05-06-2008
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Antonio Maria |
João Máximo
Só pelo capricho que faz do Rio uma cidade onde os cariocas mais cariocas
não nasceram no Rio, pode-se explicar que um dos mais ricos personagens das
noites boêmias da cidade tenha nascido em Recife, caçula do casamento de
senhor de engenho com filha de usineiro, cujo primeiro trabalho foi usar nos
canaviais pernambucanos o que aprendera nos cursos de adubagem e irrigação.
Pois assim foi. Antônio Maria de Araújo Moraes, o Música para Vinicius, o
Menino Grande para outros, o Maria para todo mundo, pensou um dia em ser
agrônomo, mas acabou, mais que personagem, testemunha daquelas noites de
amor e desamor da Copacabana de meio século atrás.
Nasceu em 17 de março de 1921 e morreu exatamente há 40 anos: 15 de outubro
de 1964 (um segundo ataque cardíaco surpreendeu-o de madrugada, quando
descontava um cheque no restaurante Rond Point, na Rua Fernando Mendes). Uma
das homenagens será a reestréia, hoje, às 21h (apenas para convidados, mas
seguindo em temporada a partir de amanhã), no Teatro de Arena, do musical de
bolso “A noite é uma criança”.
Personagem e testemunha. Tudo ou quase tudo que Maria testemunhou foi por
ele transformado em crônica. E muito do que viveu, fossas monumentais como
eram as daqueles tempos, virou samba-canção. Mas quem o conheceu de perto
garante que tanto o cronista (de frases como “Já fiz todos esses caminhos e,
neles, fatiguei-me do próximo e de mim mesmo”) como o compositor (de versos
como “Se eu morresse amanhã de manhã, minha falta ninguém sentiria”),
estavam longe de ser um triste, um melancólico em tempo integral. Pelo
contrário, era alegre, engraçado, maledicente e dono de uma das mais sonoras
gargalhadas da praça.
— É assim que me lembro dele — diz o filho, também Antônio Maria, hoje com
58 anos. — Acho que foi essa a imagem que legou aos amigos que não o
conheciam apenas pelos textos e pelas canções de fossa.
Maria Filho lembra que o pai gostava muito de dirigir. Costumava levá-lo
para passeios pela Avenida Atlântida, com a capota do Cadilac rabo-de-peixe
arriada. Uma tarde, o menino com pouco mais de 10 anos, um carro ao lado do
seu buzinou insistentemente. Quando os dois olharam, deram de cara com o
presidente JK saudando com um aceno e um sorriso os dois Marias.
Todos o conheciam. Era um mestre na arte de fazer amigos, ainda que com um
deles, dos mais chegados, vivesse às turras. Era Fernando Lobo. Como contou
Rubem Braga: “Nunca passaram seis meses sem brigar de mentira para depois
fingirem que estão de bem”.
Com certos amigos, Maria tinha um trato: toda canção que compusessem seria
assinada pelos dois, ainda que só um tivesse escrito letra e música. Caso,
por exemplo, de “Quando tu passas por mim”, só de Vinicius, mas creditada
aos dois. Trato igual foi a causa de uma das brigas com Lobo. Nora Ney
gravou, “dos dois”, “Preconceito” de um lado do disco e “Ninguém me ama” do
outro. O primeiro era só de Lobo e não fez sucesso. O segundo, só de Maria,
foi ao primeiro lugar das paradas. Era impossível ligar o rádio sem ouvir a
voz morna de Nora cantando: “Vim pela noite tão longa de fracasso em
fracasso/ E hoje, descrente de tudo, me resta o cansaço”. Maria não se
conformou em ver o falso parceiro colher metade dos louros. Brigaram de
novo.
