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Um passeio no jardim do paraíso na companhia do dono

05-06-2008

Foto: Francisco Fontenele

Estrigas e seu amor por Nice, as artes e as plantas do jardim da casa que abriga um mini-museu no Mondubim

Ele conheceu de perto Raimundo Cela, Aldemir Martins, Antônio Bandeira, três dos mais significativos nomes das artes plásticas que do Ceará ganharam o mundo

Eleuda de Carvalho
da Redação

   - Nilo de Brito Firmeza, você vai fazer 80 anos... - Que oitenta, menina, já fiz 85, agora em setembro. Sou virgem! Ó, o barulho do trem aí..., diz o dono da casa, criatura afável, abrindo o portãozinho de ferro que dá para um pedaço de paraíso encravado no Mondubim, bem em frente à linha do trem. Que, por sinal, costura a conversa e exige silêncio à sua passagem metálica. Enquanto o trem lagarteia sobre as paralelas, espio o batente da entrada, o cimento marcado por figuras delineadas, um homem, uma mulher, que parecem dançar. ''Quando foi feita a entrada, ainda com a massa fresca, fiz aqueles desenhos. Até o Eusélio (Oliveira, cineasta) filmou uma vez, mas o filme que ele fez ninguém sabe onde está''. Pois, quem souber, que dê notícia. Afinal, será um registro em ação do artista conhecido por Estrigas, um dos fundadores da Sociedade Cearense de Artes Plásticas, a Scap, que inteirou redondos 60 anos.

   De braço dado com o homem enxuto de carnes e generoso em sorriso, a conversa flui sob a sombra do gigantesco baobá, deriva à folhagem densa das mangueiras, em meio aos diferentes aromas que se aspira a cada duas, três passadas. É a doçura perfumada das pitangas, que se colhe com a mão, dos cajueiros que começam a florir, dos diversos canteiros de flores. Hortênsias em cachos azuis desmaiados, os cravos e cravínias cor de sol, o esplendor dos hibiscos, delicadezas de jasmim e bogari e rosa-menina nos canteiros em redor. No último mês de agosto, o espírito artístico-ecológico do casal deu na exposição NiceEstrigas - um encontro da vida com a arte (que esteve em cartaz na Unifor). Na varanda, vê-se recortes de jornal, um singelo quadrinho de ''lembrança de Juazeiro do Norte'', ex-votos, uma casinha de marimbondo, a cadeira revestida de velho couro de boi. Porta adentro, a galeria de quadros do casal e dos muitos amigos, famosos e iniciantes, que se espraia à sala ao lado, deriva para os quartos, corredores, mesmo até a cozinha, enfeitada sempre com arranjos florais, renovados diariamente por zelo e artes de Nice.

   Eles se conheceram pelos idos de 40, nos famosos piqueniques-com-arte promovidos pela Scap. Vem desse tempo a confluência de cultura, mesclando artistas plásticos, escritores, teatrólogos, jornalistas, boêmios, gente da Scap e do grupo Clã. A casa deles, um território livre desde então. Ano passado, por exemplo, os jardins de Nilo e Nice viraram ateliê ao ar livre, juntando desde alunos do curso de artes plásticas a pintores emergentes e também consagrados. Além da criação em si, Estrigas dedica parte de seu tempo a historiar os movimentos artísticos do Ceará. Na biblioteca, clareada por estratégicas e naturais telhas de vidro, as prateleiras acolhem, entre livros variados e de fina qualidade, a produção textual do artista.

   Vejamos alguns: A Fase Renovadora na Arte Cearense (edições UFC, 1983): aqui, o leitor fica sabendo qual foi a primeira entidade de artes plásticas do Estado, lê a ata de criação da Scap, os comentários da imprensa da época, o I Salão de Abril. Sobre ele, Estrigas escreveu o temático O Salão de Abril (edição PMF/UFC), em 1994, ano do cinquentenário de fundação da entidade. Outro bom balanço está em Arte na dimensão do momento, em dois volumes, quase como um diário (com orelhas assinadas por Gilmar de Carvalho). E tem também Barrica - o alquimista da arte (Coleção Perfis/Secult), em que ele dá conta da vida e da obra de Guilherme Clidenor de Moura Capibaribe, ''um dos mais fecundos e originais artistas plásticos do Ceará'', escreveu.

   Visitar Estrigas e Nice é uma experiência sensorial total. Tem a arte, a natureza, a velha casa de telhas, tão bonita, o rugido do trem, o acolhimento de ambos. Nice, com uma flor no cabelo e vestindo uma blusa que ela mesma bordou (outro de seus talentos), não deixa a visita ir-se embora sem provar um dos novos doces que inventou. - Duvido que você adivinhe o que é... No pratinho, duas delícias. Uma é quase uma gelatina, mas bem mais densa, de um amarelo claro, que se desmancha na boca. Feita de bagaço de laranja, descobre Nice o segredo. E ensina: nada se perde, tudo se transforma, e é tão bom. O outro doce, um tipo de manjar branco, de sabor sem igual. Foi feito com a polpa do coco, colhido no fundo do quintal - nem muito verde, nem maduro de todo. No ponto. Dá vontade de não ir embora nunca mais.


