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Arto Lindsay, o músico

05-06-2008

André Az

Arto Lindsay, que faz show hoje no Espaço Sesc: 'Não sabia que chamaria tanta atenção por trabalhar com Caetano'

 

Produtor de estrelas da MPB, americano lança CD

João Bernardo Caldeira

   No fim dos anos 90, o americano criado em Pernambuco Arto Lindsay se transformou no produtor da moda no Brasil. Maravilhados com o olhar globalizado do estrangeiro entendido em cultura brasileira, ele foi escalado para discos de estrelas como Caetano Veloso, Gal Costa, Marisa Monte. Mas a trajetória vem de longe e remonta à passagem por bandas de viés ora punk ora pop formadas no cenário nova-iorquino das décadas de 70 e 80. Depois de conceber, ao lado do artista plástico Matthew Barney, marido de Björk, um trio eletrônico que desfilou no último carnaval de Salvador, ele agora promove mais um disco de sua profícua carreira solo, Salt, um dos poucos lançados por aqui.

   Com o CD, Arto quer provar que, antes de ser produtor, é um músico e um cantor que faz discos e shows, apesar de ele sequer se lembrar quando botou os pés em um palco carioca pela última vez. É o autor, e não o produtor badalado, que se apresenta hoje, às 21h, no Espaço Sesc, em Copacabana.

   - O público me identifica mais por minha biografia do que pelo que faço. É sempre o americano criado no Brasil, músico de vanguarda e produtor de estrelas da MPB. É chato isso. Quero forçar a atenção para a minha música - afirma Arto, no estúdio Monoaural, na Gávea, QG das gravações de Salt.

   Junto com a carreira extensa, Arto, de 51 anos, carrega rótulos que definem sua música como de vanguarda, experimental, ou noise rock (algo como rock de barulhos). Ex-líder de grupos como DNA, Lounge Lizards e Ambitious Lovers, o cantor já rasgou sua desordenada guitarra em alto e bom som, mas hoje toca no instrumento quase que apenas em shows. Suas músicas já não oferecem risco para ouvidos mais sensíveis, e por isso ele convida:

   - Não quero criar a lenda de que sou obscurantista. Preferiria ser conhecido por misturar coisas populares e experimentais. Não é algo tão inusitado, já foi feito na música pop por Jimi Hendrix, pelos tropicalistas e os Beatles. Escutem minha música. Assistam ao show.

   A eletrônica, tão essencial em sua obra, foi comandada pela incensada dupla de brasileiros Kassin e Berna Ceppas, que assina a produção de Salt junto com Arto e Melvin Gibbs. Para o americano, o disco é menos sombrio que o anterior, Invoke - ''muito dominado pelo 11 de Setembro'', diz - e traz músicas pescadas do trio elétrico em Salvador, onde mora sua mulher e o filho Noah, de três meses. A influência brasileira continua nítida e remete à bossa nova e ao jeito suave de cantar de Caetano Veloso. Dono de uma magra voz e de um corpo esguio, ele admite:

   - Eu cantava punk, gritava, fazia mil coisas no DNA. Depois pensei que poderia cantar de uma maneira mais tradicional e brasileira, e comecei a ouvir Noel Rosa, Mario Reis e Lupicínio Rodrigues. Queria misturar Al Green e Cartola.

   De Caetano, que gravou uma música do DNA em seu último disco, A foreign sound, Arto produziu Ciculandô e Estrangeiro. E se assustou com a repercussão:

   - Eu era ciente da importância de Caetano para a MPB, mas não de sua posição como criador de modas. Não sabia que desencadearia tanto interesse por ter trabalhado com ele.

   Para Arto, um bom produtor ''não precisa ser australiano para fazer música americana''. Mas admite que sua participação no Brasil foi frutífera:

   - Esse intercâmbio é sempre interessante, porque são duas das três potências afro-musicais juntas, que são Cuba, Estados Unidos e Brasil.

   E ensina, em frase lapidar:

   - Produção é a arte de dirigir alguma coisa sem tocar nela.

   Arto diz que saiu de moda como produtor, não foi mais chamado nem buscou convites. Mas gosta mesmo é de procurar novos campos de atuação:

   - É o impossível que mais me atrai, como um desafio ao consumidor. Foram as coisas que mais me desafiaram que me deram maior prazer. Eu quero ser tudo: brasileiro, americano, francês...  

JB Online)


Crítica: Sincretismo 'light'

Tárik de Souza

   Há um curioso paradoxo na arte de Arto Lindsay, um ianque criado até os 15 anos na pernambucana Garanhuns. Ao mesmo tempo em que atua como uma espécie de influente eminência parda da tropicália-pós-pop, assinando produções, ele é um enturmado vanguardista nova-iorquino com trânsito no circuito cabeça, do jazz dos Lounge Lizzards ao no-wave. A bordo do duo Ambitous Lovers (com o suíço Peter Scherer) ou antes, no coletivo DNA, ele revirou acordes de ponta-cabeça e investiu nas microfonias de guitarra, que espalhou também por discos de Caetano.

   Dele, em parceria com Ikue Mori e Tim Wright é a faixa mais louca do último A foreign sound do baiano, a zoada Detached. Parceiro do artista plástico e cineasta americano Matthew Barney no ensandecido e conceitural trio De Lama a Lâmina no último carnaval baiano, Lindsay também está por trás do pop massivo de Marisa Monte e Carlinhos Brown. Pistas para decifrar tal encruzilhada estética povoam o novo disco solo de Lindsay, Salt (Ping Pong).

   De voz pequena e frágil, que já duetou no palco com Paulinho da Viola, Arthur Morgan Lindsay Jr., filho de um missionário protestante procedente da Virgínia, EUA, flutua entre seus dois idiomas básicos no CD. ''Cortejo afro chegando/ é a rua em combustão/ me acaba, me corteja/ me arrasta pra conflagração'', entoa em português com leve sotaque pernambucano no eletro-afoxé Combustível.

   Trata-se de uma parceria com Lucas Santtana e Melvin Gibbs, um dos responsáveis pela programação eletrônica do disco ao lado dos produtores carimbados Kassin e Berna Ceppas, também co-autores de algumas faixas. O violino de Sandra Park, arranjado por Steve Barber, sobrevoa a recorrente Make that sound, em inglês, que termina numa articulação de ruídos camerística. É Marcelo Camelo, do grupo Los Hermanos, quem assina as discretas intromissões de sopros que solenizam o belo samba-afoxé Personagem. Vernon Reid, do Living Colours, traz a guitarra turbinada para a confidente e sombria Into shade.

   Com uma carreira discográfica um tanto errante a partir da trilogia inicial com o Ambitious Lovers (Envy, 1984, Greed, 1988, Lust, 1991), incluindo outra série nos 90 para o selo do pianista japonês Ryuichi Sakamoto (Corpo sutil, Mundo civilizado, que deu no remix Hyper civilizado e Noon chill), a maioria não editada aqui, Arto ganhou cotação quatro estrelas (de cinco) da jazzística revista Down Beat por seu Prize, de 1999.

   Repleto de sutilezas que vão se desvelando a cada audição, Salt recende a ambigüidades e sincretismos como a da oscilatória Twins (''I'll play my instrument till dawn/ (...) Cosme e Damião Ibaji''). Tem ainda um esmaecido clima low profile que dificilmente o credenciará a abalar o mercadão. Mas, sem dúvida, adiciona à babel da MPB o aparte do colonizador contaminado pelo estranhamento do colonizado.  

JB Online)

 

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