O ex-futuro agrônomo custou um pouco a tornar-se carioca. Primeiro trocou os
canaviais pelo emprego de locutor da Rádio Clube de Pernambuco. Foi quando
conheceu Fernando Lobo, que o convenceu de que, para trabalhar tanto em
troca daquele salário, era melhor não fazer nada. Teria ficado na boa vida
por mais tempo, se não recebesse de La Roque de Almeida convite para
transmitir jogos de futebol pela Rádio Ipanema, no Rio, então como Araújo
Moraes (torcia pelo Sport em Recife pelo mesmo motivo que torceria pelo
Vasco no Rio: era amigo e fã de seu conterrâneo Ademir Marques de Menezes).
Essa foi a primeira viagem ao Rio. Em fins de 1940, voltou a Recife, para
dois anos escrevendo programas de rádio, andou pela Ceará Rádio Clube e
depois pela Sociedade da Bahia. Voltou à Recife, casou-se com Mariínha, com
quem teve os filhos Maria Rita e Antônio Maria. Em 1947, ele candidatou-se a
vereador de Recife, mas um certo Jacaré fez campanha difamatória: Maria
perdeu nas urnas e quase foi linchado pelos eleitores do adversário.
Resultado: veio de vez em 1948 para ser locutor e depois diretor das rádios
Tamoio e Tupi.
(© O Globo)
Nas canções, fossa e tristeza; nas mesas de bar,
alegria
Também esteve na Nacional, mas seu período radiofônico mais produtivo foi
o dos programas humorísticos. E já fazia seus sambas-canções. De novo
Rubem Braga: “Ninguém entende muito bem como consegue ser visto pelos
bares e madrugadas, como pôde ser diretor artístico do Vogue, escrever o
atual (1953) show do Casablanca e fazer letra e música de tanto
samba-canção para ajudar nosso povo a ficar mais triste com mais
suavidade.”
Maria ficou como o criador do modelo da fossa musical dos anos 50, embora
muitos outros — inclusive Antonio Carlos Jobim — também fizessem
sambas-canções tristes, pessimistas mesmo. Mas acabou sendo Maria o alvo
do grupo de jovens bossa-novistas que propunham uma poesia mais solar, mas
light , para canções pós-João Gilberto.
O Maria destas canções viveu, de fato, inúmeras paixões. Foram várias
separações de Mariínha, a última, definitiva, em razão do romance com
Danusa Leão. Que acabou de vez quando ela decidiu acompanhar o marido,
Samuel Wainer, que se exilava na Europa depois do golpe de 1964. Crônicas
e canções que, na verdade, retratavam uma época, um Rio triste que só se
via em boates escuras, enfumaçadas, claustrofóbicas. Maria, personagem e
testemunha, parecia pedir em suas canções e crônicas as mesmas desculpas
com que encerra uma destas: “Perdoai, senhores, tantas lamúrias. Mas cada
um dá o que tem”.
Maria, o alegre, era o do volante, o das mesas de bar, o dos restaurantes
onde nutria fartamente seus 120 quilos, o das rodas entre amigos e mesmo o
de alguns casos amorosos. Como o que viveu em São Paulo fazendo-se passar
por Carlos Heitor Cony, cujos romances faziam sucesso. De volta ao Rio,
Maria contou ao outro como usara seu nome para conquistar uma bela mulher.
— E aí? — perguntou Cony.
— E aí, Cony, você broxou.
Para Paulo Francis, Maria era melhor ao vivo
Peças pregadas em vários amigos (Fernando Lobo principalmente), e críticas
ferozes a gente da política, ele batizou Flávio Cavalcanti de “Boca
Júnior”, chamou as eleitoras de Carlos Lacerda de “malamadas”, disse que
Jânio Quadros ficara vesgo por ter um olho em Moscou e outro em Wall
Street. Paulo Francis assegurou que Maria, ao vivo, era melhor: “Seu
estilo, em última análise, consistia em revelar o absurdo, a ironia de
situações e pessoas que apanhava, formalmente, ao natural”.