O POVO - O barulhinho do trem que pontua esta conversa está presente na sua vida, você mora aqui há muitos anos. Casou e veio pra cá?
Estrigas - Exato. Quando meu pai comprou esta casa, eu ainda não tinha nascido. Geralmente, estes sítios eram pra fins de semana, férias, temporadas. Era o que a gente fazia. E eu andava muito de trem, o trem nessa época era mais cômodo, a célebre maria-fumaça com seu apito gostoso. Era muito bom. O barulhinho do trem às vezes impede de se escutar o que está-se falando, mas passa, não é um barulho permanente que enerva a pessoa, não. Ele dá o ar da graça quando passa, ''ninguém pode falar mais alto do que eu'', e assim vai. O sino das igrejas, a gente escutava de longe, hoje não tem mais. Você sabia que, no silêncio de antigamente, dava pra ouvir o sino lá da Igreja do Coração de Jesus, aqui no Mondubim? Beleza, não era? O silêncio.

OP - E você, nasceu aonde? Nesta casa?
Estrigas - Como eu era muito pequenininho, nem me lembro como foi, rá-rá! Deve ter sido no casarão da Barão do Rio Branco, em frente ao prédio onde foi a faculdade de Farmácia e Odontologia e que antes tinha sido o Clube Iracema. O nosso era um sobrado e de lá a gente via as festas, o pessoal dançando.

OP - Bem, e desde quando você se deu conta em desenhar e pintar?
Estrigas - A recordação mais remota é de um irmão meu, que estudou na Escola de Belas Artes do Rio, pegando na minha mão pra eu desenhar um perfil. Posteriormente, encontrei, nas coisas que ele deixou lá em casa, lápis, cadernos, e me utilizei deles. Fiquei fazendo por conta própria, olhando coisa de revista, de livro, sozinho, sem entender de nada, só na intuição.

OP - Seu irmão estudou desenho e você é que é o artista... Como aqui não havia escola de arte, a Scap (Sociedade Cearense de Artes Plásticas) veio suprir esta lacuna? Foi lá que você conheceu a Nice?
Estrigas - Fomos nos conhecer no curso livre de desenho e pintura que havia na Scap, nos anos 50. A gente fazia sessões na sede e no campo, aí a gente formava aquele grupinho e ia pra longe, num local deserto, aqui, ali, acolá, na praia. Costumávamos fazer o que a gente chamava de ''piquenicarte'', a gente fazia um piquenique e pintava, saía muita coisa boa.

OP - Conta um pouco sobre a cena artística de Fortaleza nessa época, era o governo do Juscelino Kubitscheck no Brasil, era depois da II Guerra Mundial...
Estrigas - Nós estávamos ainda no prosseguimento do que havia sido plantado pelo Centro Cultural de Belas Artes, que foi o resultado da liderança do (Mário) Baratta junto aos artistas, e em continuidade ao Centro veio a Scap. E junto a ela, fazendo o mesmo movimento, os literatos, os escritores jovens, como Manelito Eduardo (Eduardo Campos), Arthur Eduardo Benevides, Ciro Colares, todo aquele pessoal do grupo Clã, o Moreira Campos, Mozart Soriano, Antônio Girão Barroso, Aluísio Medeiros. O João Clímaco (Bezerra) era mais velho, mas mesmo assim era do grupo. Então, havia essa junção de artistas plásticos com escritores jovens e todos marchavam no mesmo sentido. Só quando foi cogitado fazer o clube... pra você ver. O grupo Clã, inicialmente... É uma história assim meio abstrata e ao mesmo tempo concreta. Inicialmente, era pra ser Clube de Literatura e Arte Moderna, Clam. Tem uma reportagem, se não me engano do Ciro Colares, em que ele diz que foi ao ateliê do Baratta - aí é que nós vamos ver uma divergência com o que diz o Manelito Eduardo - foi a uma reunião no ateliê do Baratta, onde seria fundado o Clube. Ele conta que chegou lá e encontrou o Antônio Bandeira, o Aldemir Martins, o Chabloz, o Aluísio Medeiros, todo o pessoal que participava desse movimento. Ele diz que enquanto não se realizava a tal fundação do clube, ele ficou entrevistando esses elementos e termina a entrevista e não dá notícia de que houve a fundação. Você vê que o grupo Clã ficou como grupo e não como clube, não teve estatuto, não teve sede, é por isso que ainda persiste, porque ficou o grupo. A Scap acabou. Existem as pessoas que foram da Scap. Quem disser hoje em dia que foi, tem que ter sido mesmo. Se você participa dos remanescentes do grupo Clã, você automaticamente entrou no grupo, que não era uma associação como a Scap foi. Aí está a diferença do Clã para a Scap. Fora a diferença de objetivos, claro.

OP - Mas, além das diferenças, havia um contato estreito entre vocês.
Estrigas - Havia toda aquela confluência de objetivos, que era adotar uma estética nova, uma representação nova dentro da arte.

OP - Você sempre assinou suas obras com seu apelido. Como ele surgiu?
Estrigas - Essa história é boa, porque às vezes fica muito deturpada, né? Isso foi no Liceu do Ceará. No Liceu, a maioria dos alunos tinha apelido. Quer ver um exemplo de apelido? Tinha o Cara de Cachaça, o Canelinha... Quando entrei no Liceu, tinha passado há pouco por aqui um circo chamado Striguini, era o nome do dono do circo, um camarada bem fortão, um atleta. Como eu era muito fraquinho, o João César, que tinha o apelido de Cara de Cachaça - não é uma vingança que eu tô fazendo aqui não, eu tô só entregando quem me batizou - me colocou o apelido. Pronto. Estrigas vem daí e ficou.

