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Ofício clandestino

05-06-2008

Luiz Mourier

O 'imortal' Lêdo Ivo em seu apartamento, em Botafogo: 'Hoje um poeta só é reconhecido se aparecer no programa do Jô Soares'

Lêdo Ivo lança coletânea que revê suas seis décadas de poesia e diz que o lugar do poeta foi ocupado pelas celebridades de TV

Rodrigo Fonseca

   Ao esparramar-se na poltrona de couro da sala de estar de sua casa, em Botafogo, esticando os pés sobre a mesinha de centro para posar para o fotógrafo, Lêdo Ivo indagou, preocupado:

   – Será que vão pensar que sou um ocioso?

   Imagina! Qualquer um que passe os olhos pelo calhamaço de 1,1 mil páginas, recém-lançado pela Topbooks sob o nome Poesia completa – 1940-2004, vai ter certeza de que ócio não teve lugar em sua vida (leia abaixo poemas de épocas diversas). O livro reúne os versos escritos ao longo de seis décadas por este pequeno grande alagoano de 1,60m de altura e 80 anos de causos para contar. Desde sua estréia, com As imaginações, nos idos de 40, até hoje, ele não parou de inventar estrofes. E é a vontade de inová-las que ainda o conduz à máquina de escrever, já que a erudição artística de Lêdo é inversamente proporcional a seu conhecimento de informática (“Sou um analfabeto eletrônico”, avisa).

   Imortalizado na Academia Brasileira de Letras em 1986, Lêdo acredita que escrever não é mais um ofício ilustre. Na entrevista a seguir, ele diz que a poesia passou a ser uma ocupação clandestina, já que o lugar do poeta foi ocupado pelos pilotos de fórmula 1 e pelos atores de TV. Diz também que a ABL está mais forte do que nunca, justamente porque agora integra figuras da mídia, como Paulo Coelho, e explica por que não gosta de ser incluído literariamente na geração modernista de 1945.

– Poesia é profissão?
– Poesia não é dom, é ofício que se aprimora conforme você se educa. Isso porque a arte é mais uma questão de cultura do que emoção, já que a gente se despersonaliza conforme vive e aprende. E a função do poeta, como escritor, é construir a literatura de seu povo. Mais ainda quando se é um poeta de língua portuguesa, que não tem uma grande tradição literária, ao contrário dos franceses, ingleses e alemães, que têm séculos de cultura atrás de si.

– O senhor se considera um poeta profissional?
– Sei fazer um poema assim como um piloto de Boeing sabe pilotar avião. Então, sou profissional. A poesia é um gênero que, segundo o escritor espanhol Juan Ramón Jiménez, “se dirige à imensa minoria”. São raríssimos os poetas do mundo que chegam à notoriedade, como Manuel Bandeira ou Carlos Drummond de Andrade. Mas eu nunca esperei a posteridade. A posteridade de um poeta é o aqui e o agora.

–Poesia completa abarca 64 anos de fazer poético. O que mudou na poesia brasileira nesse tempo?
– O Brasil, de 40 anos para cá, deixou de ser um império da palavra escrita para ser uma civilização informatizada, “internética”, dominada pela imagem. Então, o poeta, que antes ocupava um lugar central na cultura, hoje é uma figura clandestina. Em seu lugar entraram os grande cantores, os pilotos de fórmula 1, as celebridades de TV.

– Então hoje o escritor já não desperta atenções?
– Hoje, no Brasil, os escritores não são mais figuras icônicas. Eu vivi um tempo em que, quando passeava com José Lins do Rêgo (autor de Menino de engenho) pela Av. Rio Branco, defronte às barbearias, os barbeiros se curvavam para nos saudar. Naquele momento, os autores eram figuras conhecidas. Hoje, só se é reconhecido quando se vai à televisão, ao programa do Jô Soares, por exemplo. Uma vez eu estava em Paris, na fila de embarque da Varig, no aeroporto, e o Jô me viu. “Lêdo Ivo, você por aqui?!”, ele gritou e me abraçou contente. Pouco depois, o camarada do guichê se dirigiu a mim e disse: “O senhor está convidado para a sala vip”, e me passou para a classe executiva. Graças ao Jô.

