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05-06-2008
Exposição "Antes - Histórias da Pré-História", que começa amanhã no CCBB do Rio, examina o Brasil antes da chegada dos portugueses; mais de 300 peças, entre vasos, cerâmicas e urnas funerárias, mostram trabalho de antepassados brasileiros na primeira mostra do gênero no país LUIZ FERNANDO VIANNA A francesa Anne-Marie Pessis, uma das curadoras de "Antes -°Histórias da Pré-História", conhece profundamente as mais de 300 peças que estarão expostas a partir de amanhã no Centro Cultural Banco do Brasil no Rio, dentro das comemorações dos 15 anos do espaço. Mesmo assim, se espanta diante de algumas. "Se isso aparecer hoje, na Europa, em uma exposição de arte contemporânea, todo mundo vai dizer: "Oh!'", comenta, ao olhar para um zoólito, uma escultura em forma de peixe feita há centenas de anos. A mostra é a primeira a reunir tantos objetos do Brasil pré-Descobrimento. Eles vêm de dez instituições brasileiras e três do exterior. Em janeiro vai para o CCBB de Brasília, mas não há previsão de chegar a São Paulo. A produção e as projeções são de Marcello Dantas, e Pessis assina a curadoria ao lado de Niéde Guidon, a maior arqueóloga do país. As duas pesquisam a pré-história brasileira há 30 anos e são responsáveis pela Fundação do Homem Americano, no Piauí. A beleza de obras como o zoólito exaltado por Pessis é um dos atrativos da exposição. Mas, ao componente estético, alia-se o da divulgação científica: mostrar a pessoas de hoje retratos da vida de seus antepassados -dos índios aniquilados pelos portugueses a homens de até 11 mil anos atrás- e acabar com uma inferioridade crônica. "A primeira sala mostra imagens da pré-história de outros países para dizer: "É isso o que está nos livros. Agora vamos entrar na parte brasileira e ver que o que aconteceu na Europa aconteceu aqui também'", diz Pessis. "O povo brasileiro conhece muito pouco sua arqueologia. O estereótipo do índio ainda é o do vagabundo. Mas nós tivemos sociedades de um nível cultural alto, que desenvolveram tecnologias e criaram uma maneira de viver bem, já que não havia fome e outros problemas de hoje. E foram criadores na arte também. Temos de rever a maneira como tratamos nossos primeiros povos", acrescenta Guidon. Para a arqueóloga brasileira, o fato de astecas e incas terem suas civilizações tão exaltadas, ao contrário dos índios brasileiros, está ligado ao tipo de sociedade em que se vive hoje. "Nós valorizamos muito as manifestações exteriores de poder. Astecas e incas deixaram de ser apenas caçadores e coletores e passaram para a agricultura, a criação de animais. Daí criaram uma sociedade de castas, em que havia senhores e escravos. No Brasil não houve essa passagem. Os povos viveram em sociedades igualitárias, em que todos precisavam trabalhar para sobreviver. Por isso não se submeteram à escravidão", explica Guidon. A exposição reúne objetos em que se sobrepõem o valor estético e o valor de uso. São vasos, urnas funerárias, cerâmicas diversas, tangas e peças feitas em pedra e osso (como os zoólitos) que cumpriam funções, mas também eram feitas com impressionante esmero. As pinturas rupestres, encontradas na serra da Capivara (PI) e no Seridó (RN), são o que as arqueólogas chamam de "marcadores de memória": cenas da vida cotidiana registradas como mensagens para o futuro. "Todos se preocupavam em fazer uma transmissão de conhecimento para os que viriam", ressalta Pessis. (© Folha de S. Paulo) OLHAR PRÉ-HISTÓRICO Mostra tem réplica de preguiça de três metros e meio DA SUCURSAL DO RIO Todas as peças da pré-história brasileira da exposição "Antes -°Histórias da Pré-História" foram emprestadas por instituições nacionais. A exceção são as réplicas e os esqueletos de animais. Eles vêm do Museu de Ciências Naturais de Valencia (Espanha), sendo que os ossos foram recolhidos por um pesquisador chamado Botet, em 1906, na Argentina. "Mas a megafauna era a mesma. Essa coleção [do museu espanhol] é a melhor que existe para representar os animais que viviam no continente", explica a curadora Anne-Marie Pessis. A expressão "megafauna" se deve ao tamanho dos animais. A preguiça gigante chegava a ter quatro metros de altura e pesar cinco toneladas. Uma réplica da preguiça (com três metros e meio e 300 kg) pende da rotunda e fica pairando sobre o hall do CCBB. Na mesma área, o público poderá ver os esqueletos do maior tigre-de-dente-de-sabre do mundo e do tatu "Fusca", assim chamado por ter 1,40 m de altura. Uma tela holográfica mostra a imagem real do animal. Não há como precisar a época em que viveram os animais, mas são milhares de anos que os distanciam de nós. O gigantismo da fauna determinava muito a forma de viver dos povos de