OP - Por aqui andavam artistas de fora, como o Jean-Pierre Chabloz, na década de 40... Você lembra de algum outro desses artistas-viajantes?
Estrigas - Teve um que nós tivemos uma polêmica grande com ele. Esse camarada chegou aqui, era húngaro, Mack, ele e a mulher, Eva. Ele começou a enganar o pessoal aqui, dizendo que era isso, que era aquilo, aquilo outro, e fazia muita cópia. Começou a bancar o único, o sabichão, o dono da coisa, e eu comecei também a reagir, porque me pareceu que ele estava querendo dizer que todo mundo daqui era ignorante, que ninguém sabia nada. Eu já estava começando a escrever pra jornal, aí escrevi dando um chega nele, rebatendo o que ele dizia, e fizemos um movimento e disso resultou um abaixo-assinado dos artistas, de arquitetos, porque ele estava querendo tomar conta de tudo. Você imagina que ele deu uma entrevista no jornal, o título era ''Maior do que Tintoretto'', vê a pretensão? A Aldeota ainda deve estar cheia de trabalhos desse casal. Imagina, ele foi à casa do Antônio Girão Barroso, para levá-lo ao jornal pro Girão escrever uma nota em favor dele. O Manuelito Eduardo, que era diretor dos Diários Associados, dono dos jornais Unitário e Correio do Ceará, proibiu de sair notícia contra esse casal. Era preciso a gente enganar o diretor... A mulher era bonita, uma ruiva. Não sei se era ruivo falso ou não. Quando houve essa reação nossa, eles tiveram que ir embora porque perderam o prestígio. Se tivessem enganado sem alarde, podiam ainda estar enganando.

OP - Os artistas daqui sofreram algum tipo de repressão, no tempo do Estado Novo de Getúlio Vargas (decretado em 1937)?
Estrigas - Estudei no Liceu até 1939. Peguei o Estado Novo. Ditadura de Estado e ditadura de colégio, porque tinha um ditador lá durante o governo do Pimentel (interventor do Ceará), nosso professor Otávio de Farias. No período da ditadura do Pimentel aqui, a gente ainda gozava de uma certa liberdade. Quando queríamos confrontar, aí não dava, a gente perdia. Mas quando fui pra Scap, já era formado em odontologia, era mais ''adúltero''.

OP - E você exerceu a profissão?
Estrigas - Trabalhei durante muito tempo. Fui professor numa escola chamada Presidente Vargas, trabalhava no gabinete dentário. Só saí de lá porque o prédio parece que foi retomado pelo proprietário e demolido. O prédio foi demolido, os outros gabinetes das outras escolas estavam ocupados, já tinham dentistas, aí fiquei fazendo palestras sobre higiene dentária para alunos em diversos lugares. O tempo que eu passei deu bem perto de 15 para 20 anos. Foi o tempo em que comecei a ser solicitado para trabalhar com entidades que tinham objetivos culturais. Foi quando fui trabalhar com Lyrisse Porto, dando uma mãozinha no movimento cultural dela. Ela era diretora do departamento de cultura da Secretaria da Educação e Cultura do município. Depois, quando criei este espaço aqui no Mondubim (o Minimuseu Firmeza), comecei a exigir, bom, eu dou, mas tenho que ficar lá também para dar uma ajuda... (passa um trem). Até que houve um momento em que se tornou difícil ser posto à disposição, porque - se não me engano foi num dos governos aí do Tasso, ele deu ordem para ninguém mais ser posto à disposição. Houve aquela dificuldade, e olha que o secretário de Educação da época era meu amigo, Paulo Elpídio de Menezes, genro do Martins Filho (fundador da UFC). Aí o Paulo me chamou, disse: ''Tá difícil, não posso fazer nada porque tem essa ordem''. Bom. O Barros Pinho, que era secretário da Cultura, arranjou um jeitinho: ''Não é à disposição. É prestação de serviço''. Ó! Só mudou o nome e pôde. Oooora! Não podia ficar à disposição, mas para prestar serviço podia?!

OP - Além do seu trabalho artístico, você vem exercendo, há muito tempo, a crítica e a historiografia dos movimentos artísticos do Ceará. Você é sempre zeloso, mas alguém já ficou ofendido com algo que você escreveu?
Estrigas - Sei que algumas pessoas, por alguma coisa, ficaram mal satisfeitas comigo. Às vezes até por incompreensão. Escrevi, não me lembro em que ano, uma espécie de balanço do que houve em arte durante um certo tempo. Tempos depois, esse mesmo comentário, acho que no aniversário de qualquer coisa, foi republicado. E gente, que nem estava aqui na época em que saiu pela primeira vez, achou que tinha sido atingido. O Eduardo Eloy entendeu que eu o havia incluído entre os medíocres, não sei como... Fiquei até achando graça, porque um dia eu estava numa reunião, um debate sobre a construção do Dragão do Mar, e o Eloy, tudo que dizia, virava-se pra mim: ''Eu não sou medíocre, não''. Ficou nessa arenga todinha por conta desse negócio que foi escrito quando ele não estava nem aqui, estava lá para o Rio. Quer dizer, são coisas dessa natureza, as pessoas se melindram sem ter nada para melindrar. É muito comum a gente dizer uma coisa e o sujeito se colocar naquela posição. A culpa é de quem se coloca, não é de quem diz não. Porque, quando é para dizer, digo e assumo a responsabilidade.