JB Online)


'Hoje, o poeta é um solitário'
Luiz Mourier

 Aos 80 anos, Lêdo só quer reler os clássicos: 'É como uma leitura de adeus, antes da morte'

 

- Então os jovens poetas devem perder o otimismo?

- Olha, tudo eu vejo com olhos otimistas. Poema é aquilo que o poeta diz que é poema. Não se pode apontar o certo e o errado. Eu mesmo prefiro o erro fecundo ao acerto congelado.

- O que tem lido dos poetas da nova geração?

- Quase nada. Mas não por preconceito. As grandes editoras não publicam mais o gênero, é um trabalho que sai caro, é dispendioso. Há outro fator também. Para um poeta da minha idade, o universo de leitura é diferente. Você está interessado em ler clássicos, como se fosse uma leitura de adeus. É como se você relesse aquilo que gostaria de ver antes de morrer e atingir a imaginária outra margem do rio. Então, você fica exigente e só quer saber de Goethe, Racine, Proust.

- E entre os gigantes brasileiros. Há algum a ser relido?

- Olha, para simplificar: há Castro Alves, Gonçalves Dias e Cruz e Souza no século 19. No século 20, Bandeira, Drummond, João Cabral de Melo Neto e Jorge de Lima. Pronto, está paga a fatura. Senão, eu viro catálogo telefônico de poeta.

- O senhor é daqueles que citam as poesias preferidas de cabeça?

- ''Tu sobre o nada sabes mais que os mortos''. É Mallarmé. Há também: ''A primavera voltou. A terra é como uma criança que sabe poemas'', de Rilke. Poesia dos outros eu sei de cabeça. As minhas, não.

- O senhor sempre refutou pertencer à geração modernista de 45. Por quê?

- Porque essa sempre foi uma classificação cronológica, não estética. Tenho sim os mesmos desígnios da geração do pós-guerra. Sempre que converso com contemporâneos estrangeiros percebo que a admiração por Mallarmé, Paul Valéry e Ezra Pound nos são comuns. Também é comum a convicção de que, após a 2ª Guerra, os ismos desapareceram. Antes havia romantismo, parnasianismo, simbolismo. Hoje tudo sumiu e o poeta ficou solitário.

- O senhor se sente só na ABL? Qual é o papel da Academia hoje?

- A ABL hoje está mais forte do que nunca no imaginário popular. Tanto que recebemos muitas cartas de meninos de escola, com sonhos de escritor, dizendo que, quando crescerem, vão querer entrar na vaga da gente. O caso é que, há 40 anos, os acadêmicos eram levados na troça. Mas hoje a Academia se sintonizou inteiramente com a atualidade literária, abrindo espaço para nomes como Paulo Coelho, Nélida Piñon, Carlos Heitor Cony, enfim, figuras de muita presença na mídia. Acreditou-se por muito tempo que a ABL era um sindicato de escritores, coisa que ela nunca foi. Lá, confraternizam-se juristas, políticos e médicos, com a função de institucionalizar a cultura. Algo importante para um país que trata seu patrimônio com tanta bagunça.

- A Academia ainda é a casa de Machado de Assis?

- Academia não é só a casa de Machado. É a casa de Rui Barbosa, José Lins do Rêgo, Manuel Bandeira, Paulo Coelho. E um dia, quem sabe, pode virar a casa de Lêdo Ivo.

- O senhor diz que vê tudo com bons olhos. O que acha da política nacional?

- Quando se vive muito, sabe-se que o problema fundamental do Brasil, a miséria, continuou. Em Alagoas, a terra de onde venho, por exemplo, só duas coisas não mudaram desde que saí de lá: a miséria e o vento do mar. Mas como eu não sou profeta, não sei dizer qual é a saída.

JB Online)

 

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