05-06-2008
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O escritor
e músico
Bráulio Tavares |
Livro reúne histórias feitas de situações
absurdas, criaturas abomináveis e sociedades fictícias
Júlio Cavani
Da equipe do DIARIO
Como podem
afirmar que "o Brasil é o país do futuro" se a cultura nacional mal possui
obras de ficção científica? Será que o povo brasileiro fica tão preocupado
com os problemas mais imediatos que não tem tempo para testar os limites de
sua imaginação? Atento a essas preocupações, o escritor Bráulio Tavares vem
investigando a capacidade dos escritores brasileiros de criar situações
absurdas, imaginar sociedades fictícias, supor fenômenos sobrenaturais,
viajar para outro mundo e inventar criaturas abomináveis. Um dos resultados
desse empenho é o livro Contos Fantásticos Brasileiros, uma amostra de 17
pequenas histórias que subvertem a realidade, escritas por autores
consagrados como Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade e por outros
menos conhecidos e mais especializados no gênero, a exemplo de Amândio
Sobral e Adelpho Monjardim.
Compositor parceiro de Elba Ramalho e Lenine (outro fã da ficção),
eventual roteirista de programas da Rede Globo e premiado escritor de ficção
científica, Bráulio Tavares não procurou em seu livro construir uma
antologia cronológica, com todos os autores possíveis, ou escolher as
melhores histórias do universo fantástico brasileiro. Ele preferiu fazer uma
seleção que contemplasse os diferentes possíveis caminhos dessa literatura,
como ele mesmo bem explica no texto As Periferias do Real ou O Fantástico e
seus Arredores, excelente ensaio que abre a coletânea, um verdadeiro tratado
sobre o tema. Há ainda textos que explicam o estilo de cada autor, uma
bibliografia comentada, que serve como um guia para pesquisadores do
assunto, e ilustrações do paraibano Romero Cavalcanti.
No ensaio de introdução, Tavares tenta ainda encontrar em suas referências
bibliográficas uma definição para o termo fantástico. Acaba concluindo que a
denominação se aplicaria a tudo o que "não é realista" e zomba dessa mesma
denominação. Até porque, como o próprio autor questiona, não seria distante
do real qualquer tipo de ficção, já que até mesmo uma reportagem pode ser
fictícia. As histórias sobre fenômenos sobrenaturais ou ficção científica
não podem falar mais sobre o mundo de hoje do que muitas que se dizem reais?
O conto A Gargalhada (1935), de Orígenes Lessa, serve como um bom exemplo
de ficção científica que oferece muito o que pensar sobre o mundo de hoje.
Na história, a humanidade não sabe como reagir quando uma risada misteriosa
começa a tomar conta do mundo, invadindo transmissões radiofônicas e se
espalhando pelas cidades. Diante do enigma, a primeira reação dos humanos é
tentar culpar os outros, sejam eles comunistas, católicos ou argentinos. Se
o conto fosse escrito hoje, Bin Laden seria um dos suspeitos. Bráulio
explica que o conto se enquadra em um subgênero específico (entre os vários
enumerados por ele), sem protagonista, em que acontecimentos esquisitos
recebem diferentes reações quando se espalham por vários locais do mundo,
como também acontece em A Última Eva (1934), de Berilo Neves, onde uma
doença mata todas as mulheres do planeta (com exceção de uma carioca).
Há ainda contos sobre uma criatura africana horrenda e devoradora de
elefantes (Amândio Sobral), uma engenhoca que lê pensamentos (Lília Pereira
da Silva), uma metamorfose ambulante que fala e se transforma em vários
animais (Murilo Rubião), olhos de raio X (Humberto de Campos) e sobre uma
garota que rouba uma flor no cemitério e passa a receber ligações do defunto
(Carlos Drummond), entre outras idéias além da imaginação.
Serviço
Contos Fantásticos Brasileiros, organizado
por Bráulio Tavares, com ilustrações de Romero Cavalcanti
Editora: Casa da Palavra
Preço: R$ 28,00
(©
Pernambuco.com)
E-mail de Bráulio Tavares:
btavares13@terra.com.br
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