OP - Queria que você lembrasse figuras como Raimundo Cela e Antônio Bandeira.
Estrigas - Temos Cela, Bandeira, Aldemir (Martins), e nessa esteira do movimento da década de 40 vem uma série de outros, mas o Cela é o que considero o maior artista do Ceará. Na primeira metade do século 20, não houve outro. Este valor do Cela, se continua, é porque não é um valor de temporada, de moda, é permanente mesmo. O Cela foi e continua sendo a grande figura, cada vez mais se firmando. Repare que o pessoal da Scap e do clube anterior tinha a maior consideração e admiração pelo Cela, embora estivesse fazendo um movimento artístico que não era o que o Cela adotava, porque ele se formou na Escola de Belas Artes, onde predominava o neo-clássico, embora já destituído da temática e liberto, até certo ponto, de certas coisas. O Baratta levou o Cela muitas vezes ao morro do Moinho, ele pintou uma série lá. Os artistas jovens posaram muito para o Cela, o Aldemir, o Baratta, o Bandeira, todos posaram para a tela da Santa Ceia. Pois bem, na segunda metade do século 20, considero o Bandeira, que conheci na célebre panelada que o Manelito Eduardo ofereceu a alguns elementos do Clã, que na época estava em gestação, não tinha nem nome. O Manelito, que morava aqui em Mondubim, ofereceu a panelada porque, não sei se era o Girão ou o Aluísio que tinha chegado de um congresso. E ele me pediu para servir a panelada aqui. Tinha um mangueiral acolá do outro lado da casa que dava uma sombra muito boa. Foi aí que conheci o Bandeira e o Aldemir. Vieram Aluísio Medeiros, Antônio Girão, o Mário de Andrade do Norte, Otacílio Colares, uma boa parte do Clã. Por causa dessa panelada, o Manelito diz que o Clã nasceu aqui em casa... Na realidade, o Clã foi se formando pouco a pouco, não teve um dia, uma hora. Teve um tempo, justamente no início da década de 40. E a Scap veio em 44. Foi nessa panelada que conheci o pessoal maior. Depois fui conhecendo mais, porque freqüentava os célebres cafés da praça do Ferreira. A turma passava a tarde todinha conversando, tomava um café! Por isso é que dizem que os cafés abriram falência. Foi então que conheci todos, dos mais velhos aos mais novos.

OP - Você tem trânsito livre entre as várias gerações, tanto que uma turma, de veteranos e novatos, fez todo um trabalho aqui, em tardes de sábado do ano passado. Aliás, como está aquela idéia nefasta de uma das linhas do trem tomar parte do seu sítio?
Estrigas - É o seguinte, o Metrofor ainda vai passar aqui em frente, e vai trazer forçosamente um viaduto, e com esse viaduto virá a barulheira. Vem automóvel, ônibus, moto, vem tudo quanto tem que ser. Eu fiquei chateado, não tanto por comer um pedacinho do terreno. Foi por causa da barulheira e por ser uma interferência no sossego do local. Aí, a minha vontade de ir para o mato. Muitas vezes, quando jovem, eu vinha pra cá sozinho. Tinha uma moradora aqui, ela fazia minha comida. Agora, eu fazia uma coisa que não era muito boa. Gostava de caçar.

OP - O que você caçava por aqui?
Estrigas - Na época tinha tudo. A lagoa era cheia de pato, de marrecos, jaçanãs, galinhas d'água... Como tinha muitas lagoas por aqui, eu fazia essa destruição. Hoje tenho até remorso dos crimes que cometi. Aqui, quando corto qualquer coisa, planto outra. Tanto é que hoje tem muito mais planta do que quando cheguei, quando eu era menino.

OP - A cada hora do dia tem um perfume diferente...
Estrigas - Porque tem uma variedade muito grande de flor.

OP - Seu encontro com Nice aprofundou o bem-querer à natureza?
Estrigas - Não, eu já tinha. Ela também tinha, porque morou em Aracati e no sítio onde ela morava tinha muitas plantas, ela cuidava, segundo o que ela diz, não sei se é mentira dela!

OP - E esse caso de amor...
Estrigas - Só não posso falar naquelas coisas mais lá de dentro. Posso falar do nosso encontro na Scap. Foi um encontro proporcionado por um objetivo comum, que era a arte. Essa coisa da gente se ligar um ao outro aconteceu por causa da convivência, dado, talvez, aos ''piquinicartes'', às folgas que a gente tinha um com o outro, e aí a coisa foi se desenvolvendo e acabou no que acabou. Acho que foi conseqüência das circunstâncias. As circunstâncias, às vezes, resolvem muita coisa, colocam a gente em muita confusão (risadas).

OP - Não teve abalos?
Estrigas - Só as coisas do cotidiano mesmo, pontos de vista diferentes. Como é que os meninos dizem hoje, é fica, é!? Às vezes a gente ficava, não definia. Mas aí no fica-fica, a gente ia ficando e gostando, e a coisa foi pra frente. Depois, a gente se adaptava mais um ao outro, ela dizia que gostava dos matos e eu gostava também. Agora, eu sempre quis morar num mato mais fechado que este daqui. Tive vontade de sair daqui na época do grosso do Metrofor mas, também por força das circunstâncias, não pude sair. Ou me adapto ou me acabo, e resolvi me adaptar. Concordei em ficar. Por último, ela disse, não, não vou para mais longe. Eu queria ir.

