05-06-2008
Para o cantor, foram suas deficiências que o empurraram
para arte
Carlos Galilea
Em Madri
Ele diz que foi enterrado vivo. "Duas
vezes. Minha família materna não aceitava os filhos de minha mãe porque ela
havia-se casado com um homem simples. Aos 7 anos descobri isso e me senti
enterrado vivo. E depois, em 1970, na divisão do espólio do tropicalismo,
praticamente me apagaram do mapa. No quinto aniversário fazia parte da
notícia; no décimo estava quase esquecido e aos 15 anos já não existia."
Tom Zé, que abriu nesta quarta-feira
(13/10) o festival de outono em Madri, sua estréia na Espanha, conta como
foi salvo. "Eu estava quase indo trabalhar no posto de gasolina de um
sobrinho meu quando um jornal publicou que David Byrne estava me
procurando", ele conta por telefone de sua casa em São Paulo.
"Curiosamente, ontem vi a garota em
cujo apartamento nos encontramos, no número 269 da rua Alagoas, esquina com
Sabará. Cada vez que passo por ali olho para a janela do apartamento e faço
o sinal da cruz pela sorte que tive."
Antonio José Santana Martins, Tom Zé,
nasceu em Irará, uma pequena cidade do interior da Bahia, em 1936. "Na
época, ali se vivia como na Idade Média", lembra. "No nordeste do Brasil
existe um povo analfabeto por causa da miséria a que foi submetido durante
séculos, como bem explicou Euclides da Cunha em 'Os Sertões', mas que ama a
cultura de seus avós, essa cultura moçárabe que educou os povos ibéricos na
Idade Média, ao contrário do resto da Europa, submetida aos bárbaros",
comenta.
"Em um de seus livros dos anos 60,
Arthur C. Clarke dizia que se o francês Charles Martel não tivesse impedido
o avanço da invasão árabe na batalha de Poitiers em 732, e a Europa tivesse
sido educada pelos árabes, estaríamos viajando para as estrelas e não para
satélites."
Quando criança, na loja de tecidos de
seu pai, escutando os camponeses, Tom Zé aprendeu a brincar com as palavras,
um prazer que voltou a encontrar quando adulto nos poetas concretistas. Ele
estudou música na Universidade da Bahia, uma continuação da Escola de Viena.
"O que me transformou em compositor
foram minhas deficiências", afirma. "Deparei de imediato com o fato de ser
um péssimo compositor, um péssimo músico é um péssimo cantor. Como não sabia
fazer música convencional, tive que fazer sempre algo estranho. Caminhar
sempre fora do limite da circunferência que limitava o universo da música
popular."
Em 1978, com o dinheiro da venda de
sua casa, construiu uma série de instrumentos --instronzémentos--, numa
tentativa de expandir o universo da música popular. "Na realidade, comecei a
fabricá-los porque não tinha a habilidade com os convencionais, assim que
para mim tanto fazia tocar buzinas como guitarras", brinca.
O primeiro, e mais surpreendente, o
artesanal hertzé, espécie de precursor do sampler: "Gravava fitas com
amostras de sons de diferentes discos, as fazia girar constantemente e
escolhia o som de uma com um teclado fabricado em casa. Havia lido em um
livro de John Cage a frase de um arquiteto: 'Não é hora mais de posse, mas
de uso', que me deixou totalmente perturbado."
Instrumentos que Tom Zé recuperou
recentemente para o disco "Jogos de Armar", como o enceroscópio
--enceradeira-liquidificador-batedeira-- ou o buzinório --uma mesa de
buzinas. "Trata-se de aproximar-se o máximo possível de uma linguagem
musical com coisas que não falam uma linguagem musical."
"Não se pode dizer que eu faço um
grande sucesso no Brasil, porque sou um artista que vende cerca de 40 mil
discos, e isso para as grandes companhias não é nada, mas há um segmento do
público que me acompanha, se interessa pelo que faço, que enche teatros",
ele diz. Plenamente recuperado de seus problemas cardíacos, no ano passado
editou o livro "Tropicalista Lenta Luta", sua resposta a "Verdade Tropical",
de Caetano Veloso.
Em "Defeitos de Fabricação",
salientava com ironia uma série de defeitos dos habitantes do Terceiro
Mundo: sonhar... "Defeitos que causam muita preocupação em nossos patrões do
Primeiro Mundo porque nós somos andróides que deveriam unicamente trabalhar.
Mas depois do trabalho acontece que bebemos, cantamos, dançamos, amamos e, o
pior de tudo, pensamos --eles gostariam de nos fazer uma lobotomia. Tudo
isso é perigoso porque pode aumentar o tamanho do cérebro e podem começar a
nascer Jesus Cristos e Fidel Castros e López de Vegas e Cervantes."
A George W. Bush, ao qual dedicou uma
canção em seu último disco, "Imprensa Cantada", considera uma musa por seu
excesso de estupidez, prepotência e truculência.
"Desde pequeno tive que me conformar
com não poder fazer música contemplativa. Uma das maneiras de me salvar de
não ser um compositor bem-dotado foi fazer reportagens sobre o que acontecia
ao meu redor. Minha música é sempre uma camuflagem da rebeldia, que é na
realidade o produto que fabrico, e não arte."
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
(© El Pais/UOL Mídia Global)
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