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Uma estação cultural na linha do trem

05-06-2008

Antiga Estação Central do Recife
 

Centro Cultural Banco do Brasil – Recife mostra seu projeto arquitetônico e prevê estar funcionando em 2005

CAROL ALMEIDA

   Uma estação de trem é, por excelência, um local de passagem, espaço público onde a chegada e a partida se cruzam, sem muitas vezes se cumprimentarem. Na antiga Estação Central do Recife, e atual estação do metrô que liga o centro da cidade à periferia, circulam diariamente cerca de 30 mil pessoas. Todas elas passam pelo corredor do prédio sem qualquer intimidade com o edifício por onde andam. Mas se tudo der certo, no fim do próximo ano, os milhares de passageiros que chegarem à cidade ou estiverem saindo dela irão reduzir o passo antes ou depois de embarcarem. No edifício da nostálgica Estação Central do Recife, estará firmado o único centro cultural do Banco do Brasil do Nordeste.

   Cercando o espaço da estação, as pessoas verão, gratuitamente, exposições, espetáculos de músicas apresentados em praça aberta e terão a seu dispor um verdadeiro ‘museu de novidades’. Tudo isso será batizado de Centro Cultural Banco do Brasil-Recife, núcleo que acaba de concluir seu projeto arquitetônico. A licitação para o começo das obras deve sair assim que impasses administrativos, tais como a greve dos bancários, forem resolvidos. Para construção do prédio e reforma do edifício central, que será todo restaurado, estão orçados R$ 13 milhões e o local terá seis mil metros quadrados de área erguida e remodelada.

   A maquete pronta do espaço é divulgada em tempo oportuno. Quando começou a circular pela cidade o boato que o projeto do CCBB-Recife não havia vingado – sua construção estava agendada para este ano –, a diretoria do centro resolve não apenas mostrar a planta do edifício, como instala na capital pernambucana um tipo de ‘centro virtual’. Apesar de ainda não ter um território próprio, o centro já tem autonomia para receber na cidade qualquer exposição de grande porte que esteja dentro do circuito dos três demais CCBBs, instalados no Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília.

   Daí se explica a presença da mostra Onde Está Você, Geração 80? no Museu do Estado, primeira exposição promovida pelo ainda virtual CCBB-Recife. Kleuber Pereira, gerente do centro cultural em Pernambuco, afirma que já existem outros projetos que virão ao Recife, antes mesmo do edifício começar a ser construído no atual espaço do Museu do Trem.

   Aliás, a respeito das instalações do prédio do CCBB-Recife, as notícias são ainda melhores. Projetadas pelos arquitetos Jayme Wesley, Raul Hofliger e Lúcia Coucerlo, as salas do novo CCBB brasileiro são, segundo eles, as mais modernas já feitas no País. “Nossa maior preocupação sempre foi incorporar uma arquitetura moderna a um prédio antigo (datado de 1888), criando uma harmonia entre as construções”, explica Hofliger. A equipe lembra também que um dos papéis fundamentais para a realização do projeto foi a participação do time da Fundarpe, que ajudou na pesquisa histórica sobre o edifício central. “O novo e o tradicional estarão certamente bem representados na construção”, conclue Wesley.

JC Online)


CCBB prentende revitalizar São José

   O Centro Cultural Banco do Brasil faz parte do chamado “corredor multicultural” que a Secretaria de Cultura da Prefeitura do Recife mapeou no começo da gestão do prefeito João Paulo. Fazer parte, no entanto, chega a ser eufemismo no caso do CCBB. Pois localiza-se, na verdade, em um dos extremos do corredor, que passa pelo Bairro do Recife e chega até Olinda.

   É ele, porém, que pode dar propulsão à tão sonhada nova geografia cultural pernambucana. Primeiro grande empreendimento no hoje decadente bairro de São José, o CCBB-Recife surge como a salvação da lavoura da região. “Fizemos uma monografia com um estudo que prova que, após a construção do centro, todo o bairro será revitalizado”, afirma o arquiteto Jayme Wesley.

   O estudo de Jayme e sua equipe está em sintonia com outras experiências que demonstraram como um grande centro cultural pode remodular uma região e até mesmo uma cidade inteira (Bilbao, na Espanha, é testemunha disso). “Mudamos o perfil de parte do centro do Rio de Janeiro com o CCBB da cidade, não temos dúvida que o mesmo acontecerá aqui”, afirma Kleuber Pereira. O gerente implementador do CCBB-Recife já esteve em contato com ambas as secretarias de cultura, da Prefeitura e do Estado e se mostra bastante otimista quanto à requalificação cultural e urbana do bairro de São José.

   Até lá, no entanto, Kleuber tem muito trabalho. Há três meses morando na cidade, já acompanhado por uma equipe que veio do Rio de Janeiro, ele anuncia que, para o próximo mês de novembro, foi encomendada uma nova pesquisa sobre a receptividade do público com o centro e os moldes de funcionamento que as pessoas gostariam que o CCBB tivesse. “Serão entrevistados formadores de opinião, a população em geral e membros do governo. Queremos censoriar o mercado cultural da cidade”, anuncia o gerente.

