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Machado de Assis em cordel

05-06-2008

Poeta Jorge Filó lança livro em versos baseado no conto A Igreja do Diabo, do escritor fluminense

   A vocação humana para transgredir limites impostos é o tema do conto A Igreja do Diabo, escrito por Machado de Assis. No texto, o diabo decide rivalizar com o poder de Deus e abre uma igreja para ele onde tudo é permitido. Ou, pior, só atitudes condenáveis aos olhos de Deus são consentidas. Pelo credo do demônio, a humanidade é obrigada roubar, trapacear, mentir e cometer todos os tipos de desonestidade. A princípio, a nova religião é um sucesso absoluto, mas, com o passar dos anos, os fiéis do diabo começam a se reunir, escondidos, para praticar boas ações. Cismado, o diabo vai ter com Deus, que lhe fala sobre o espírito contraditório da condição dos homens.

   Com este mote, o poeta Jorge Filó compôs o ‘romance de cordel’ A Igreja do Diabo ou a Contradição Humana. O livro segue todos os caprichos de um bom cordel, mas em vez das tradicionais 16 estrofes, o autor ampliou o formato e fez um libreto cinco vezes maior, por isso chamado de ‘romance’. Apesar de se basear num conto, a obra traz a linguagem dos bons folhetos populares, explorando bem uma de suas principais características: apresentar situações religiosas inusitadas.

   A edição do livro ficou a cargo da editora Coqueiro, que há 10 anos se especializa na publicação de cordéis. Desta vez, os versos ganharam praticamente uma edição de luxo, encadernada com capa em papel de maior gramatura. O volume também ganhou ilustrações do famoso xilogravurista Dila e a ilustração da capa é assinada pelo artista plástico Suedson Neiva, de Arcoverde.

   Para acompanhar o lançamento do livro, na Livraria Cultura, Jorge Filó organizou uma festa arretada, com a presença de poetas e músicos. No primeiro time estão Antonio Marinho, Greg e Anchieta Dalí, no segundo, Miguel Marcondes e Luiz Homero, do grupo Vates e Violas.

JC Online)


Leia trecho do livro

A Igreja do Diabo
ou a contradição humana

I
Venho a todos, neste instante,
Fazer um enunciado
Que há muito tempo se deu,
Mas que mistura o passado
Com a vida no presente
Preste atenção minha gente
Para o meu comunicado.


II
Foi num velho manuscrito,
D'um monge beneditino,
Que foi contada esta estória
De um embate divino.
Quando o satanás de rabo,
Ele mesmo, o tal diabo,
Quis mudar o seu destino.

III
Tudo aconteceu no dia
Qu'ele acordou enfezado,
Olhou para seu inferno,
Achou desorganização,
Sem regras, sem condições
De arrebanhar multidões
Para o seu negro reinado.

IV
Nessa hora, meu amigos,
A sua mente negreja.
Disse ele com voz brava;
Irei fundar minha IGREJA
Pra combater por igual
Todo bem com o meu mal.
Daí se deu a peleja.


V
Terei minha própria missa,
Fartando de vinho e pão.
Escrituras, breviários,
Pois minha religião
Terá um credo somente,
Onde terei toda gente
Como em tenda de Abraão.

VI
Dito isso, o satanás,
A cabeça sacudiu
E levantando seus braços,
Em um gesto varonil,
Deu a igreja fundada,
No pecado baseada,
Qual sua mente senil.

VII
Em seguida, resolveu
Ir a Deus comunicar.
E carregado de ira
Foi os céus desafiar.
Abrindo as asas num grito,
Partiu para o infinito,
Áspero de se vingar.


VIII
Deixou, assim, o abismo
Do ódio e da escuridão
E, como um raio, partiu,
Seguindo na direção
Do profundo azul do céu,
Com sua língua de fel,
Envolto em sua ambição.

JC Online)

 

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