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05-06-2008
Por Rodrigo Zavala, do Cineweb SÃO PAULO (Reuters) - Depois de 28 anos da estréia do documentário "Os Doces Bárbaros", do diretor Jom Tob Azulay, seu relançamento nesta sexta-feira traz um misto de nostalgia e empolgação naqueles que presenciaram o sucesso do quarteto formado por Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Costa e Gilberto Gil. São duas horas de música e entrevistas que culminam na canção hino hippie/tropicalista "Os Mais Doces Bárbaros", que não apenas evoca um grupo ícone da cultura nacional, mas remonta a idéia festiva e metafórica de contraste à efervescência política e engajada dos anos 1970. Pelas lentes de Azulay, o espectador é transportado para a turnê nacional realizada pelo grupo em 1976, a mesma que gerou o único álbum do quarteto. Este detalhe é importante, pois os discos ao vivo ainda eram raros na época, e o registro sonoro deficiente era compensado por farto material inédito. Assim, toda a confecção desse trabalho é apresentada para o público por meio do filme. E lá estão todos os clássicos do quarteto: "Atiraste uma Pedra", "Pássaro Proibido", a homenagem a Rita Lee "Quando", entre apresentações no Canecão, no Rio de Janeiro, e no Anhembi, em São Paulo. A lista de canções e coreografias emocionantes se completa ainda com "Esotérico" e "Um Índio". Música, dança, drogas, álcool, composição, coreografias, tudo, enfim, é captado pelo olhar do diretor em seu polêmico filme. Mesmo a interrupção imprevista, em Florianópolis, quando Gil foi preso, julgado e condenado por porte de maconha -- fazendo com que o grupo ficasse um mês sem apresentações --, está na produção, que agora é relançada em versão remasterizada, com cenas inéditas. A qualidade do som é um trabalho a parte. Depois de um ano e meio, o que a princípio era mono, tornou-se, agora, dolby digital (5.1). Uma transformação que garantiu uma qualidade superior à produção, perceptível já nos primeiros minutos de filme. Um investimento obrigatório, ao ser analisado o potencial comercial do filme. Se em 1976 os "Os Doces Bárbaros" foram recebidos com críticas pelo tom escapista que adotavam, na contracorrente da resistência da MPB ao regime militar, hoje eles se reencontram nas telas escuras do cinema, divertindo um público afeito aos devaneios metalinguísticos de Gilberto Gil e à ferocidade fisionômica e verbal de Bethânia. Caetano e Gal, à parte, fazem coro. (© UOL Cinema) DVD de "Os Doces Bárbaros" deve ser lançado até o Natal
O registro histórico da turnê dos
Doces Bárbaros em 1976 vai ganhar edição em DVD, que deve sair até o Natal,
disse o diretor do documentário Jom Tob Azulay. (© UOL Cinema) Leia as frases censuradas de "Os Doces Bárbaros", que reestréia em São Paulo
Em 1978, a ditadura militar comandava
(?) o Brasil com mão pesada, e a censura, com seus critérios esdrúxulos,
agia em todos os meios de comunicação. Parece um passado distante. Chico: "Eu tô bem seguro, fui muito bem tratado. A gente ficou muito junto da verdade e acho que isso ajudou muito a gente." Gil: A gente tá aí, a gente não tem vergonha de nada, a gente não tem dúvida a respeito do que a gente é... A gente é isso, somos pessoas de hoje, século 20, 76, após-calispo, né?" (da letra de "Chuck Berry Fields Forever") (© UOL Cinema) "Doces Bárbaros" volta aos cinemas, sem cortes Lançado pela primeira vez em 1977, com cortes impostos pela censura, o documentário reestréia nesta sexta, em versão integral
