Notícias
Todas as cordas de Zé Menezes

05-06-2008

O maestro Zé Menezes

Músico cearense lança primeiro disco autoral aos 83 anos

Helena Aragão

   Quem tenta reduzir Zé Menezes a alguma de suas habilidades tem um problemão.

   - Não gosto quando me chamam de violonista ou bandolinista. Instrumento é que nem filho: quando está no colo, é o predileto.

   Quem tenta ter uma conversa rápida e trivial com o multiinstrumentista de 83 anos também se estrepa. Pudera. Tão bom no papo quanto nas cordas (toca também banjo, violão tenor, cavaquinho e guitarra), o músico cearense tem mesmo muito para contar de um currículo que mais parece a listagem de temas e lugares importantes da música popular. Foi maestro nas Rádios Mayrink Veiga e Nacional, fez dupla com Garoto, integrou o Sexteto Radamés, tocou anos na TV Globo (onde deixou marcas como a célebre música de abertura de Os Trapalhões). Mas em carreira tão completa, falta algo fundamental: um disco de autor.

   Faltava. Zé Menezes autoral - Regional de choro será lançado hoje, às 19h30, na Maison de France, com patrocínio da Petrobras.

   - Sou mais lembrado por minha atuação com orquestras e como acompanhante. Fiquei satisfeito de gravar minhas músicas com uma formação de regional e solar muitas faixas com o violão tenor, um instrumento que hoje está quase esquecido - explica Menezes.

   A idéia do produtor Luiz Rocha é fazer do disco o primeiro passo para um projeto maior, que inclui mais três álbuns e um CD-Rom com partituras digitalizadas.

   - O Zé vive uma situação paradoxal, mas típica do Brasil. É um músico que conviveu com as melhores orquestras e viveu nos maiores estúdios, mas não tem sua obra registrada decentemente - observa Luiz.

   Menezes também acha que merecia ser mais valorizado. Rindo, conta que fez a música Meneziando, incluída no disco, em homenagem a si próprio. Mas opta por não ser mais um tijolo no muro das lamentações dos que se acham injustiçados na história da MPB.

   - Não me queixo da vida. Não deu para ficar rico, mas pelo menos não estou como muitos dos músicos que vi a minha volta: na pior - setencia o instrumentista.

   Para se manter na boa, Zé Menezes não deixou de usar da malandragem. Autodidata, começou a fazer orquestrações com base em conversas e erros.

   - Falava para um saxofonista: toca assim, isso que é o certo. Ele respondia: não é, o certo é aquilo. Aí eu aprendia as manhas de cada instrumento e fazia o arranjo - explica.

   Na década de 60, o alto-astral e a poupança de Menezes foram lapidados no grupo Velhinhos Transviados, que se dedicou à paródia de canções famosas e gravou 15 discos.

   - Fomos o primeiro grupo a fazer sátira musical. Tinha gente que achava que a gente era drogado, por causa da maluquice. Viajamos o Brasil todo de peruca e maquiagem berrante - conta, se divertindo.

   Aposentado há 10 anos (desde então vive em Guapimirim, na Região Serrana), Menezes toca vez por outra em gravações e dá aulas numa oficina de cordas, na Uni-Rio. E não deixa de fazer graça nem quando fala de gravadoras que lançaram seus discos instrumentais no exterior sem consultá-lo.

   - A relação não tem que ser em cima de contratos, senão vira casamento, e aí, claro, dá errado. A melhor mulher é a amante, aquela que nunca complica a vida - compara ele.  

JB Online)


O homem dos mil instrumentos

Tárik de Souza

   O homem dos mil instrumentos. Ou pelo menos de todos os de corda dedilhadas, somados às funções de compositor, arranjador e regente, durante mais de seis décadas nos bastidores da MPB. É mais fácil listar quem nunca atuou com o cearense de Jardim, José Menezes França, o Zé Menezes. Mas quem, hoje, conhece o ex-integrante do virtuosístico Quarteto (depois quinteto e sexteto) liderado por Radamés Gnattali nos 40 e 50? O que tocou para o padre Cícero Romão, o Padim Ciço, ganhou uma guitarra do próprio fabricante americano Les Paul e foi o primeiro a gravar a Introdução aos choros de Villa Lobos? Quem sabe de seu lado galhofeiro à frente do grupo Velhinhos Transviados, repaginador bem humorado dos Beatles ao tropicalismo? O mesmo que compôs o hino do carnavalesco bloco Galo da Madrugada no Recife e ainda fez o tema de abertura do programa dos Trapalhões na Globo? Aos 83 anos, este músico completo, de poucos discos recentes sob seu nome (Chorinho in concert, em 1995, Relendo Garoto, em 1998), finalmente começa a desvelar-se no CD Zé Menezes autoral - Regional de choro (ABZ digital).

   No álbum, Zé Menezes lidera um regional elástico (sumarizado em quinteto no show) que extrapola os antigos grupos da MPB tradicionalista. Tem acréscimo do violino do francês aclimatado Nicolas Krassik, o baixo de Toni Botelho e eventuais piano de Cristóvão Bastos, clarineta de Paulo Sérgio Santos, flauta de Carlos Malta, sax soprano de Daniela Spielmann além dos tradicionais cavaquinho (Lê Matos) e violão de sete cordas (Marcello Gonçalves), pandeiro e outras percussões (Beto Cazes). O próprio solista reserva-se apenas dois dos instrumentos de seu arsenal, o habitual bandolim e o raro violão tenor, de timbre mais grave e metálico, próximo da guitarra. Autodidata genial, autor de dois clássicos da pré-bossa nova, ambos em parcerias com Luiz Bittencourt, nas vozes dos Cariocas, Nova ilusão (1948), regravado pelo cantor americano Billy Eckstine e Comigo é assim (1952), não incluídos neste primeiro disco, Zé exibe a maestria autoral adestrada em décadas de estudios e espetáculos, acompanhando do rei da voz Francisco Alves, a outro rei, o da Jovem Guarda, Roberto Carlos. Das grandes divas Elizeth Cardoso e Carmen Miranda.

   Autoral - Regional de choro abre os trabalhos num didático Aquecimento, frevo velocista de palhetadas intricadas, curtas e concêntricas de fazer os mais ágeis cairem no passo. E os menos, tombarem no compasso. Também transparentes são os títulos e conteúdos de Gafieira carioca no. 2, Gafieirando e Contrapontando, este último um clássico instrumental, aula de contraponto. Também muito tocado nas rodas, o choro Tô querendo, conduzido pelo líder ao bandolim exibe uma conjunção de virtuosismo na artesania e na execução, extensivo aos congêneres Meneziando, Aconchegante e Eu gosto de você. Já Reco no choro vai além, no toque vertiginoso do bandolim que evoca outro recordista, Luperce Miranda. Nosso jardim é um prelúdio lento em duas partes e há também tinturas nostálgicas em outros choros, Saudade do Cariri e Entre sem bater. Mas a melancolia é enxotada pela rodopiante valsa-choro Nunca mais e o frevo Terra quente, fecho incendiário do CD que (re)abre as comportas do autor, oculto na sombra do executante de todos os dons.

JB Online)

 

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


powered by FreeFind

© NordesteWeb.Com 1998-2004

O copyright pertence ao veículo citado ao final da notícia