OP - Para onde?
Estrigas - Meu irmão tem um sítio em Pentecoste, tem um açude que é uma beleza! Isolado, grande. Eu digo, ''é aqui que eu vou'', mas ela tinha horror ao local e eu, para ir só... Nem a cozinheira quis ir! Como é que vou viver sozinho lá? Foi outro ''fica'', mas o meu desejo era ir para mais longe mesmo, onde eu não tivesse nem contato com as coisas daqui.

OP - E deixaria este jardim, o pomar? Quando foi que você plantou o baobá?
Estrigas - Deste tamanho que me deram, o gravador não dá pra pegar o tamanho... Me deram assim, com uns 30, 40 cm. Eu plantei. Olha lá como é que tá! Isso faz uns 40 anos. É uma árvore sagrada lá da África, que dura milhares de anos, de forma que tem que ser preservada. Me deram três pés. Dei um a meu cunhado, ele plantou na Messejana, mas agora o sítio foi vendido e não sei se já cortaram ou não. Mas tudo é possível, porque vão construir e começam a cortar as árvores. Aqui em frente, que foi a fonte de todos os baobás daqui, tem uns três pés. Me parece que tinha mais. Acho que andaram cortando, o pessoal nem sabe o que é. O outro dei para o Pepe (artista plástico e arquiteto). Ele plantou num sítio em Aquiraz. O sítio parece que foi vendido, ninguém sabe o destino. É como os trabalhos de arte, os murais, que se acabam e ninguém sabe.

NoOlhar.com.br)


Braços abertos sobre o Mondubim

Domingueira com Estrigas. No ateliê-refúgio-morada de Nice e Estrigas, as manhãs de domingo costumam ser palco de encontros memoráveis. Há o Grupo dos Cinco ou Mais e os amigos que aparecem sem data marcada

Carolina Dumaresq
da Redação

Nice e Estrigas são mestres também na arte do bem receber os amigos para tardes adocicadas pela conversa sempre bem humorada sobre artes, estética, filosofia e outros assuntos do dia (Foto: Everton Lemos 1/6/2001))



  
O Residencial Artístico e Ecológico Niceestrigas funciona a semana toda, sem descanso semanal. Batizado pelo casal de proprietários, o empreendimento multifuncional não tem fins lucrativos. Ateliê, refúgio e morada em dias úteis. Escola de artes em pleno domingo, dia em que as portas abrem nas primeiras horas da manhã e só são cerradas à tarde, quando o professor pede licença. Hora da sesta.

   A turma de alunos tem número variado a cada fim-de-semana. Grande parte já tem diploma, mas não dispensa o convívio com o mestre. ''Conviver com Estrigas é estar com uma enciclopédia artística. É extraordinário e imprescindível. Estrigas é um mestre por conhecer toda a história da arte, por ter conhecimentos estéticos aprofundados'', enumera o pintor Carlos Macedo. Freqüentador quinzenal, o artista plástico é um dos ''estudantes'' que compõe o Grupo dos Cinco ou Mais. A associação, que surgiu ano passado, tem a pretensão de promover movimentos culturais a partir das discussões estéticas e da produção artística desenoveladas no sítio.

   As reuniões já renderam uma exposição na Unifor. ''Nos encontros, discutimos filosofia da arte, técnica, contemporaneidade. Além de ateliê, vejo a casa de Estrigas e Nice como Academia'', sintetiza Carlos Macedo. A sala de aula quebra qualquer ortodoxia. É sob a copa da mangueira que o professor matura conhecimentos, recicla o repertório pictórico, distribui generosidade. As visitas da artista plástica Côca Torquato não têm periodicidade. Um domingo ou outro passa por lá. Vai em busca de variações cromáticas. Vai em busca de delicadeza. ''Há vinte anos vou lá. Já fui pra ele me dar umas noções de pintura em óleo. Já fui posar para um retrato meu. Mas é muito bom também só ficar embaixo da mangueira e usufruir da tranqüilidade e serenidade que ele passa'', diz Côca.

   Estrigas é um sábio que prima pela modéstia. Para retribuir os elogios, distancia-se da vaidade. ''São artistas de grande valor. Todos meus amigos que vêm para discutir assuntos de arte, para conhecer os trabalhos, falar sobre pintores. Eu fico aprendendo'', desconversa. No dia em que comemorou o aniversário, a casa ficou cheia o dia todo. ''Foi culpa do Gilmar de Carvalho que escreveu uma reportagem. Aí veio todo mundo'', entrega. Incômodo nenhum, assegura. ''Só não tava preparado''. Aos que ficam, um abraço. Quanto a mim, vou-me embora pra Pasárgada.

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O bruxo das cores

À margem de igrejinhas, Nilo Firmeza, o Estrigas, ocupa lugar de honra nas artes plásticas do Ceará. Em Mondubim, o sítio onde mora com a esposa Nice tornou-se um minimuseu aberto à comunidade. A ética marca o trabalho do artista, que também é autor de livros afins

Gilmar de Carvalho
Especial para O POVO

(Foto: Francisco Fontenele)



  
E não é que aquele menino frágil e desengonçado, parecia mesmo uma ''bruxa''? Era o que pensavam seus colegas do Liceu. Bruxa é ''streghe'', em italiano, daí ''strighini'', depois Estrigas. Ele assumiu o apelido, quando entrou para a história das artes cearenses. Nilo Firmeza tem sua vida marcada pela coerência e inquietude. Acertaram os que o chamaram de bruxo. Estrigas é o alquimista que interfere no mundo com cores, tintas, manchas, formas e uma forte poética visual.