então. Eles precisavam buscar formas de proteção e se organizar coletivamente, para aumentar suas chances de sobrevivência. "Era uma sociedade desprovida de cultura tecnológica de guerra. Sobreviver já era um sucesso", conta Pessis. Não se vivia mais do que 45 anos e os grupos sociais eram formados por cerca de 50 pessoas. Segundo Pessis, quando os grupos aumentavam, subdividiam-se em outros. "As estruturas se mantinham análogas, embora houvesse a procura da diversificação. Cada grupo queria sua identidade", diz, ressaltando que a diversidade cultural é um dos aspectos principais da mostra. Uma das salas mais marcantes é a de urnas funerárias. De formatos e estilos diversos, variando de acordo com os povos -marajoaras (PA), tapajós (PA), maracás (AP)-, algumas têm formas humanas, nas quais fica identificado o sexo de quem morreu. "É como se a pessoa ganhasse uma nova pele, mas preservando-se sua identidade", explica Pessis, também chamando a atenção para detalhes, como o rosto de alguém que chora a perda, feito na parte de baixo de uma das urnas. A arqueóloga afirma que, nos primeiros povos, não havia hierarquia entre homens e mulheres nem os sentidos de religião e poder que temos hoje. "As crenças eram estruturadas na sobrevivência. A religião já é algo histórico, uma forma de poder que não é a pré-histórica. As funções sociais eram cumpridas pelos mais aptos. Se um deixasse de ser, outro passava a cumprir", diz ela. Todas essas descobertas têm como núcleo principal as escavações que há três décadas são feitas no Parque Nacional Serra da Capivara, considerado patrimônio da humanidade pela Unesco. No momento, segundo Niéde Guidon, as pesquisas priorizam "a evolução das condições climáticas nos últimos 50 mil anos". Graças ao trabalho feito no Piauí, está surgindo a primeira faculdade
pública de arqueologia do país. Será na recém-criada Universidade do Vale de
São Francisco, que fica nas vizinhas Juazeiro (BA) e Petrolina (PE). (© Folha de S. Paulo) Na Idade da Pedra Pompa da mostra sobre a pré-história brasileira aberta hoje no CCBB contrasta com a situação da arqueologia no país Alexandre Werneck No salão central, abaixo da rotunda do Centro Cultural Banco do Brasil, uma imponente réplica de esqueleto de preguiça gigante de cerca de sete metros de altura recebe os visitantes. Em uma grande sala escura do segundo andar, uma projeção de mais de dez metros de largura exibe na parede pinturas rupestres de mais de 40 mil anos animadas e ao som de música grandiloqüente. Não há dúvida: a exposição Antes - Histórias da pré-história, que é aberta hoje com um coquetel para convidados e pode ser vista pelo público amanhã, é mais um dos eventos espetaculares que vêm se tornando a marca do CCBB. A mostra, que segue até 9 de janeiro, foi escolhida para marcar o aniversário de 15 anos da casa, comemorado amanhã. E a exposição é mesmo tão impressionante quanto importante. Com 300 peças, a maioria vinda de museus nacionais, ela tem um objetivo claramente educacional: exibir ao público comum o que os arqueólogos sabem sobre a pré-história brasileira. Logo na primeira sala, uma pequena coleção de peças pré-históricas de 11 países, além do Brasil, como uma pequena versão da Vênus de Willendorf, famosa escultura de mulher de grandes seios da Idade da Pedra Lascada (cerca de 20 mil a.C.). Tudo para mostrar como, na pré-história, o homem brasileiro e o de outras partes do mundo estavam em um mesmo estágio. - O subdesenvolvimento veio com o homem branco, com a chegada dos portugueses - diz, em um passeio pelos corredores da mostra, uma de suas curadoras, Niéde Guidon, a mais importante arqueóloga brasileira, famosa internacionalmente por seu trabalho no Parque Nacional da Serra da Capivara, Piauí, e diretora da Fundação Museu do Homem Americano (Fumdham), também no Piauí. Mas o que o público comum não vê no evento é a contradição entre sua grandiosidade e a situação descrita por Niéde e pelas outras curadoras: a arqueologia brasileira não passa pelo melhor momento de sua história. O quadro acompanha toda a exposição: a cada objeto desenterrado que se vê, surge um fantasma, um problema. Diante de uma urna funerária marajoara vinda do Museu Emílio Goeldi, no Pará, feita de cerâmica e com quase um metro de altura, a arqueóloga dá um exemplo: - Você encontra isso facilmente em um antiquário na Suíça. Um dos nossos maiores desafios é o fato de que as peças são facilmente contrabandeadas. O que, segundo ela, dialoga com o desrespeito de proprietários de terra que vendem peças encontradas em suas fazendas, com a falta de verbas para projetos e com a falta de pessoal para conservação de acervos. Segundo um documento divulgado pela Fumdham, só este ano 60 de seus funcionários, ligados