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Tragédia, romance, valentia: É o cordel, unindo arte e poesia

05-06-2008

Preste atenção por favor
Na história que eu vou contar
Ela explica o que é o cordel
Grande manifestação popular

Paulo Araújo

   Os versos acima, como os demais distribuídos por estas páginas, são inspirados na riqueza poética da literatura de cordel, uma poderosa manifestação da cultura popular nordestina. As histórias do cotidiano, que ficam ainda mais saborosas ao serem lidas em voz alta, são ainda hoje impressas de forma artesanal em papel jornal e ilustradas com xilogravura. O material é vendido em feiras, mercados e locais onde se aglomerem amantes da poesia. "O cordel foi e continua sendo uma das formas de comunicação mais autênticas nas pequenas cidades da região Nordeste", explica a escritora Clotilde Tavares, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e fundadora da Comissão Estadual do Folclore, na terra de Câmara Cascudo.

E eu vou dizer agora
Por que se diz esse nome
De onde veio o cordel
E quem é que o consome

   Assim que um fato relevante acontece — como a vitória do Brasil em uma Copa do Mundo, a morte de alguém famoso, uma grande enchente ou mesmo um caso de adultério —, os cordelistas produzem um relato extra-oficial, popular e poético dos fatos. Em poucas horas, o livreto é impresso, ilustrado e colocado à venda nas feiras, pendurado em cordões. Daí vem o nome: literatura de cordel. O leitor, no entanto, se refere ao livreto como "folheto", "foieto", ou "verso de feira".

   A origem do cordel remonta à Idade Média na Europa, quando nas praças os trovadores divulgavam velhas histórias, especialmente os romances de cavalaria que contavam as epopéias do rei Carlos Magno e dos Doze Pares de França ou de Amadis de Gaula. Narrativas de amor, guerra, heroísmo, viagens e conquistas marítimas, além dos fatos mais recentes do dia-a-dia, eram os temas preferidos do público. Por volta dos séculos 16 e 17, trazidas para o Brasil na bagagem dos colonos portugueses, as histórias eram decoradas por quem sabia ler, transmitidas de forma oral e enriquecidas pela memória do povo.

E depois de achar o mote
Que o cordelista procura
Qual o tamanho do verso
E como é sua estrutura?

   Os folhetos de cordel possuem um número variável de páginas: 8, 16, 32 ou 48. Os dois primeiros tipos são geralmente destinados a contar algo ocorrido na região, os chamados versos noticiosos. Os mais longos são os romances, que narram histórias de ficção ou da carochinha. Os versos são escritos em sextilhas — estrofes de seis linhas com sete sílabas cada uma, com o seguinte esquema de rimas: AXBXCX. Raramente também são escritos em septilhas (AXBXCCX) ou décimas, que obedece ao esquema de rimas já consagrado na cantoria de viola, ABBAAXXOOX.

Já que junto com o cordel
sempre tem uma figura,
O que danada é essa imagem
Chamada xilogravura?

   As capas dos folhetos são tingidas em tons de verde, amarelo, rosa e azul e trazem uma xilogravura — resultado da impressão feita com uma espécie de carimbo talhado numa matriz de madeira. A técnica já era conhecida na antigüidade e foi utilizada na Europa no século 15 para ilustrar cartas de baralho e imagens sacras. De lá veio para o Brasil em 1808, com a Imprensa Real Portuguesa.

   No Nordeste, a arte alcançou tal destaque que muitos xilogravuristas se tornaram tão famosos quanto os autores dos versos. Artistas como os pernambucanos J. Borges e Gilvan Samico são conhecidos em todo o mundo. O primeiro, apontado como um gênio da arte popular, já percorreu vinte países europeus, onde ministrou oficinas e palestras sobre xilogravura e cultura do cordel com ajuda de tradutores. Já Samico foi professor de xilogravura na Universidade Federal da Paraíba e teve 200 peças de sua produção reunidas em exposição na Pinacoteca de São Paulo no último mês de setembro.

E quais são os grandes temas
E os melhores autores
Dessa arte tão ferina
Que não poupa nem doutores?

   Algumas temáticas são recorrentes na literatura de cordel. Estas são as mais expressivas:

*Romances: histórias de amor não-correspondido, virtudes ou sacrifícios. Alguns títulos: Os Sofrimentos de Eliza ou os Prantos de uma Esposa e O Mal em Paga de Bem.