   A coerência fez com que se mantivesse à margem de ''panelas'' ou ''igrejinhas''. Temos uma história sucinta no campo das artes plásticas. O nome mais expressivo do século XIX foi Irineu Filho, da tela ''Fortaleza Liberta''. O Barão de Studart falou de alguns nomes, como o alemão Brindsel. Ramos Cotôco fez uma pintura decorativa, como o teto e os detalhes do Theatro José de Alencar. Otacílio de Azevedo distraía Manezinho do Bispo para pintar painéis publicitários nos muros do Palácio da rua São José.

   Não tínhamos sequer uma tradição acadêmica. Vicente Leite, José Rangel e Gérson Faria ganharam bolsa do presidente João Thomé para estudar belas artes no Rio de Janeiro. Este último voltou do meio do caminho. Raimundo Cela, à margem, fez carreira com direito a prêmios, viagens, exílio em Camocim, volta a Fortaleza e reconhecimento póstumo.

   Com o ímpeto renovador da República, Anita Malfati pintou homens amarelos e provocou o artigo ''Paranóia ou Mistificação'', de Monteiro Lobato. O Centro Cultural de Belas-Artes (1941) era um prenúncio, tímido, de que estava para acontecer algo de novo na província e o I Salão Cearense de Pintura seria um marco. A Sociedade Cearense de Artes Plásticas, que o sucederia, em 1944, seria a ruptura, a centelha que gerou Bandeira, Aldemir, Sérvulo, Zenon. Estrigas e sua Maria Nice estavam lá, nos cursos do início dos anos 50.

   Estrigas observava tudo com a determinação de quem sabe o que faz, com o talento que se exercitava e a discrição. Mário Baratta teve a idéia de sair dos ateliês para ''descobrir'' a luz do Equador. Acreditava que poderia sair um movimento significativo daqui e lançou as bases de uma ''Arte Ceará''.

   Alguns se foram. Estrigas ficou à sombra das mangueiras centenárias do Mondubim Velho. Queria mais que o brilho de uma carreira solo. Juntou natureza e cultura, sem cair na paisagem, nas frutas ou no vaso com flores. Sua pintura sintetiza e ecoa as artes brasileiras ou cosmopolitas, com quem sempre esteve em sintonia. Longe daqui, aqui mesmo.

   No óleo, no desenho, na aquarela, alcança a mesma dimensão estética. Seus ''portraits'' não são símiles de fotografias. Captam a alma, como se optasse pela expressão do sentimento. Assim, brincou com esfumaçados, fez figuras emergir da aura do sol, pintou cangaceiros, casais, passarinhos. É político, no sentido mais generoso da expressão.

   Optou por não vender a alma ao mercado e continuou a ser o velho senhor, tímido - para quem o conhece pouco -, irônico quando está na rede ou refestelado na cadeira da varanda. Na biblioteca/ateliê, batuca, numa velha máquina de escrever, seus textos. Consegue a mesma seriedade/sinceridade quando pinta, desenha e escreve. A ética passa pela vida e alcança sua obra, pois o compromisso com o que faz é visceral.

   Foi dono de um Minimuseu que abriu as portas para a comunidade, até quando possível, continua a arquivar catálogos e notícias sobre arte e a mantém atualizadas suas estantes. Persistente e determinado, sempre soube onde chegaria, à maturidade artística e à obra que continua ''em progresso'', aos oitenta e cinco anos. É nossa parte do fogo que queima sem se consumir.

Gilmar de Carvalho é jornalista e professor da Universidade Federal do Ceará

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O marido de dona Nice

Foto: Francisco Fontenele


   Lábios pintados quando entrou, atrasada, na sala escura da extinta Sociedade Cearense de Artes Plásticas (Scap) para assistir a um filme de arte. Naquele dia, o namorado de Maria de Castro, a Nice, não havia participado da sessão. ''Ele tinha ciúmes de mim. Chegou a dizer que eu deveria escolher entre ele e a Scap. Nem precisei de tempo para lhe responder que ficaria com a Scap'', lembra Nice. Alcoviteiros que bem eram, os amigos artistas aproveitaram a ocasião para dar-lhe um literal empurrão sobre o jovem franzino da frente, Nilo Firmeza, mais conhecido por Estrigas. Recluso, ele mal se manifestou. Mas foi o batom da moça, que, impregnado na blusa do colega, iria render o comentário na manhã seguinte: ''Então foi você quem sujou minha camisa de batom!''.

   A vaidade de Nice encantou o rapaz. Mal sabia ele que seu bigode iria cativar a moça altiva que pouco se demorava calada. O namoro aconteceu. Durante dez anos perambularam por galpões e praças com suas pinturas simples e delicadas. Nos finais de semana, se juntavam aos amigos da Scap em espaços públicos com tintas, pincéis e quitutes na chamada ''piquenicarte'' . ''Em um desses encontros todos os nossos relógios estavam cada um com horários diferentes. Então, fizemos uma aposta. Quem conseguisse acertar a hora ganharia os quadros que haviam sido pintados'', conta a artista. Nilo, vencedor, receberia o primeiro quadro da namorada. Com poucos trabalhos finalizados, ela o pedira emprestado para uma exposição. Combinaram de orçá-lo com um valor bem acima do que deveria ser proposto. Mas, mesmo com o preço alto, a Secretaria do Estado acabou adquirindo-o.

