Notícias
A humildade cristã de Luiz Delgado

05-06-2008

A sede da Academia Pernambucana de Letras

O poeta, ensaísta, jornalista e professor, morto há 30 anos, foi responsável por legar à Academia Pernambucana de Letras a sede própria, na Avenida Rui Barbosa

JOSÉ TELES

   Há 30 anos, Pernambuco perdia o escritor, jornalista, professor, cronista, Luiz Maria de Souza Delgado. Nascido em 11 de abril de 1906, em Olinda, na Rua Duarte Coelho de Albuquerque, onde também viveu (em uma casa próxima) até o dia 6 de setembro de 1974, quando morreu. Luiz Delgado merece ser lembrado, não apenas pela obra que deixou, entre poemas, ensaios, ficção, mas por fazer parte do grupo dos chamados pensadores cristãos, assim como Alceu de Amoroso Lima, Nilo Pereira ou Gustavo Corção. Estes homens não defendiam necessariamente as mesmas causas, mas comungavam entre si de exemplares probidade de caráter e apego aos seus ideais. Os últimos de uma espécie, infelizmente extinta, foram conservadores, mas no sentido clássico do termo, que não implicava obrigatoriamente querer impor seus preceitos.

   Luiz Delgado, por exemplo, sisudo, profundamente religioso, que só casou aos 31 anos com Aureolina Marque Delgado, Dona Lola (que conheceu enquanto Secretário de Justiça do Governo Carlos de Lima Cavalcanti), tinha entre seus amigos mais íntimos o poeta Austro Costa, boêmio e mulherengo notório. No caso particular de Delgado, pelos seus escritos (milhares de textos nos jornais do Recife, sobretudo no Jornal do Commercio, onde assinou por longos anos a coluna Notas Avulsas, que depois teria como titular o amigo Nilo Pereira), a humildade também norteava suas ações. Quando foi convidado a assumir a presidência da Academia Pernambucana de Letras, relutou em aceitar. E aceitou com uma condição: não ter a obrigatoriedade de preocupar-se com a tão sonhada sede própria da entidade.

   No entanto, mal se viu presidente da Casa de Carneiro Vilela começou a lutar para conseguir um lugar permanente para a academia. Conseguiu concretizar seu intento quando, em 7 de janeiro de 1966, foi chamado ao Palácio das Princesas pelo Governador Paulo Guerra, que anunciou haver sido escolhido o velho solar do Barão Rodrigues Mendes, no cruzamento da avenida Rui Barbosa com Dr. Malaquias, nas Graças, para a sede da Academia Pernambucana de Letras. A Entrega foi oficializada, em 20 de novembro daquele ano, com a presença do presidente Castelo Branco. A batalha mais importante estava ganha, mas a luta continuava. Em ruínas, e abandonado há anos, era preciso reconstruir o casarão, cujo terreno estava ocupado por uma vacaria (sic).

   No final do seu terceiro mandato como presidente da academia, Luiz Delgado deixou o solar quase pronto para ser ocupado pelos acadêmicos (a obra seria concluída como o presidente seguinte, Marcos Vinicius Vilaça). Com sua modéstia habitual, Delgado saía-se com esta, quando o cumprimentavam ou elogiavam pela ação: “Quando muito, se quiserem meter-me nisso, digam que o presidente da Academia tem um Anjo da guarda capaz de incluir uma lembrança dessas entre os pensamentos de um governador”.

JC Online)


Obra do imortal está há anos fora de catálogo

   O ocupante da cadeira n° 6 (cujo patrono é Lopes Gama) da Academia Pernambucana de Letras é dono de uma considerável obra, infelizmente pouco divulgada, e fora de catálogo, sem contar com as centenas de crônicas, que escrevia, no suplemento literário dominical do Jornal do Commercio (das quais uma ínfima parte chegou ao livro). Da sua bibliografia, o que mais revela o homem Luis Delgado, que somente em casa, com a mulher e os filhos (cinco, entre eles José Luiz Delgado, cronista do JC) conseguia brincar e rir facilmente, é uma pequena coletânea de seus poemas. A Túnica da Alma, uma obra singular, na literatura brasileira.

   O livro foi publicado pelos amigos e filhos, como presente de bodas de prata do casamento de Delgado com dona Lola. Teria sido sugestão do jornalista Esmaragdo Marroquim (por muitos anos editor-geral do Jornal do Commercio), a quem o escritor confidenciara a existência de uma coleção de poemas inéditos, de cunho existencial, dedicados ao lar, à família, à vida em geral. Os mais antigos remontam a 1923, quando escritor ainda era adolescente, os últimos são de 1967. É um livro sui generis. O autor desconhecia que seria publicado, portanto não o revisou, não retocou versos, tampouco pediu a algum dos inúmeros amigos, literatos ou não, para escrever apresentação ou orelha.

   Naturalmente, a obra quase “clandestina” não teve noite de autógrafos. Ele nem sequer foi responsável pelo título, desta compilação que, de tão confessional, dispensa outras análises da obra do autor. Tanto é que o escritor Marcilio Reinaux, autor de o Mundo Guardado de Luiz Delgado (vencedor do prêmio literário José Ermírio de Moraes, em 1983) delineou o perfil do seu personagem em torno de A Túnica da Alma.

   “O Essencial é que te lembres de mim ainda que eu tenha morrido há muitos anos", nestes versos, escritos para os filhos, Luiz Delgado parece estar pretendendo que a obra dos que ajudaram a construir o presente não permaneça apenas um nome em alguma placa de rua, ou de obra pública (a exemplo da Escola Luiz Delgado, na Rua do Hospício). É preciso que esteja sempre ao alcance das novas gerações. Em 2006, Delgado completaria cem anos, que tal a APL, que o homenageou esta semana, começar a colocar seus livros novamente em catálogo?

JC Online)

 

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


powered by FreeFind

© NordesteWeb.Com 1998-2004

O copyright pertence ao veículo citado ao final da notícia