*Ciclo mágico e maravilhoso: histórias da carochinha, que falam de príncipes, fadas, dragões e reinos encantados. Os mais famosos são O Pavão Misterioso e A Princesa Que Não Torna.

* Ciclos do cangaço e religioso: apresentam o imaginário nordestino ligado a figuras como Lampião, Antônio Silvino, Padre Cícero, Antônio Conselheiro e frei Damião.

* Noticiosos: funcionam como jornais. Mesmo já sabendo o que aconteceu, a população compra o folheto para ler a visão do poeta. As Enchentes no Brasil no Ano Setenta e Quatro e A Criação de Brasília marcaram época.

* Histórias de valentia: apresentam personagens lendários na região, como O Sertanejo Antônio Cobra Choca e O Valente Sebastião.

*Anti-heróis: falam de nordestinos que vencem mais pela esperteza do que pela força. João Grilo e Pedro Malazartes foram imortalizados pelo cordel.

* Humorísticos e picarescos: os mais populares. Contam fatos como A Dor de Barriga de um Noivo e A Mulher Que Trocou o Marido por uma TV a Cores.

* Exemplos morais: deixam uma lição. A Moça Que Bateu na Mãe e Virou Cachorra e A Mãe Que Xingou a Filha no Ventre e Ela Nasceu com Rabo e Chifre em São Paulo são títulos de destaque.

* Pelejas: relatos de cantorias entre repentistas. Os textos são frutos da imaginação do cordelista, como A Peleja de João de Athayde com Raimundo Pelado.

*Folhetos de discussão: apresentam dois pontos de vista sobre uma mesma questão. A Discussão de São Jorge com os Americanos na Lua ou A Discussão de um Fiscal de Feira com uma Fateira são exemplos.

* Outros gêneros: há ainda folhetos de conselhos, profecias, cachorradas, descaração, política, educação e aqueles feitos sob encomenda.

   Entre as centenas de cordelistas, atualmente destacam-se o poeta, xilogravurista e editor J. Borges, em Bezerros (PE); o artista e editor Dila, em Caruaru (PE); e o poeta J. Barros, em Embu (SP). Na Bahia, os maiores nomes são Rodolfo Coelho Cavalcanti, Manuel Camilo dos Santos e, em Campina Grande (PB), Caetano Cosme da Silva.

E na escola, seu mestre
O que é possível fazer
Com os alunos curiosos
Para o cordel aprender?

   Esse tipo de literatura pode ser trabalhado em sala de aula numa parceria entre os professores de Artes e Língua Portuguesa. César Obeid, arte-educador e consultor de projetos na área de cordel do Colégio Marista Arquidiocesano, em São Paulo, faz um alerta: o projeto não deve ter como objetivo resgatar ou recuperar o cordel. "Ele nunca morreu e há cada vez mais pessoas interessadas na sua prática", afirma. Só em São Paulo há mais de 300 artistas populares que se dedicam a essa literatura. Obeid cita alguns meios de desenvolver um trabalho sobre cordel com turmas de 5ª a 8ª séries:

   — Procure nas feiras de produtos regionais de sua cidade exemplares de folhetos com temáticas variadas e leve-os para a classe. Incentive os alunos a folhear o material, escolher aqueles versos mais criativos e observar com cuidado as xilogravuras das capas.

   — Deixe bem claro para os estudantes as diferenças entre cordel, repente e embolada. O primeiro diz respeito aos versos impressos, enquanto o repente é um improviso oral, feito ao som de viola, surgido no sertão. A embolada, por sua vez, é o conjunto de versos ditos ao som de um pandeiro, típico do litoral.

   — Ensine à turma que o cordel nasceu no Nordeste e acompanhou o fluxo migratório ocorrido dessa região em direção a cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Procure saber se em seu município há algum centro de tradições nordestinas e convide um representante para ir à escola falar com os estudantes.

   — Em Língua Portuguesa os alunos aprendem o que é métrica, principalmente a de sete sílabas poéticas, e estrofes de seis versos. Desenvolva atividades orais para que as crianças digam o que foi escrito de forma poética, bem na batida do cordel.

   — Incentive a garotada a criar versos. Explique que, a princípio, as rimas podem não sair tão perfeitas como as feitas pelos grandes cordelistas, mas que a persistência certamente vai levar ao aprimoramento das estrofes.

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