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O tesouro dos beneditinos

14-10-2004

São Bento e o Mosteiro de Olinda
 

A mostra reúne cerca de 150 peças guardadas na clausura do Mosteiro de São Bento. Elas revelam um valor que, além de sacro, é histórico

CAROL ALMEIDA

   A antropóloga paulista Maria Lúcia Montes, uma das organizadoras da exposição O Tesouro dos Abades, tem fé: ela acredita que quem for ao Instituto Cultural Bandepe procurando devoção veja arte, “e quem for procurando arte, perceba o quão artística é a devoção”, diz ela. A mostra, que reúne cerca de 150 peças guardadas na clausura do Mosteiro de São Bento, poderá ser vista a partir de sexta-feira pelo público. Na abertura do evento para convidados, amanhã, haverá participação da tradicional trilha sonora composta pelo coral do Mosteiro de São Bento.

   Objetos, pinturas, esculturas e jóias das mais elaboradas confecções e das mais católicas histórias saem do armário da Igreja para mostrar um valor que, além de sacro, é histórico. A exposição é uma idéia do jornalista e chanceler do mosteiro, Múcio Aguiar Neto, que levou o projeto ao coordenador do Instituto Cultural Bandepe, Carlos Trevi. Teve uma recepção mais que feliz: “Comprei a idéia imediatamente”, lembra Trevi, que mantém a tradição da casa de trazer exposições com um certo charme de museu e uma certa curadoria contemporânea.

   O contato com os monges, bem como com o abade Dom Bernardo Alves da Silva, aconteceu desde o princípio, a partir da pré-montagem da mostra, trabalho este que durou cerca de cinco meses. Durante esse tempo, o historiador Reinaldo Carneiro Leão teve que catalogar todas as peças, boa parte delas nunca antes pesquisadas em sua origem. No Instituto Cultural Bandepe, o acervo do mosteiro estará dividido em três suportes: prataria, núcleo imaginário e pintura. Entre eles, objetos pessoais dos antigos abades, como anéis de ouro com pedras preciosas, tais como ametista, jade, opala, topázio e calcedônia.

   Entre os corredores da mostra, várias esculturas sacras em madeira, objetos de uso privado dos monges, alguns deles (como castiçais e uma caldeirinha) datados do século 16. As cruzes peitorais que pertenceram aos abades ganham um destaque justo na exposição, dado o preciosismo de seus relevos e dos metais e pedras usados neles. Em ouro fundido, elas são adornadas com safiras, rubis, ametistas e esmeraldas.

   Apesar do valor da ourivesaria da mostra, a peça de maior preciosidade em exposição foi feita com uma matéria prima bem mais humilde: a terracota, com a qual foi esculpido o Menino Jesus de Olinda, assinado por Frei Agostinho da Piedade, em 1643. A escultura não é ainda o trabalho mais antigo da exposição. Se fosse por ordem cronológica, a mostra teria que começar com uma pintura sobre madeira da escola italiana representando São Sebastião, datada do século 14. Em tempo: as mais de 100 peças que estarão à mostra serão sempre observadas tendo ao fundo o som gravado dos mesmos monges que irão abrir o evento amanhã.

   “Nosso objetivo é chamar atenção para a riqueza de um patrimônio que não tem apoio para ser conservado. O acervo tem peças barrocas maravilhosas e valiosas, que precisam de um trabalho de restauração que o próprio mosteiro não tem condições de financiar”, afirma Maria Lúcia. Portanto, além de exibir esses objetos para um público que não teria outra oportunidade de vê-los, a mostra tem também uma conotação política: “É preciso chamar atenção das autoridades, sobretudo do Iphan e o Ministério da Cultura, para que se cuide de um acervo do porte do mosteiro”, alerta a antropóloga, que acredita haver uma maneira de conciliar a privacidade dos objetos no cotidiano de devoção dos monges com a publicidade das mesmas peças.

Serviço

O Tesouro dos Abades, a Arte Devota do Mosteiro de São Bento de Olinda – Instituto Cultural Bandepe, Av. Rio Branco, Bairro do Recife. De 15 a 25 de novembro para o público.

JC Online)


Preciosidade impressa pode ser adquirida

   Em sua atual configuração e coordenação, o Instituto Cultural Bandepe soma cinco anos. É pouco tempo levando-se em conta espaços de tradicionais currículos na cidade. Mas é bem certo que, depois de sua inauguração como instituto, a casa da esquina da Av. Rio Branco, com vista para o Marco Zero do Recife, mudou radicalmente a perspectiva que o Estado tinha da montagem e, particularmente, da elaboração de um catálogo de arte. O álbum confeccionado para a mostra O Tesouro dos Abades não foge ao padrão de qualidade literalmente impresso pelo instituto.

   O catálogo em questão pode ser considerado como mais um elemento da exposição, não apenas pelo conteúdo que apresenta, mas principalmente por seu design e qualidade gráfica. Amplamente ilustrado, o livro traz alguns dos objetos de maior destaque da mostra, e mostra também peças e altares que, devido ao tamanho e à preciosidade, não puderam ser deslocados do mosteiro.

   Os textos principais são divididos entre o abade Dom Bernardo Alves da Silva, o jornalista e chanceler do mosteiro Múcio Aguiar Neto e o historiador Reinaldo Carneiro Leão. Tratam respectivamente da cronologia beneditina, da chegada da ordem a Olinda e, por fim, do valor que as peças em exposição têm, tanto para a religião, como para a arte e a história.

   A partir de sexta-feira, quando a mostra estará aberta ao público em geral, o catálogo será vendido por R$ 25, tendo toda sua renda destinada às ações beneficientes do Mosteiro de São Bento.

JC Online)

 

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