   Não demorou para que Estrigas adornasse seu espaço com as telas de Nice. Dona Bárbara, mãe do rapaz, comprou as alianças para o noivado com a moça, mesmo antes dos dois se decidirem por casados. Passada e assinada a certidão de matrimônio, foram, em 1962, morar no Sítio Mondubim, lugar onde dariam vazão às suas criações. ''Depois que a mãe de Estrigas morreu, abrimos nossas portas para todos os artistas'', conta Nice. Os quadros, iluminados pela luz coada por telhas de vidro, se distribuem pelos corredores, inspirando os que ali frequentam. E o jardim, sob os cuidados do casal, é a guarida da casa.

   Durante as criações, Nice e Estrigas preferem trabalhar em espaços separados. ''Nós somos muito diferentes. Ele é extremamente organizado e calmo. Já eu não sei nem como fechar uma gaveta'', comenta a pintora. Há 53 anos juntos, não compartilham o mesmo ateliê, mas dividem, embaixo da mangueira do sítio, seus mais bonitos devaneios.

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O mestre de várias gerações

Nesta parte da entrevista, Estrigas revela sua admiração por Raimundo Cela, faz um passeio nas artes cearenses dos últimos 50 anos, do diálogo que estabelece com outras gerações, confessa pecadilhos da infância e seu amor à natureza hoje

O MESTRE confessa arrependido o antigo gosto pela caça de aves nas lagoas do Mondubim, mas hoje é uma amante da natureza (Foto: Francisco Fontenele)



O POVO - Queria que você lembrasse figuras como Raimundo Cela e Antônio Bandeira.
Estrigas - Temos Cela, Bandeira, Aldemir (Martins), e nessa esteira do movimento da década de 40 vem uma série de outros, mas o Cela é o que considero o maior artista do Ceará. Na primeira metade do século 20, não houve outro. Este valor do Cela, se continua, é porque não é um valor de temporada, de moda, é permanente mesmo. O Cela foi e continua sendo a grande figura, cada vez mais se firmando. Repare que o pessoal da Scap e do clube anterior tinha a maior consideração e admiração pelo Cela, embora estivesse fazendo um movimento artístico que não era o que o Cela adotava, porque ele se formou na Escola de Belas Artes, onde predominava o neo-clássico, embora já destituído da temática e liberto, até certo ponto, de certas coisas. O Baratta levou o Cela muitas vezes ao morro do Moinho, ele pintou uma série lá. Os artistas jovens posaram muito para o Cela, o Aldemir, o Baratta, o Bandeira, todos posaram para a tela da Santa Ceia. Pois bem, na segunda metade do século 20, considero o Bandeira, que conheci na célebre panelada que o Manelito Eduardo ofereceu a alguns elementos do Clã, que na época estava em gestação, não tinha nem nome. O Manelito, que morava aqui em Mondubim, ofereceu a panelada porque, não sei se era o Girão ou o Aluísio que tinha chegado de um congresso. E ele me pediu para servir a panelada aqui. Tinha um mangueiral acolá do outro lado da casa que dava uma sombra muito boa. Foi aí que conheci o Bandeira e o Aldemir. Vieram Aluísio Medeiros, Antônio Girão, o Mário de Andrade do Norte, Otacílio Colares, uma boa parte do Clã. Por causa dessa panelada, o Manelito diz que o Clã nasceu aqui em casa... Na realidade, o Clã foi se formando pouco a pouco, não teve um dia, uma hora. Teve um tempo, justamente no início da década de 40. E a Scap veio em 44. Foi nessa panelada que conheci o pessoal maior. Depois fui conhecendo mais, porque freqüentava os célebres cafés da praça do Ferreira. A turma passava a tarde todinha conversando, tomava um café! Por isso é que dizem que os cafés abriram falência. Foi então que conheci todos, dos mais velhos aos mais novos.

OP - Você tem trânsito livre entre as várias gerações, tanto que uma turma, de veteranos e novatos, fez todo um trabalho aqui, em tardes de sábado do ano passado. Aliás, como está aquela idéia nefasta de uma das linhas do trem tomar parte do seu sítio?
Estrigas - É o seguinte, o Metrofor ainda vai passar aqui em frente, e vai trazer forçosamente um viaduto, e com esse viaduto virá a barulheira. Vem automóvel, ônibus, moto, vem tudo quanto tem que ser. Eu fiquei chateado, não tanto por comer um pedacinho do terreno. Foi por causa da barulheira e por ser uma interferência no sossego do local. Aí, a minha vontade de ir para o mato. Muitas vezes, quando jovem, eu vinha pra cá sozinho. Tinha uma moradora aqui, ela fazia minha comida. Agora, eu fazia uma coisa que não era muito boa. Gostava de caçar.

OP - O que você caçava por aqui?
Estrigas - Na época tinha tudo. A lagoa era cheia de pato, de marrecos, jaçanãs, galinhas d'água... Como tinha muitas lagoas por aqui, eu fazia essa destruição. Hoje tenho até remorso dos crimes que cometi. Aqui, quando corto qualquer coisa, planto outra. Tanto é que hoje tem muito mais planta do que quando cheguei, quando eu era menino.

OP - A cada hora do dia tem um perfume diferente...
Estrigas - Porque tem uma variedade muito grande de flor.

OP - Seu encontro com Nice aprofundou o bem-querer à natureza?
Estrigas - Não, eu já tinha. Ela também tinha, porque morou em Aracati e no sítio onde ela morava tinha muitas plantas, ela cuidava, segundo o que ela diz, não sei se é mentira dela!

