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A indústria se curva à Mundo Livre

05-06-2008

Mundo Livre S/A
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JOSÉ TELES

   A Mundo Livre S/A é o grande azarão da música pop brasileira. Sem se curvar aos ritmos do momento nem abrir mão de princípios, Fred Zeroquatro & Cia chegam às duas décadas de estrada com público certo, influente e com aprovação da crítica. Isto lhes deu direito a Bit (Deck Disc), caixa com os quatro primeiros CDs (Samba Esquema Noise, Güentando a Oia, Carnaval na Obra, e Por Poucos), e mais um DVD com dez clipes, concessão rara da indústria a uma banda que nunca fez o Faustão e radicalizou o discurso político no recente CD O Outro Mundo de Manuela Rosário – que não entrou na retrospectiva por ainda continuar em catálogo.

   Banda punk influenciada por The Clash, a Mundo Livre s/a levou dez anos para gravar o primeiro CD. Com Chico Science & Nação Zumbi, foi ponta-de- lança do manguebeat, que balançou o coreto dos contentes do pop nacional, em 1994, ainda embevecido pelo acomodado Brock. Duas décadas mais tarde, o grupo mantém apenas três integrantes da formação original, Zeroquatro, Tony e Bactéria, mas prossegue cada vez mais forte e prestigiado. A banda viaja esta semana para mais uma turnê pelo Sul, e ainda não tem data para o lançamento da caixa Bit no Recife. Fred Zeroquatro, líder do MSLA, falou com o JC sobre essas duas décadas de estrada.

JORNAL DO COMMERCIO – Como você analisaria estes quatro CDs que estão sendo relançados? É bom lembrar que tem uma geração aí na casa dos 20 que não teve acesso a eles.

FRED ZEROQUATRO – Vou ainda parar para fazer este ritual de escutar cada um dos discos. Porém acho que a banda tem uma linguagem especifica, pelo fato de ter passado dez anos na garagem antes de gravar. Você encontra coisas nos CDs identificáveis com todas as fases da banda. Falam que o último foi muito conceitual, sacrificando a parte musical. Mas eu estava vendo que Muito obrigado, de Manuela Rosário, poderia estar no Carnaval na Obra.

JC – Esta coisa de você elogiar o escritor Noam Chomsky (N- lingüista e ativista político americano) e criticar Caetano Veloso influiu na trajetória da banda?

ZEROQUATRO – Eu jamais imaginei que seria a primeira banda que teria a obra tratada deste jeito. Esta caixa está saindo pelas mãos de João Augusto, que foi diretor da gravadora Abril, onde tivemos uma passagem bem conflituosa. Encerramos o contrato durante a gravação do Por pouco. É uma coisa meio de dialética, nunca tivemos uma postura muito dócil em relação à demanda da indústria. Talvez por esta postura, nem todas as portas se abram facilmente para a gente. Mas continuamos fazendo shows. Durante nossa carreira, algumas coisas foram ficando para trás e a gente permaneceu.

JC – Da formação que ficou conhecida da Mundo Livre, saíram Fábio, Pianinho, Otto. Quais as mudanças na banda com essas saídas?

ZEROQUATRO – A banda tem uma linguagem que não é uma coisa estanque. Hoje em dia, com essa formação (N- Júnior Areia, Chef Tony, Bactéria, Tom Rocha), se a gente fosse gravar de novo músicas do primeiro disco, por exemplo, algumas eu não mudaria nada, noutras mexeria. Mas é óbvio que o fato de ter entrado gente nova, com temperamento diferente, vai contribuindo para uma nova química na banda.

JC – Você disse que mudaria algumas músicas destes discos que estão sendo relançados. Quais as faixas que você considera definitivas, ou seja, que não mexeria de modo algum?

ZEROQUATRO – Livre iniciativa, Sob o calçamento, do primeiro disco. Do segundo, Free world, que é uma canção bem direta, objetiva. Do Carnaval na Obra, incluo Negócio do Brasil para mim é uma das pérolas de toda trajetória da gente, enriquecida pelo arranjo de metais feito por Tiquinho do Trombone, que é da banda de Jorge Ben Jor.

JC – Estes quatro CDs saem com o mesmo repertório original. Vocês têm músicas que queria ter gravado, e acabaram ficando fora desses discos?

ZEROQUATRO – Tem várias. Lua dos condenados, Código zero quatro, Balas do Jordão (N- versão de Guns of Brixton, do The Clash), que não conseguimos que fosse liberada pela editora do The Clash. Antes de terminar a gravação, Miranda, o produtor, achou melhor consultar a editora. A gente já havia gravado bases, com Nasi do Ira! Acho que não liberaram porque a gente era uma banda estreante. Outro dia, liguei para Charles Gavin para ver se ele recupera a fita master que tem essa gravação.

JC – Dez anos depois do manguebeat, há uma renovação na música do Recife. Como você vê essas novas bandas?

ZEROQUATRO – Estava vendo na MTV um cara chamado Rômulo Fróes. É incrível como ele tá fazendo um troço muito parecido com o que a gente começou a fazer dois anos atrás, quando começou a gravar Manuela Rosário. Acho que é saudável isso. O comentário que faço quando me perguntam sobre a Mombojó. Não dá para comprar a Mombojó com o punk debilóide que é massificado para essa faixa etária. Não tem como comparar. Só a força da grana das gravadoras explica o predomínio desse punk adolescente idiota.

