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Vapor Barato

05-06-2008

Gilberto Gil dança de collant branco, com Caetano Veloso ao fundo, em cena de "Doces Bárbaros", filme que reestréia em SP

"Doces Bárbaros" reencena prisão, júri e condenação do ministro da Cultura do Brasil

PEDRO ALEXANDRE SANCHES
DA REPORTAGEM LOCAL

   O homem de 34 anos é negro, usa trajes hippies e fitinhas no cabelo, tem unhas compridas e é réu num julgamento. Seu acusador o chama de "criminoso" -foi "pego em flagrante delito cortando a erva maldita". Seu advogado de defesa argumenta que ele não é "marginal, mas, sim, um dependente químico". O juiz profere a sentença: o homem que foi flagrado com um cigarro de maconha é culpado, cumprirá pena numa clínica psiquiátrica.

   A cena faz parte de "Doces Bárbaros", filme lançado originalmente em 1978, que reestréia em São Paulo nesta sexta-feira. Mas não, não é ficção, aconteceu na "vida real". O réu de então se chama Gilberto Gil, hoje tem 62 anos e é ministro da Cultura do Brasil.

   "Doces Bárbaros" começou a nascer em 1976, como um musical que acompanhava a reunião, num show só, de Gil, Caetano Veloso, Gal Costa e Maria Bethânia. E virou documentário quando se precipitaram os episódios de prisão, julgamento e punição de Gil.

   O hoje ministro tem memória nítida da experiência, e não concorda em interpretar como violência atos como seu envio a uma clínica psiquiátrica.

   "Não posso considerar como tal... Eu tinha que tomar alguns medicamentos que estavam dentro do chamado tratamento ambulatorial... Nem sei exatamente o que eram, eram algumas coisas, alguns barbitúricos...", diz à Folha, por telefone, de seu gabinete em Brasília, de onde conta, rindo, que não se "curou" da maconha ao ser drogado por psicotrópicos.

   "Não creio que tenham sido aqueles medicamentos ministrados ali, porque depois ainda fumei durante muito tempo."

   Lembrando dos sentimentos que lhe apanhavam no banco dos réus, descreve vários deles -ansiedade, aflição, paciência, resignação e até "um pouco, um pouquinho de culpa também".

   "A exposição pública traz esse compartilhamento moral com universos grandes de pessoas, e ali eu estava sendo julgado por uma infração a uma regra social, a uma lei", descreve, para logo acrescentar: "Ao mesmo tempo, tinha o oposto disso, o ato da liberdade do homem se contrapondo às convenções da sociedade, o ato novo, livre".

   Há 28 anos, a prisão de Gil em Florianópolis abortou a excursão dos Doces Bárbaros, que só seria retomada após sua saída da clínica. Pouco mais de um mês depois disso, a situação se repetiria em São Paulo com a colega tropicalista Rita Lee, que era homenageada pelos Doces Bárbaros no rock "Quando" (de Gil) e foi presa grávida de seu primeiro filho, também por porte de maconha.

   Gil diz não acreditar em atitudes orquestradas da ditadura contra os tropicalistas; Rita Lee não falou à Folha para relembrar o episódio. Sua detenção culminou em histórica e indignada visita à prisão da antitropicalista Elis Regina (1945-82), com o filho João Marcello Bôscoli nos braços.

   No dia do flagrante em Florianópolis, Gil foi preso no hotel com o baterista Chiquinho Azevedo, e o quarto de Caetano também foi invadido e revistado.
Personagem do filme, o policial que efetuou a prisão conta como montou "campana" dos "elementos" e deu "uma geral" na turma. Trata Caetano de modo jocoso, dizendo que ele "se assustou", "gritou", "se jogou na cama" e "disse que era um pesadelo".

   Adiante no filme, Caetano aparece buscando Gil no aeroporto na volta da clínica. Gal demonstra apoio, lamentando que o episódio "castrou" a aventura dos Doces Bárbaros. Bethânia, quase sempre muda no filme, só aparece falando numa entrevista tensa, em que é insistentemente cobrada por posição política inconsistente.

   Hoje, Bethânia não topou falar à Folha sobre o filme; Caetano e Gal não responderam a perguntas enviadas pela reportagem. Gil responde pelos quatro sobre a animosidade que geravam o hedonismo do grupo e a alienação política que esse comportamento implicava (segundo seus críticos): "Tudo isso é maluquice, uma discussão absurda.Tudo é político o tempo todo. Caetano continuava tendo uma responsabilidade política, a mesma coisa Bethânia e Gal, cada um no seu nível".

   Outra ilustração: "Caetano tem uma atitude muito diferente da minha em relação a levar desaforo para casa (ri). Eu costumo levar, tenho muito o que fazer com eles em casa, os desaforos me servem muito. Tenho um processo maravilhoso de reciclagem de desaforos no fundo do meu quintal".

   Não custa lembrar que é um membro de primeiro escalão do governo federal que diz "sou assim, levo desaforo para casa, e gosto". O diretor de "Doces Bárbaros", o carioca Jom Tob Azulay, 62, se surpreende com a história que ele mesmo contou sem saber, do réu que seria ministro.