   Apesar da pesquisa, Kleuber afirma que há quatro anos o Centro Cultural Banco do Brasil observa a movimentação cultural na capital pernambucana: “Muitas outras pesquisas já foram feitas e Recife tem, de fato, capacidade de sobra de sustentar um empreendimento do porte”, diz.

JC Online)


Geração CCBB

Centro cultural ajudou a formar atores, diretores, artistas plásticos, músicos e cientistas sociais

Alexandre Werneck e Helena Aragão
 

Divulgação

 A rotunda, que se tornou o ícone mais forte do CCBB, até hoje faz com que crianças se deitem no chão para observá-la

   Graziella Ximenes se lembra bem da primeira vez em que foi ao Centro Cultural Banco do Brasil. Tinha 5 anos e o lugar estava sendo inaugurado. Era uma excursão de colégio. Ao chegar ao salão central circular, fez o mesmo que muitas outras crianças nesses 15 anos de CCBB, completados na última terça-feira: deitou-se no chão para ver a rotunda que virou símbolo do lugar.

   – Dali para frente, não consegui mais parar de ir. Virou um vício – diz a estudante de 19 anos, que garante ter decidido cursar a faculdade de ciências sociais por influência do que viu em filmes e exposições do CCBB.

   Paixão parecida sente Ivan Sugahara. Um dos diretores teatrais mais celebrados da nova geração, ele deve, em parte, seu amor pela dramaturgia à possibilidade de ver peças como Só eles o sabem e O rei da vela, da Cia dos Atores, no Teatro 1 do centro cultural.

   – O CCBB se tornou um parceiro fundamental para o grupo – diz o diretor de 29 anos, que em julho realizou o sonho de passar de fã a líder, ao dirigir o grupo com Enrique Diaz na peça Notícias cariocas, também no Teatro 1.

   Ivan não sabe, mas poderia muito bem fazer parte de um grupo criado por Graziella no site de comunidades virtuais Orkut. Batizado apenas com a sigla CCBB, a comunidade já reúne mais de 320 fãs da casa. Ivan também poderia ser citado numa leva de artistas e jovens amantes da arte que tiveram seus destinos influenciados, direta ou indiretamente, pela década e meia de programação no suntuoso prédio da Rua 1º de Março. Com idade entre 20 e 35 anos, esses jovens são exemplos da Geração CCBB.

   É o caso de Ava Rocha, 24 anos, filha do cineasta Glauber Rocha, que freqüenta o espaço desde a inauguração. Foi no catálogo de uma mostra de Pier Paolo Pasolini, em 1993, que ela encontrou o poema Hierarquia. Escritos pelo cineasta italiano durante sua passagem pelo Brasil, os versos inspiraram Dramática, primeiro curta-metragem da moça, que está em processo de finalização.

   – O ambiente criado ali é muito bom. Lá, encontrei com muitos estudantes de cinema, troquei muitas fitas e muitas idéias – lembra.

   Também foi no escuro da sala de vídeo, durante a Mostra do Filme Etnográfico, que Emílio Domingos, de 32 anos, descobriu o rumo que queria dar aos seus estudos no Instituto de ciências sociais da UFRJ.

   – Foi em 1993, na primeira edição do festival, que descobri que existia a antropologia visual. Não demorou muito para perceber que era isso que queria fazer – conta Emílio, que é pesquisador e produtor de documentários e este ano exibiu seu próprio trabalho, As aventuras de Biliu na cidade perdida, na Mostra do Filme Livre, no CCBB.

   Löis Lancaster, líder do grupo musical alternativo Zumbi do Mato, é outro que tem boas lembranças da sala de vídeo – mais especificamente das grandes poltronas vermelhas localizadas na porta do espaço. Na categoria “atração inesquecível”, coloca O homem dos crocodilos, ópera pop encenada em 2003 por Arrigo Barnabé, seu grande inspirador.

   – Cheguei a ir a São Paulo para ver no CCBB de lá, por achar que não seria encenado aqui. Mas depois tive a chance de ver pela segunda vez, no Rio – conta o músico de 32 anos, que já se apresentou com seu grupo no CCBB, durante o evento Zinemutante, em 1996.

   Outro que passou rápido de freqüentador a freqüentado foi o ator Bruce Gomlevsky. Quando a casa abriu, em 1989, ele estava começando sua carreira de ator, no Colégio Andrews, e logo estaria na Companhia Ópera Seca, de Gerald Thomas. Desde então, olimpicamente, não perde nenhuma peça nos teatros da casa e já se apresentou lá várias vezes.

   – É muito bom saber que os três teatros abrigam, juntos, as mais variadas tendências – observa o ator de 29 anos.