OP - E esse caso de amor...
Estrigas - Só não posso falar naquelas coisas mais lá de dentro. Posso falar do nosso encontro na Scap. Foi um encontro proporcionado por um objetivo comum, que era a arte. Essa coisa da gente se ligar um ao outro aconteceu por causa da convivência, dado, talvez, aos ''piquinicartes'', às folgas que a gente tinha um com o outro, e aí a coisa foi se desenvolvendo e acabou no que acabou. Acho que foi conseqüência das circunstâncias. As circunstâncias, às vezes, resolvem muita coisa, colocam a gente em muita confusão (risadas).

OP - Não teve abalos?
Estrigas - Só as coisas do cotidiano mesmo, pontos de vista diferentes. Como é que os meninos dizem hoje, é fica, é!? Às vezes a gente ficava, não definia. Mas aí no fica-fica, a gente ia ficando e gostando, e a coisa foi pra frente. Depois, a gente se adaptava mais um ao outro, ela dizia que gostava dos matos e eu gostava também. Agora, eu sempre quis morar num mato mais fechado que este daqui. Tive vontade de sair daqui na época do grosso do Metrofor mas, também por força das circunstâncias, não pude sair. Ou me adapto ou me acabo, e resolvi me adaptar. Concordei em ficar. Por último, ela disse, não, não vou para mais longe. Eu queria ir.

OP - Para onde?
Estrigas - Meu irmão tem um sítio em Pentecoste, tem um açude que é uma beleza! Isolado, grande. Eu digo, ''é aqui que eu vou'', mas ela tinha horror ao local e eu, para ir só... Nem a cozinheira quis ir! Como é que vou viver sozinho lá? Foi outro ''fica'', mas o meu desejo era ir para mais longe mesmo, onde eu não tivesse nem contato com as coisas daqui.

OP - E deixaria este jardim, o pomar? Quando foi que você plantou o baobá?
Estrigas - Deste tamanho que me deram, o gravador não dá pra pegar o tamanho... Me deram assim, com uns 30, 40 cm. Eu plantei. Olha lá como é que tá! Isso faz uns 40 anos. É uma árvore sagrada lá da África, que dura milhares de anos, de forma que tem que ser preservada. Me deram três pés. Dei um a meu cunhado, ele plantou na Messejana, mas agora o sítio foi vendido e não sei se já cortaram ou não. Mas tudo é possível, porque vão construir e começam a cortar as árvores. Aqui em frente, que foi a fonte de todos os baobás daqui, tem uns três pés. Me parece que tinha mais. Acho que andaram cortando, o pessoal nem sabe o que é. O outro dei para o Pepe (artista plástico e arquiteto). Ele plantou num sítio em Aquiraz. O sítio parece que foi vendido, ninguém sabe o destino. É como os trabalhos de arte, os murais, que se acabam e ninguém sabe.

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A marca da Scap

Sílvia Bessa
da Redação

   A história das artes plásticas no Ceará passa por uma panelada no sítio de Hermenegildo e Bárbara de Brito Firmeza, lá no início dos anos 40. O almoço em homenagem ao escritor Antônio Girão Barroso, que voltava de sua estadia no Rio de Janeiro, reuniu importantes nomes da literatura cearense que mais tarde fundariam o grupo Clã. Levou também ao Mondubim os artistas plásticos Antônio Bandeira e Aldemir Martins, que se tornaram amigos do jovem filho do casal, Nilo.

   Juntos os três participariam mais tarde da fundação da Sociedade Cearense de Artes Plásticas, a Scap, que completaria agora 60 anos. Outros artistas estavam envolvidos no projeto, nomes como Barrica, Carmélio Cruz, Inimá de Paula, Jonas Mesquita, Mário Baratta, Raimundo Cela, Raimundo Garcia, Zenon Barreto e Barbosa Leite.

   A Scap tinha estatuto, registro em cartório e sede própria. Primeiro, funcionou na Intendência Municipal, próximo à Praça do Ferreira. Depois, transferiu-se para a rua Guilherme Rocha, esquina com General Sampaio. Foi espaço de encontro, de troca de idéias que movimentaram Fortaleza, e marcariam as artes plásticas no Ceará até hoje.

   Os próprios sócios mantinham a Scap. Só aqui e acolá é que surgia uma ajuda do poder público. Ainda assim, a entidade foi responsável pela organização do primeiro Salão de Abril, em 1946, que aconteceu numa livraria desocupada. E esteve a frente do projeto nos 13 salões seguintes.

   Fez mais. Realizou exposições, palestras, sessões de pintura de campo (batizadas de ''piquenicarte'') e de desenho em ateliê, leituras coletivas, cursos. Foi em um desses momentos que Estrigas conheceu Nice.

   Em 1953, ele foi eleito presidente da Sociedade. No ano seguinte, passaria o cargo ao poeta Artur Eduardo Benevides. E veria a Scap chegar ao fim em 1958.

   Um fim que ainda ressoa. Vide a exposição inaugurada na última sexta-feira, dia 1º, no Espaço Cultural do Superior Tribunal de Justiça, em Brasília, - ''A Arte no Ceará: da Scap aos contemporâneos''. Das 31 telas apresentadas, 21 são de artistas que integraram a Scap. Entre eles, Estrigas.

SERVIÇO:

A Arte do Ceará - da Sociedade Cearense de Artes Plásticas aos Contemporâneos - Exposição no Espaço Cultural do Superior Tribunal de Justiça, em Brasília, Mezanino do Prédio dos Plenários, 2º andar. Em cartaz até 15 de outubro. Entrada gratuita.

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