|
05-06-2008
Autora investiga violência armada
SHIN OLIVA SUZUKI "Tenho uma coisa dentro de mim, aquela vontade de ser ruim. Sempre tive três desejos: quebrar o braço, virar o carro e matar uma pessoa. Já realizei dois." Disparada nas páginas do livro "Como se Fabrica um Pistoleiro", da socióloga Peregrina Cavalcante, a frase acima não saiu do tambor giratório de algum matador profissional. Esfumaçando instinto agressivo, o depoimento foi dado pela matriarca de uma família proprietária de terras no vale do Jaguaribe, sertão cearense. A autora não só se dispõe a investigar e construir o perfil dos chamados "cabras", mas também examina as origens de uma cultura e relações baseadas na violência. Professora da Universidade Federal do Ceará, Cavalcante baseou sua tese de doutorado, origem do livro, "no olhar da sociedade brasileira pela ótica da violência. A violência fundante de nossa sociedade". Recupera, assim, a história das regiões circundantes do rio Jaguaribe, cujo ponto determinante para a configuração atual é estabelecido no Brasil colonial, quando do extermínio de índios seguido da ocupação e defesa a ferro e a fogo das terras conquistadas. "Fundou-se aqui uma cultura da violência por causa da violência da cultura. O genocídio indígena foi a primeira violência. Pacificados e domesticados, eles foram incorporados às fazendas, engrossando as linhas de exércitos particulares, que eram defensores da terra, do gado, da vida e dos valores de seus patrões." O fortalecimento de governos locais, paralelo ao esmorecimento do poder federal na Primeira República, fez com que famílias tradicionais resolvessem questões entre si sem arbitragem. Ou seja, muitas vezes, à bala. A honra ferida -que podia estar relacionada a temas políticos, econômicos e morais- fomentava o ódio nas cercanias do Jaguaribe, e o pistoleiro era o meio para consumá-lo. Durante a pesquisa, que incluiu períodos de vivência em fazendas da região, Cavalcante diz que aprendeu o código local para compreender o que pistoleiros e membros dos clãs relatavam; antes, empreendeu seis meses de esforços para ganhar a confiança dos entrevistados. "O problema é que não conhecia a história do lugar. Interrompi a pesquisa, voltei para Fortaleza e passei cinco meses lendo toda a bibliografia do Ceará antigo. Assim pude entender a importância da família e da linguagem." De volta ao sertão, a socióloga começou a reunir declarações dos protagonistas desse universo, que corroboram a atmosfera de terror sempre presente: há o jurado de morte ("Sou o portador do medo que as pessoas também têm"), o vendedor de armas ("Existe o desejo nos homens de possuírem armas. (...) Eles (...) se sentem seguros estando com uma") e o pistoleiro nato ("Por qualquer coisa ficava com raiva, vinha logo a vontade de matar"). Junto aos personagens, estão relatos das crenças e práticas de religiosidade que acompanham os pistoleiros que, segundo o livro, estão divididos entre cultos a santos e pactos com o Diabo, além de superstições bizarras -em uma delas, para que o pistoleiro "fique invisível", deve-se comer favas introduzidas no corpo de um gato enterrado vivo, guardadas em diversas partes do corpo pelo período de uma semana. Embora tenha se modernizado, ganhando autonomia dos grandes proprietários da região, a pistolagem ainda guarda resquícios de velhas práticas: "Quando um "cabra" sabe demais, ele pode ser enviado para algum local distante, com a tarefa de entregar uma encomenda. E nela diz que o destinatário deve executar o pistoleiro. Ou seja, ele leva a própria decretação de sua morte." (© Folha de S. Paulo)CRÍTICA Pólvora do arcaísmo ainda espalha medo nos sertões XICO SÁ Muitos deles se modernizaram. De motos, em vez de cavalos, alcançam o rastro das suas presas, cabras marcados para morrer, e executam a encomenda. Atualíssima tragédia dos sertões, como dizia um assombrado Euclydes da Cunha no início do século passado, a pistolagem ainda espalha a sua pólvora do arcaísmo no ar. Com a ajuda dos recursos da antipsiquiatria dos anos 1970, a socióloga cearense Peregrina Cavalcante realizou um estudo sofisticado sobre o comércio da morte e seus arredores políticos e sociais. "Como se Fabrica um Pistoleiro" exibe a anatomia desse tipo de "profissional". O título tem como fonte "A Fabricação da Loucura", livro do antipsiquiatra inglês Thomas Szasz. Em dois anos de estrada, nos rastros dos pistoleiros de aluguel no Ceará, Piauí e Maranhão, a pesquisadora fez uma tocaia delicada e arrancou deles suas motivações. É impossível não sacar o nobre clichê do "humano, demasiado humano" ao ler os relatos. Mas sem esquecer como se produz o fenômeno da pistolagem. Na origem de tudo, a estrutura fundiária. Meio palmo de uma cerca de arame farpado que avança na divisão de uma propriedade pode tombar cadáveres. A arte de entrevistar sem susto e sem preconceito -aqui está um dos pontos elevados do livro- levou Peregrina, que conviveu com os protagonistas a sangue frio, a obter informações sobre a mentalidade dos matadores e o universo desse tipo de crime que se arrasta há séculos no Nordeste. Neste ano mesmo, o vale do Jaguaribe, tradicional ponto da geografia da morte por encomenda, voltou a registrar ocorridos do gênero no Ceará. Como na sua versão mais antiga, a pistolagem está colada a um poder político que esgota com facilidade o debate. Em uma das narrativas mais assombradas do livro, a autora mostra o suspense em torno dos "jurados de morte". São os personagens que entram nas listas dos pistoleiros e passam a viver dia e noite aquele drama. Nas pequenas cidades, eles são apontados como seres em contagem regressiva e são motivo de curiosidade de moradores. Mesmo em casos que provocam alarde e denúncias públicas sobre a possibilidade da tragédia, a maioria dos crimes ainda tem sido inevitável. Mata-se na disputa de poder e questões de terra, dados marcantes da origem da pistolagem, mas a chamada honra, nos episódios de vinganças de famílias, é sempre evocada na hora de apertar o dedo no gatilho ou acertar, por algumas patacas, o fim do inimigo. Como se Fabrica um Pistoleiro (© Folha de S. Paulo)
|
||
|
||
© NordesteWeb.Com 1998-2003
O copyright pertence ao veículo citado ao final da notícia