à administração do Parque Nacional da Serra da Capivara, junto com o Ibama, foram despedidos por falta de recursos. Hoje, poucos guardas tentam coibir depredações, caça e vandalismo. A professora completou este ano três décadas de trabalho no Parque Nacional. Em sua mais importante pesquisa, realizada no sítio arqueológico do Boqueirão da Pedra Furada, na região, encontrou vestígios do Homo sapiens sapiens que datam de até 50 mil anos atrás. A descoberta levantou polêmica internacional, pois colocava em xeque as teorias mais aceitas de que o povoamento da América aconteceu apenas há 20 mil anos. Agora, ela está abandonando sua pesquisa. Professora da Universidade Federal do Piauí e com mais de 70 anos, já é aposentada. Trabalha como convidada e não consegue a renovação do financiamento de seu projeto. Na sala dedicada ao Parque Nacional da Serra da Capivara, Niéde mostra uma réplica da Pedra Lavrada do Ingá, a mais famosa gravura rupestre do Brasil. Diante dela, peças com belíssimas imagens rupestres em baixo relevo que por pouco não foram destruídas por uma pedreira. Com defeitos, só foram restauradas graças ao esforço da arqueóloga Gabriela Martin Ávila, professora da Universidade Federal de Pernambuco, também na equipe de curadoras. - A exposição tem um mérito educacional, mas também é um tributo à população indígena. A grande informação que é dada por esses materiais é acabar com a imagem de que o índio brasileiro não tinha tecnologias nem pertencia a uma sociedade avançada - diz ela. Gabriela chama a atenção para outro exemplo dos desafios enfrentados pela arqueologia no país: o diálogo entre as instituições. Ela conta que a tentativa de montar uma sala dedicada aos trançados indígenas na exposição esbarrou na direção da Universidade Católica de Pernambuco, detentora do maior acervo desses objetos no país, a coleção da Furna do Estrago. A universidade não permitiu a saída das peças de seu lugar, apesar das garantias do seguro. - Vamos fazer uma reclamação formal ao Iphan. Não fizemos antes porque estávamos envolvidas com a montagem da mostra - diz Anne-Marie Pessis, também professora da UFPE e curadora da exposição. De fato, impressiona a qualidade do material pré-histórico brasileiro trazido, escolhido apenas em acervos do país justamente para que não fossem trazidas peças oriundas de contrabando. A exposição é dividida em três grandes braços, cada um representando uma das áreas de incidência de culturas antigas no país. A primeira é a do litoral, representada por zoólitos, trabalhos em pedra na forma de animais, e pelos sambaquis, espécie de misto de moradia e túmulo formados por areia, conchas e terra. A segunda é a do interior, representada pela arte rupestre; e a terceira é a da Amazônia, com muiraquitãs - amuletos em forma de animais -, cerâmicas, cestas e alguns objetos de uso medicinal. (© JB Online) Potencial não aproveitado
A exposição começa com uma mostra de grandes animais, como a preguiça
gigante e o maior tigre-de-dente-de-sabre do mundo. No primeiro andar,
ficam as obras pré-históricas dos vários países. Depois, no resto do CCBB,
ficam as salas dedicadas às três áreas.
Segundo Niéde Guidon, a falta de visão das autoridades
estadual e federal para as possibilidades do Parque Nacional da Serra da
Capivara é um dos principais problemas que o local enfrenta. Em junho
deste ano, ela lançou um projeto para potencializar o turismo na área, mas
ele vai a passos lentos. - O Brasil poderia ganhar muito com o turismo
arqueológico e ganha muito pouco - diz a professora, que lembra que o
local em que trabalha é reconhecido como patrimônio da humanidade pela
Unesco e é considerado o melhor parque nacional da América Latina. Segundo um estudo da Fumdham, com infra-estrutura, o
parque teria potencial para atrair 3 milhões de turistas ao ano. Ainda
segundo a fundação, atualmente este número não passa de 15 mil. Isso tudo, segundo ela, impede o país de saber mais
sobre o seu passado e fazer justiça a suas raízes: - Ficamos com a idéia de que os índios eram aquilo que
foi descrito pelo colonizador, mas essa imagem tem que mudar. A professora desmitifica uma comparação habitual feita
entre os índios brasileiros e os outros povos pré-colombianos. Para muita
gente, astecas, maias, incas etc, eram mais desenvolvidos que tupis,
tapuias e tupinambás, o que seria comprovado pelo fato de aqueles terem
construído impérios, com palácios e obras grandiosas, e os daqui terem
permanecido em aldeias. Segundo ela, a diferença é política: - Os índios brasileiros tinham uma organização social
baseada na solidariedade, sem hierarquia. Eles não construíram grandes
palácios porque não havia necessidade.
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