dependendo da empolgação, o cara
fazia tudo diferente, do jeito que ele pensava na hora. Desestabilizava o
show inteiro. Até teve um comentário do New York Times de que éramos
uma banda muito instigada mas éramos meio caóticos. Quanto mais você começa
a se envolver num lance de família, dividir hotel, acordar junto, dormir
junto, porra, as nuances de temperamento ficam cada vez mais gritantes. A
gente ficou junto de 93 a 96. Meu irmão, Otto quando via uma mulher esquecia
ensaio, podia ser o ensaio geral de show, se brincar, até a gravação. A gota
d'água foi um episódio em Porto Alegre. A gente tinha um acordo feito em
reunião, porque estava bancando as passagens, precisava circular sem apoio
da gravadora, então tinha uma graninha para administrar. Por causa de um
rabo de saia o cara queria um adiantamento para poder ficar mais um dia no
hotel com uma mulher. Pô, velho, sinto muito. Tu não tem mais colhão do que
a gente não! Não é nem uma coisa de estrelismo, era uma coisa doentia mesmo,
infantil.
Vocês se dão bem hoje em dia?
Lógico. Uma vez ele veio aqui, a gente almoçou junto, com Alessandra também.
Ele empolgado, estava começando a compor para o disco e perguntou se eu não
estava com nada sobrando de música. Normal. É preciso ser uma família muito
bem resolvida para que esse parentesco dentro da banda não se torne um
estorvo a mais.
Numa letra do disco novo você fala que “casamento é
atalho para o manicômio”. Você acha isso ainda?
Nããão (risos). Tentei refletir um pouco sobre os lugares comuns, essa
coisa da vida a dois, do relacionamento, não necessariamente do casamento
formal, mas de qualquer relacionamento estável de quem resolve dividir,
juntar os trecos. É um dilema bem próprio do ser humano atual, urbano,
pós-moderno, de ter esse mito da liberdade, principalmente depois de todos
esses movimentos libertários de contracultura, em conflito com a coisa de
algumas instituições tradicionais, que ainda sobrevivem, como o casamento,
como a família convencional, essa coisa de criar os filhos. Tentei brincar
com esse dilema. Aí teve aquela coisa das baladas: "Teus dias de rei da
noite ficaram no passado". Quando a gente acabou de gravar o primeiro disco,
começou a rolar o clipe de livre iniciativa na MTV e a gente participou de
programas de televisão, virou figurinha comum nas revistas pop, nas baladas
pop e nos programas referência para aqueles jovens. Quando voltava para o
Recife, era o rei da noite, os próprios galãs. Porque tem todo aquele mito
do sexo, drogas e rock-and-roll que uma boa parte da meninada ainda cultua.
Eu obviamente passei um período em que não queria abrir mão disso, curtindo
mesmo, umas coisas até meio arriscadas, na época eu não tinha ainda muito
essa consciência de estar sempre usando camisinha, teve um período meio
inconseqüente mesmo. E depois você se cansa, porque não era muito do meu
temperamento. Aí, em 94, eu tinha 31 anos quando comecei a viajar com a
banda. Era um pouco também aproveitar e tirar o atraso de uma coisa quase
infantil. No fundo, sempre fui um cara meio romântico, sempre quis ter uma
vida sossegada, no meu canto, fiel.
Sucesso causa dependência?
A fama é uma das coisas mais perigosas que pode existir. Por que Mick
Jagger, com a idade que tem, sem ter onde botar dinheiro e totalmente
consagrado, continua pegando a estrada? Tem muito a ver com uma coisa
doentia em torno dos holofotes. Mas não tem muita comparação: a nossa época
de maior sucesso foi quando “Meu Esquema” (música do disco Carnaval
na Obra (1998)) entrou no programa da Luana Piovani na MTV, (o
extinto Tudo de bom, gravado em Nova York). Foi a única vez em
que fui num lugar, na praça Benedito Calixto (na zona oeste de SP), e
tocaram uma música nossa.
Por que esse medo da velhice?
É um tipo de reflexão existencial sobre o sentido da vida. A velhice me faz
conectar com a morte, com a sensação do nada. Nunca senti muita atração para
abraçar nenhuma fé num sentido mais profundo. Até mesmo a opção do suicídio
cheguei a cogitar. Não tem nada a ver com droga, com vícios. Tem a ver com
essa crise existencial muito forte.
E como você resolve essa angústia sem divã?
Ninguém resolve. A gente nasce com a condenação e a necessidade de se
conectar com algum tipo de amparo existencial. Minha mãe é viciada em
novelas, dependência psicológica mesmo. Antes da novela deveria aparecer: "O
Ministério da Saúde adverte que dosagens excessivas de televisão causam
dependência psicológica". Por isso as discussões sobre drogas são tão
hipócritas. Não tem nenhuma sociedade, nem as mais primitivas, que tenha
conseguido existir sem um tipo de conexão antológica com o sobrenatural.
Leia a íntegra da entrevista com Fred Zeroquatro na
TRIP #118
(©
Revista Trip)