Seu amigo mais íntimo, ao menos nos últimos anos, foi Ivan Lessa. Que nos
fala do quarto-e-sala alugado em que Maria vivia em 1964. Hoje, à
distância, é no mínimo estranho que um compositor gravado por Frank
Sinatra, Nat King Cole, Tony Bennett, Jack Jones, Lucho Gatica, Julio
Iglesias e outros grandes vendedores de disco do mundo inteiro morresse
sem ter casa própria. E descontando cheque em restaurante. Mas o próprio
Maria explicou: sua profissão era a esperança.
(© O Globo)
Um craque esquecido pela indústria cultural
Joaquim Ferreira dos Santos
Antônio Maria merecia mais. Foi dos grandes e, no entanto, parece que a
indústria cultural acreditou mesmo no ninguém me ama, ninguém me quer.
Ninguém lhe chama para publicar histórias nem gravar novamente suas canções.
Escreveu com a clareza elegante que caracterizou os bambas da crônica
carioca, tinha a leveza de texto que fez do gênero uma das coisas nossas.
Olhou as miudezas das noites de Copacabana e tirou delas grandes lições
existenciais. Aproximou-se dos pequenos personagens dos bares e a partir
deles perfilou o que o ser humano tinha de mais sublime e patético. Ficou
ali, pau a pau com os reis da coisa, os Bragas e Sabinos da parada. Um
craque. E no entanto, 40 anos depois de ter se mandado, já com o cheque
descontado no caixa do Rond Point, 40 anos depois de estar bem claro, embora
ele preferisse o chope escuro, que a sua produção feita para o efêmero dos
jornais tinha qualidade para sobreviver aos tempos — ainda assim, depois de
toda essa honra ao mérito dos críticos, sua produção continua quase
escondida.
Há apenas dois livros seus no mercado, todos lançados em 2003. O “Diário de
Antônio Maria” traz as anotações em que catalogou, com o pungente sofrimento
de sempre, os fatos e personagens, principalmente os do sexo feminino, que
lhe passaram pela vida nos primeiros meses de 1957. “Benditas sejam as
moças” é uma coleção de crônicas sobre a relação homem-mulher publicadas na
“Última Hora” entre 1960 e 61. É muito pouco para quem perpetrou cerca de
três mil textos nos jornais do Rio. A editora Record pretendia publicar
outros volumes de crônicas, todas inéditas, em livro, mas não foi adiante
com o projeto. O próximo exemplar reuniria suas peças de humor. Um autor
mais conhecido pela fossa, os amores fracassados e o olhar cinza sobre a
passagem do ser humano no planeta, AM produziu grandes humorísticos de TV e
rádio (como o inesquecível “Miss Campeonato”, com Rose Rondelli), além de
assinar nos jornais histórias da mais fina picardia. Pena. Mas ainda não
será desta vez que o leitor rirá com o engraçadíssimo “Menino Grande”.
Em música, então, nem se fala. Ninguém ama, ninguém quer, ninguém bota Maria
dentro de um estúdio faz tempo. Ele é autor, em parceria com Luiz Bonfá, de
“Manhã de carnaval”, a música brasileira mais gravada no exterior depois de
“Garota de Ipanema”. Neste exato momento, pode apostar, algum músico de
metrô, de Tóquio a Nova York, está recolhendo moedas depois de executá-la.
No Brasil, sobre seu repertório curto, apenas 60 canções, assombra o eco do
silêncio. São pepitas como “Suas mãos”, “O amor e a rosa”, “Se eu morresse
amanhã”, “Menino grande”, “Canção da volta”, todas dormitando faz tempo no
colo da mina. Com a honrosa exceção de Caetano Veloso, que gravou “Manhã de
carnaval” em “Noites do norte”, e Marisa Gata Mansa, que em 2000 fez um CD
inteiro com canções de Maria, ninguém toca de novo aquelas canções. Ele fez
frevo, jingle, samba-canção, bossa nova. “Valsa de uma cidade” foi escolhida
pelo povão, numa recente pesquisa da Globo, como a mais bonita canção
inspirada no Rio. Num país de sensibilidade musical cada vez mais surda, o
grande Maria virou maldito. E olhe que “Ninguém me ama” cairia irado numa
banda punk.
(© O Globo)
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