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A estrada, a galera e as referências de Pitty

05-06-2008

Pitty

Admirável Vídeo Novo

João Pimentel

   O primeiro DVD da roqueira baiana Pitty, “Admirável vídeo novo” (Deckdisc), tem o mérito de evitar ser apenas um registro ao vivo de suas performances. Dividido em dois documentários, o filme, como a própria cantora faz questão de frisar, segue o modelo despojado, rock’n’roll mesmo, das bandas de hardcore dos anos 70 e 80.

   O primeiro tem a turma na estrada, imagens de um show no Festival de Verão de Salvador, em janeiro deste ano, e, na seqüência, Pitty visitando a cena roqueira da capital baiana e revendo amigos em uma grande farra num bar, point do underground local. O segundo é uma jam da cantora recebendo amigos e cantando clássicos de Nirvana, Velvet Underground, Beatles, Cindy Lauper e Queens of The Stone Age.

Bons registros compensam o áudio do show ao vivo

   Não seria lógico Pitty gravar o show que vem fazendo há um ano, desde que, com o fim de sua banda, Inkoma, saiu de Salvador para tentar a sorte no “Sul maravilha”. A solução foi acompanhar a viagem da banda até Salvador e mostrar registros — que, inevitavelmente, pecam um pouco na qualidade de áudio — da roqueira interpretando sucessos como “Máscara”, “Teto de vidro”, “Equalize” e uma versão de “Deus lhe pague”, de Chico Buarque. Cantando para uma multidão, Pitty mostra o vigor e a pegada que fazem dela uma das grandes revelações do rock nacional dos últimos tempos.

   A segunda metade do road-movie começa com bonitas imagens da procissão de lavagem do Rio Vermelho, no dia 2 de fevereiro deste ano. Do sagrado ao profano, Pitty refaz sua trajetória ao reunir sua galera roqueira de Salvador no Calipso Inferno Privê. Em clima de farra mesmo, ela apresenta bandas como Drearylands, Honkers e Nancyta e os Grazzers e personagens como Rogério Big Brother, a “enciclopédia do rock baiano”, que, durante muito tempo, por ser o único produtor de rock de Salvador, acabou conhecendo muito da produção nordestina que, pela distância cultural, acaba ficando relegada ao isolamento.

   E a intenção de Pitty e do produtor Rafael Ramos — por sinal, quem primeiro apostou na menina de olhos verdes e personalidade forte — é justamente mostrar que existe uma cena sólida em Salvador. Diferentemente do que acontece em Recife, onde as bandas seguiram a cartilha de Chico Science e misturaram guitarras aos ritmos locais, na capital baiana rock é rock mesmo. É claro que no meio da bagunça alguém se lembrou do pai de todos: “Toca um Raul”.

   O segundo filme traz Pitty em um estúdio falando sobre suas referências e recebe convidados como Canibal, da banda pernambucana Devotos do Ódio, numa versão interessante de “Sailin’ on”, do Bad Brains, e no clássico “Punk, rock, hardcore, Alto José do Pinho”. Aqui Pitty mostra seu talento cantando de “Eleanor Rigby” (Lennon e McCartney) a “Girls just wanna have fun”, sucesso de Cindy Lauper, passando por Nirvana (“Smells like teen spirit”) e Velvet Underground (“Femme fatale”).

O Globo)


‘Faço as coisas na intuição’

Este DVD marca o fim do primeiro ciclo profissional de sua carreira. Como você avalia este último ano desde o lançamento do primeiro disco?

PITTY: O DVD faz uma retrospectiva deste ano e já é também a chave para um novo disco. É o fim de um ciclo mesmo, embora eu ainda faça a turnê até o fim do ano e, provavelmente, deva trabalhar outra música nas rádios. A idéia foi documentar este ano, que foi quando as coisas aconteceram. Foi tudo inesperado, não trabalhamos para as coisas se encaminharem desta forma. Por sermos de uma gravadora independente, caminhamos com os pés no chão. Faço as coisas muito na intuição.

De que forma o sucesso interferiu em sua vida?

PITTY: É uma situação diferente do que eu sempre vivi, mas é uma conseqüência natural, como é natural para mim subir em palcos maiores, cantar para mais pessoas. Mas a minha vida mudou muito mais pelo ritmo de trabalho, pela correria do dia-a-dia.

Como foi a gravação do DVD, de percorrer a cena roqueira de Salvador e registrar vocês fazendo cover das bandas que gostam?

PITTY: Na verdade, não é um DVD de show. É documental. Tentamos fazer algo no estilo dos filmes que as bandas de hardcore faziam nos anos 70 e 80. Queremos mostrar o outro lado do grupo para quem nos conhece apenas de rádio, de discos ou de shows. São dois filmes, sendo um deles gravado totalmente em Salvador, mostrando outras bandas, o reduto de onde viemos. Tem imagens com a gente tocando em um boteco para 50 pessoas. É para desmistificar mesmo, trazer a nossa história.

E como é a cena de Salvador hoje? Algo mudou depois do seu surgimento?

PITTY: Salvador é muito diferente nessas coisas. Existem grandes bandas mas não há uma ligação entre elas como no mangue bit, em que a coisa regional é o elo. É muito diferente. Como em Salvador não tem rádio-rock ou top ten , cada banda é muito fiel à sua proposta.

Você está fazendo a trilha do próximo filme de Jorge Furtado, “Meu tio matou um cara”. Como está sendo esta experiência?

PITTY: Fui convidada pelo André Moraes, produtor da trilha. É muito interessante receber um mote, uma cena, e criar uma música sobre as imagens. Uma experiência diferente e instigante para mim. (J.P.)

O Globo)

 

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