São Paulo - Uma primeira versão do filme foi lançada em 1977, com quatro grandes cortes impostos pela censura. Eram cenas em que Gil e o baterista Chiquinho Azevedo, que também fora preso, apareciam lado a lado em uma clínica psiquiátrica para onde foram mandados como parte da sentença. A outra seqüência mostrava a leitura da defesa do cantor e compositor no seu julgamento. Todas elas foram reincorporadas nessa nova versão que chega aos cinemas hoje. Passaram-se quase 30 anos entre a versão mais recente do documentário Doces Bárbaros e o espetáculo que comemorou os dez anos das carreiras de Maria Bethânia, Gilberto Gil, Gal Costa e Caetano Veloso. O diretor Jom Tob Azulay registrou as primeiras etapas da excursão, a partir da estréia no Palácio do Anhembi, em São Paulo, filmando desde os ensaios até os shows, passando pela reação do público e da imprensa. Registrou também a prisão e o julgamento do hoje ministro Gil, em Florianópolis, por porte e consumo de maconha. Além de restabelecer a integridade do filme, Azulay o remasterizou e remontou, adicionando cenas inéditas de entrevistas com os cantores. O incidente de Florianópolis envolvendo Gil e a condição atual do cantor baiano deram ao trabalho uma característica de raridade. Visto com distanciamento, não traz nada de novo do ponto de vista de linguagem. É apenas um registro competente do acontecimento que marcou aquele período e estabeleceu a forte influência dos baianos na MPB. (© estadao.com.br) DVD Brasileirinho Maria Bethânia
Biscoito Fino O trabalho vem assinado por craques que, entrosados com a conhecida exigência e o requinte da artista, dão o seu melhor. A direção do DVD é do jovem André Horta, e sua principal contribuição é manter as câmeras discretas e acompanhar apenas Bethânia. Dois momentos apenas receberam as câmeras em close: Motriz e a pungente Cigarro de paia. Os cenários de Gringo Cardia estão acertados e dão total visibilidade à atmosfera que se quis traduzir em Brasileirinho. A cena em que Bethânia começa a cantar Melodia sentimental, de Villa-Lobos, com os balões iluminados dançando no alto, é de uma beleza só. As lâmpadas e a iluminação de Maneco Quinderé merecem destaque. Dá para se sentir toda a alegria das festas juninas; o sagrado e o profano do sincretismo na trilogia dos santos (Antônio, Jorge e João); o verde do mar de Jurema; o azul da noite em Senhor da floresta. Tudo perfeito. Aliás, essa música reflete bem o caráter de uma produção caprichada: indicada por Chico César, Bethânia encomendou pesquisa para descobrir esta jóia. Outro achado é Sussuarana, de Hekel Tavares e Luiz Peixoto. Em dueto com Nana Caymni, é um instante de pura magia do show. Nana é responsável por um dos momentos mais hilários, em sua entrevista no making of do DVD. Duas passagens imperdíveis: quando fala da diretora Bia Lessa e suas marcações, e do momento em que, com as palmas da platéia, não conseguia ouvir a deixa do maestro Jaime Alem no violão. Por falar em entrevistas no DVD, a de Ferreira Gullar é impecável. Lendo o texto da abertura do show, Descobrimento, síntese modernista na poesia de Mário de Andrade, Gullar emociona com depoimento sobre o início da carreira de Bethânia, quando ela veio da Bahia, mocinha, acompanhada pelo irmão mais velho Caetano, para substituir Nara Leão no espetáculo Opinião, em 1965. Miúcha participa com Correnteza e Cabocla Jurema. Esta, uma singela homenagem a Rosinha de Valença, resultado de uma gravação antiga com Miúcha, que Bethânia ouviu e não esqueceu. Na abertura, o grupo mineiro Uakti mostra que experimentalismo pode ser sinônimo de qualidade. E a rapaziada do Tira Poeira, que acompanha Bethânia na belíssima Salve as folhas ("Eu guardo a luz das estrelas, a alma de cada folha...') tem faixa bônus no DVD com o Trenzinho caipira, de Villa-Lobos. Bethânia está em forma e inova ao mesclar a religiosidade e o clamor político em Purificar o subaé, do mano Caetano e Miséria dos Titãs. No final do show, o apoteótico com Ary Barroso em Rio de Janeiro (com direito a Nana Caymmi dançando Kelly Key) e o hino de vida O que é o que é, de Gonzaguinha. No DVD pode se sentir o clímax e o ritmo crescente do show, o que fica evidentemente mais difícil no CD. Maria Bethânia, em estado puro, esbanja talento e dá provas de percepção aguçada, precisão e esmero nos detalhes. Uma aula de conceito estético tupiniquim, bom gosto musical e simplicidade, Brasileirinho ainda vai dar o que falar durante e daqui a algum tempo. Podem acreditar. (© JB Online)
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