   O cineasta Eduardo Valente, de 28 anos, não se tornou diretor por causa do CCBB. Mas viu no cinema de lá muitos dos filmes que ajudaram na sua formação. Em 1994, um ano antes de entrar no curso de cinema da UFF, começou a freqüentar a Mostra Curta Cinema. De lá para cá, já acompanhou e/ou ajudou a promover vários eventos, como a própria Curta Cinema e o Festival de Cinema Universitário.

   – O centro ocupou um espaço deixado em branco pelo enfraquecimento da Cinemateca do MAM – diz Valente.

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Os favoritos da geração CCBB

Festival Anima Mundi, desde 1992

Mostra Internacional do Filme Etnográfico , desde 1993

Retrospectiva Pier Paolo Pasolini, 1993

Mostra Curta Cinema, desde 1994

A rua da amargura – 14 passos lacrimosos sobre a vida de Jesus, peça com o Grupo Galpão, direção de Gabriel Vilela, 1994

Dança Brasil, desde 1997

O rei da vela, texto de Oswald de Andrade, encenado pela Cia dos Atores, 2000

O homem dos crocodilos, ópera pop de Arrigo Barnabé, 2003

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‘Points’

Foyer

Poltronas vermelhas da sala de vídeo

Escadaria do Teatro I

Muretas do segundo andar

Biblioteca

Salas de exposição

Videoteca

Sala de vídeo

Balcão de distribuição de senhas

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Não faltam críticas construtivas

   Se tivesse que escolher um cenário representativo de sua vida, a arquiteta Luciana Lima, de 31 anos, teria o foyer do CCBB como forte opção. Ainda na adolescência, ela criou o hábito de sair da escola, em Vila Valqueire, na Zona Oeste, direto para o centro cultural, ''nem que fosse apenas para olhar o movimento''. Nos tempos de faculdade, as fugidas para lá viraram a alternativa perfeita à hora do rush que tinha que encarar na volta da Ilha do Fundão, onde estudava.

   - Ia para lá para ficar à toa e acabava vendo coisas bacanas. Uma vez (em 1994), vi, por acaso, o começo do espetáculo A rua da amargura - 14 passos lacrimosos sobre a vida de Jesus, do Grupo Galpão. Não esqueço, foi de arrepiar!

   De tão à vontade que se sentia no local, Luciana não teve dúvida em marcar lá o primeiro encontro com Paulo, que hoje é pai de sua filha.

   Da emoção para a animação, o Anima Mundi é um dos exemplos mais festejados da história do CCBB. O Festival de desenhos e afins, que já tem 12 anos e é anualmente um dos maiores sucessos de público da casa, fez a cabeça de gente como o designer Fernando Timba, de 28 anos.

   - O festival foi essencial para eu seguir esse caminho. Sempre participava das oficinas e dos debates com os animadores estrangeiros - explica Timba, que hoje trabalha com filmes animados para a internet.

   De tão ligado ao evento, Timba usou o tempo de suas duas últimas férias do emprego, num escritório de design, para trabalhar nas oficinas.

   - Também é um modo de voltar a freqüentar o CCBB. Antigamente ia muito lá durante a semana, mas hoje em dia fica impossível porque trabalho na Barra.

   Nem só de atrações de suas próprias áreas são as preferências dos artistas que fazem parte da Geração CCBB. Nada mais natural num espaço dedicado a todas as vertentes artísticas.

   - Algo que muito marcante para mim foi o Dança Brasil e as retrospectivas de filmes de ficção científica - lembra o diretor teatral Ivan Sugahara.

   Mas, como é comum em qualquer relação carinhosa, não faltam críticas construtivas dos freqüentadores do CCBB às ofertas da casa.

   - Lamentei muito o fim da Veredas, a revista do CCBB. Era uma das poucas que tinha um enfoque abrangente na cultura - observa Emílio, que se diz menos motivado com a atual programação do CCBB que com a de antigamente.

   Löis Lancaster é outro que se diz nostálgico dos velhos tempos.

   - Agora o cinepasse privilegia quem tem mais tempo, a biblioteca é mais rígida e o acesso aos eventos menos democrático.

   Há ainda quem sinta falta de ousadia na programação, como o artista plástico Cadu, de 27 anos.

   - O Rio é carente em espaços destinados aos jovens artistas plásticos. Seria interessante para uma instituição desse porte apostar em novos nomes. Hoje, o CCBB parece destinado a artistas consagrados, é um lugar onde eles coroam suas carreiras em retrospectivas. Elas são ótimas, mas a casa podia abrigar mais gente - opina Cadu, que integra a exposição Arquivo Geral, no Jardim Botânico.

   No que depender da diretoria do CCBB, a harmonia entre a busca por novos públicos e a manutenção dos fãs sempre será a prioridade.

   - Boa parte dos projetos culturais que escolhemos para o ano corresponde ao gosto do nosso público habitual. Mas dedicamos uma parcela a séries ousadas, que atraiam gente que não costuma vir ao CCBB - explica a diretora Yole Mendonça, citando o exemplo do evento Isto é música?, que vai levar 40 DJ's ao centro cultural a cada semana do mês de novembro.

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