   "Isso é tipicamente brasileiro, essas coisas só acontecem no Brasil", afirmou ao telefone, de Bruxelas, onde cumpria missão como superintendente estratégico internacional da Ancine (Agência Nacional do Cinema), aquela que o ministro propõe transformar na controversa Ancinav (agregando audiovisual). Gil discorda do diretor: "Isso acontece, o mundo dá voltas no mundo todo. O tempo todo você tem o que estava em cima indo para baixo, o que estava embaixo indo para cima. Isso é a vida, é como o mundo se move".

   Exemplo das voltas que o mundo dá é a relação de Gil com o juiz que o condenou, que ele evoca ao final da entrevista: "Ele morreu há 15 dias, doutor Ernani Palma Ribeiro... Na época, ficou amigo de meu pai e ficou meu amigo, trocávamos telefonemas freqüentemente. Visitei-o há uns três meses, quando fui fazer um show em Florianópolis".

   Outras voltas, em relação ao motivador da antiga condenação: "Deixei de fumar há uns dez anos, basicamente por causa de uma taquicardia. Gosto de cuidar da minha saúde, a maconha estava um pouquinho em desacordo".
"Nestes dez anos eu talvez tenha experimentado uma baforada de maconha uma ou duas vezes. Realmente não fumo mais maconha, isso eu sei", ri o ministro.

Folha de S. Paulo)


Documentário volta sem cortes impostos à versão de 78

DA REPORTAGEM LOCAL

   Para reeditar o filme "Doces Bárbaros", o diretor Jom Tob Azulay empreendeu não só a restauração digital da trilha sonora, como a recuperação de cenas que foram cortadas pela censura militar na versão original.

   Na cópia liberada em setembro de 1977 pela Divisão de Censura de Diversões Públicas, subordinada à Polícia Federal e ao Ministério da Justiça chefiado por Armando Falcão, mantinham-se as aparições de delegados e promotores, e mesmo grande parte do julgamento de Gilberto Gil.

   Cortaram-se detalhes -aqueles em que o artista exprimia sentimentos positivos, relacionados ou não à maconha. Foi vetado, por exemplo, trecho da leitura pelo juiz das declarações do "acusado", quando esse afirmava que "gostava de maconha e que seu uso não lhe fazia mal e nem o levava a fazer o mal" e que "o uso da maconha o auxiliava sensivelmente na introspecção mística".

   Em contrapartida, sobreviveu a interpretação dos homens da lei sobre suas palavras, que "podem ter a mesma ressonância rítmica e poética de "Refazenda", do "abacateiro", mas não encontram ressonância na ciência e na experiência humana".

   É evidente o sorriso sarcástico que brota do rosto do artista, a partir da menção ao "abacateiro" de sua canção "Refazenda" (75). O semblante se fecha diante da afirmação de que um "ídolo inconteste da juventude não pode fazer co-apologia da droga".

   Outras cenas que haviam sido cortadas são de entrevista concedida por Gil, com Chiquinho Azevedo, na clínica psiquiátrica: "A gente não tem medo da verdade, a gente não tem vergonha de nada".

   Segundo Azulay, não se pensava na censura na hora de criar. "Deixávamos para pensar na hora de enfrentá-la em Brasília, se não, não saíamos de casa. Só fui me preocupar quando fiz uma sessão em Los Angeles e a [cantora] Flora Purim disse: "Você fez um filme político, vai ter problemas quando voltar ao Brasil"."

   Dito e feito. O filme teve que perder aquelas cenas para ser liberado para maiores de 14 anos e receber o carimbo "boa qualidade - livre para exportação".

   Quando estreou, em meados de 78, teve acolhida positiva, mas não foi tido como político -Caetano já cantava "Odara", Gil entrava na fase de "quanto mais purpurina melhor" ("Realce"); mergulhavam em teores crescentes de ambigüidade, poucos levavam fé no dom politizado dos baianos.

   Mas o mundo continuava dando voltas. Uma das canções dos Doces Bárbaros, exposta em show, em disco duplo (lançado ainda em 76 pela Philips, hoje Universal) e em filme, era "O Seu Amor", composta por Gilberto Gil. "O seu amor/ ame-o e deixe-o/ livre para amar/ o seu amor/ ame-o e deixe-o/ ir aonde quiser", eram os versos em que os quatro se revezavam.

   Além de crítica comportamental e defesa ao amor hippie, livre, leve e solto, fazia alusão discordante ao slogan ditatorial nacionalista/ufanista de seis anos atrás, o célebre "Brasil, ame-o ou deixe-o", do governo Médici.

   "Isso foi proposital, isso foi. Compus pensando no "ame-o ou deixe-o'", diz o hoje ministro que discursa contra monopólios e oligopólios dentro de um governo de colorações neonacionalistas.

   "Acho que foi suficientemente compreendido, tive manifestações explícitas de pessoas referindo-se a essa compreensão", diz.

   Gil afirma não crer em qualquer relação entre aquela provocação algo cifrada e a nova rodada de perseguição a um artista que já fora exilado pela ditadura em 1969 mas também não descarta a possibilidade de ter atingido o alvo plantado no Planalto Central do Brasil. "Acho que a ditadura percebeu, sim." (PAS)

Folha de S. Paulo)

 

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