JC – Você um dos poucos músicos do País que incorpora a atividade política tanto no trabalho quanto no seu discurso, algo que praticamente desapareceu da classe artística.

Zeroquatro – Está mais do que na hora de recuperar aquele espírito dos Panteras Negras, que colocavam que se você não faz parte da solução, faz parte do problema. Depois da guerra fria, o mundo todo está em perigo. O lucro está acima de tudo, destroem cada vez mais os recursos naturais. Jornais europeus vivem noticiando que há uma guerra não declarada no Brasil. As pessoas preocupam-se com questões corporativistas, enquanto existe uma deterioração geral na qualidade de vida. Lula fala de fome na UNE acaba sendo acusado de populista. Ora, Josué de Castro está hoje mais atual do que nunca.

JC – Você acha que a música pode mudar o mundo?

ZEROQUATRO – Acho. Trazendo para um lado mais próximo, Chico Science, com toda a postura dele, a preocupação que expressava nas letras de mostrar o outro lado, as contradições da vida urbana do Recife, para o que se costumava consumir em termos de música jovem no Recife, acho que ele ajudou a mudar a cidade, o caráter cultural da cidade, das pessoas da periferia.

JC – Você pensa em um dia candidatar-se para algum cargo eletivo?

ZEROQUATRO – Uma atividade que me apaixona tanto quanto à música é a política, mesmo sem ser filiado a nenhuma partido. A música me traz um resultado legal para meus objetivos. Enquanto for frutífero, continuo me dedicando prioritariamente à música, se acontecer alguma mudança no meio musical, posso me dedicar à política partidária.

JC Online)


Djavan, cheio de vaidade e ginga

Acompanhado dos filhos João e Max Viana, o cantor e compositor alagoano apresenta canções do novo disco, que inclui sambas, em shows na Chevrolet Hall

ADELAIDE IVÁNOVA

   Lançado em junho deste ano, Vaidade é o décimo sexto disco da carreira de Djavan. Em turnê pelo Brasil, o cantor e compositor alagoano aporta hoje no Recife e apresenta pela primeira vez o repertório deste novo trabalho, na Chevrolet Hall.

   Ao contrário do CD anterior, Milagreiro, que foi gravado em pouco mais de dois meses, Vaidade teve um período de gestação mais longo – quando o cantor entrou no estúdio, só havia uma música pronta (Celeuma, composta para Mart’Nália, filha do sambista Martinho da Vila). Com produção e arranjos do próprio Djavan, mais a regência de Luís Avelar (que já trabalhou com Ney Matogrosso e Jorge Vercilo), o disco foi finalizado sete meses depois do início das gravações.

   Vaidade traz canções que promovem uma reaproximação do cantor com o samba. Não que ele tenha rompido com o ritmo, em algum momento da carreira: “Deixei o samba um pouco de lado nas composições. Mas Mundo vasto e Celeuma são exemplos desta retomada. O meu trabalho decorre de uma formação eclética, que nunca obedeceu a tendências ou modismos”. Por formação eclética, entenda-se xote, baião, bossa nova e toda musicalidade brasileira que permeia o trabalho do cantor.

   SEM AMARRAS – Desde Bicho Solto, lançado em 1998, a performance do músico alagoano no palco passou por uma transmutação e ele soltou-se um pouco mais do violão. A partir daí, segue a mesma tendência e é o que se pode prever dos shows de hoje e amanhã. No repertório, além das canções do recém-lançado trabalho, ele toca hits antigos e composições de outros artistas. José Miguel Wisnik (compositor paulistano que já teve suas músicas gravadas por Gal Costa e Zizi Possi, entre outros) é um deles. De Roberto Carlos, Djavan vai apresentar Emoções – que coincide com o revival de Roberto Carlos no Recife.

   O lançamento de Vaidade marca a criação da Luanda Records, gravadora do cantor. Diferente da tendência atual, que é ver artistas criando selos independentes para poder ter a posse de seus próprios fonogramas (vide exemplos de Fernanda Abreu e Arnaldo Antunes), Djavan decidiu criar uma gravadora completa, que cuide de todas as etapas da produção, inclusive a que diz respeito ao livre direito de utilização das músicas. “É um desafio grande. Cuidaremos da produção, distribuição, divulgação e de tudo que envolva o processo, menos a prensagem das cópias”, explica o cantor, que revelou o desejo de lançar discos outros artistas.

   Na turnê de Vaidade, Djavan cuida direção musical, enquanto o responsável pela direção artística é de Oscar Rodrigues Alves, que tem no currículo trabalhos com Pedro e Cesar Camargo Mariano, Titãs e Gabriel, O Pensador. Depois de Recife, a turnê segue para João Pessoa. Ano que vem, é a vez da Europa, Estados Unidos e Japão.

Show com Djavan – Hoje e amanhã, às 21h, na Chevrolet Hall (Complexo de Salgadinho. Fone: 3427.7500). Ingressos: entre R$40 (cadeira/inteira) e R$ 600 (camarote para dez pessoas/1o. piso)

JC Online)

 

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