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05-06-2008
O livro Na Estrada, que será lançado hoje na Livraria Cultura, reúne 45
historietas, compiladas de três obras anteriores de Maximiano Campos, e
cinco contos inéditos Maximiano Campos, pernambucano de nascimento e advogado por formação, enveredou por várias vertentes da literatura. Escreveu livros de poemas (Lavrador do Tempo), romances (Os Cassacos e Sem Lei Nem Rei) e novelas (Major Façanha e A Memória Revoltada). Foi como contista, no entanto, que atingiu sua maturidade artística. Sob à luz das histórias curtas, lançou três livros: As Emboscadas da Sorte, As Sentenças de Tempo e As Feras Mortas. Maximiano Campos faleceu em 1998 e deixou uma valiosa herança cultural – sua biblioteca pessoal, a obra publicada e mais de 60 contos inéditos. Na Estrada é o livro do autor que será lançado hoje, às 19h30, na Livraria Cultura, no Paço Alfândega. São 45 historietas, frutos de uma compilação das três obras anteriores, mais a publicação de cinco contos inéditos. “Usamos como critério de seleção a densidade e a força de cada escrito. Foi aí que se chegou ao consenso de pinçar cinco, dos 60 contos que são desconhecidos do grande público”, explica o advogado Antônio Campos, filho do escritor e presidente do instituto que leva o nome do seu pai. O ano de 2004 foi marcado por vários lançamentos de livros do estilo que consagrou, por exemplo, Rubem Fonseca e João Ubaldo Ribeiro. Esta foi uma das razões para a publicação de Na Estrada: “O conto está em voga. Queríamos pôr em circulação nacional a obra de Maximiano”, explica Antônio. Depois do Recife, será feito o lançamento em Brasília, Rio e São Paulo – e a partir da próxima semana estará nas livrarias de todo o Brasil, ao preço de R$ 39. Ilustra a capa a obra O Filho de São Martinho, do artista plástico paraibano, radicado em Pernambuco, João Câmara. Na cerimônia de lançamento de hoje, o escritor pernambucano Raimundo Carrero (um dos mais premiados de Pernambuco e que escreveu o prefácio de Na Estrada) faz uma palestra sobre a obra de Maximiano Campos, tendo como debatedor o autor carioca Carlos Heitor Cony, da ABL. (© JC Online) Coletânea recebe aval de Raimundo Carrero A relação do romancista Raimundo Carrero com Maximiano Campos é antiga – eles se conheceram na casa de Ariano Suassuna, que escreveu o prefácio do primeiro livro de Carrero, A História de Bernarda Soledade – A Tigre do Sertão, de 1975. Quando Maximiano Campos assumiu a pasta da Secretaria de Cultura do Estado, em 1986, no segundo governo de Miguel Arraes, convidou Carrero para ser o seu assessor.Não é à toa, portanto, que Antônio Campos tenha convidado Raimundo Carrero para escrever o prefácio de Na Estrada, que sai pela mesma editora que o publica – a Iluminuras. “Embora tenha estreado sua carreira com um romance, Maximiamo era muito denso e forte no conto. Tenho certeza que há contos dele que poderiam perfeitamente estar entre os melhores já escritos no Brasil. Ele é o grande contista da geração, autor fundamental para a literatura pernambucana”, opina Raimundo Carrero. Segundo ele, Maximiano ainda tem um romance inédito, que retoma a questão do golpe militar de 64 , cujo prefácio também foi escrito por ele. Para a leitura de Na Estrada, Carrero chama a atenção para a personagem Filipe: “Ele é como um alter ego de Maximiano, circula com facilidade ora no rural, como no conto O Grande Pássaro, ora no urbano, em A Despedida”. Por fim, Carrero pontua uma das maiores características de Maximiano Campos, parafraseando Sancho Pança, personagem do clássico Dom Quixote, de Miguel de Cervantes: “Ele conta como contam na sua terra. Doutro modo não sabe contar. Mas Maximiano não era somente folclórico e documental. Era um rebelado”. (© JC Online) Instituto tem como prioridade formação de jovens leitores O Instituto Maximiano Campos foi criado há três anos para evitar que a obra do escritor caia no esquecimento. O antídoto que o IMC encontrou contra a amnésia cultural foram projetos para formação de jovens leitores – só em 2004 foram doados mais de mil livros para escolas públicas do Estado.Hoje, na ocasião do lançamento do livro Na Estrada, os organizadores divulgarão o concurso literário A Importância da Leitura na Formação do Cidadão, voltado para alunos ensino médio de escolas públicas e particulares. Além de projetos sociais, em dezembro o IMC vai lançar um CD de Edson Nery recitando poesias de Manuel Bandeira, tendo como mote o aniversário de 80 anos do poema Evocação do Recife. Em janeiro, o IMC vai comemorar os 400 anos de Dom Quixote, livro de Miguel de Cervantes – um dos autores que serviam de inspiração para Maximiano Campos. (© JC Online) Leia íntegra do conto Um Trecho de Conversa Precisava tentar explicar a ela algumas coisas. Havia sempre a possibilidade de, num momento, apenas num instante, algum lampejo de compreensão mútua não permitir o fim da amizade. E o que era igualmente, ou ainda mais importante: evitar que findasse o que restava entre eles de ternura.- Maria, eu já passei fome. - Eu sei. Todos nós já sentimos fome. Parece, até, que você pensa que algumas coisas de muito óbvias só aconteceram com você. - A fome que passei foi por pobreza, não foi fome de gordo rico querendo emagrecer. Foi a fome que também humilha. - Por que voce insiste em ser o seu próprio carcereiro na cadeia do passado? - Porque o marasmo de uma existência sem nenhum heroismo faz de uma vida uma história onde todo o tempo é presente. Não há resgate do passado, nem o que esperar do futuro. - No tempo em que vivemos, a esperança já é uma forma superior de heroismo. - De coragem. Uma coragem que talvez tenha perdido há algum tempo. - Falei heroismo, não falei de coragem. O heroismo é a coragem em ação, ou melhor, a coragem ultrapassando a desvantagem. A coragem voluntariosa. O seu mal é a timidez excessiva. O medo de magoar, de ferir, menos do que o medo de ser ferido. Talvez lhe falte um mínimo de egoísmo para ocupar o seu tempo e o seu lugar no mundo. Você vive pregando um ideal político, falando em justiça, liberdade, harmonia, mas essas coisas, meu caro, sempre foram conquistadas com dor e sangue. A vida é mais paradoxo do que a harmonia. Percebeu que era muito difícil
explicar a ela. Era difícil explicar que sentia menos medo do que
interesse pela vitória em muitos campos de batalha. No entanto, sentia que
ela tinha alguma razão. Muito que buscara na sua arte eram camuflagens de
vida, uma busca apenas da harmonia que o paradoxo e os desbaratos da alma
e do sangue não davam sossego nem trégua. No entanto, sentia, também, que
tudo tinha um preço, e que nenhuma vitória valia a pena sobre ruínas. (© JC Online)
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