05-06-2008
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Gal Costa |
Antonio Carlos Miguel
Uma insuspeitada memorialista está quicando na área, mas tão cedo seus
textos não devem virar livro. Textos como os que o GLOBO publica com
exclusividade e aos quais Gal Costa tem dedicado muito de suas madrugadas.—
Nunca durmo antes das quatro da manhã, e quando a casa se acalma, depois da
meia-noite, fico no computador escrevendo — conta Gal, que, menina, gostava
de fazer redações, mas só retomou o hábito nos últimos anos, quando aderiu
ao computador e à internet. — Escrevo há algum tempo, sem uma ordem
cronológica. São fragmentos da memória que separo por temas. Não sei como
será o livro, alguém terá que organizar os textos, mas é cedo, só pretendo
editá-lo quando ficar velha (risos) . Antes disso tenho muitos
projetos.
Projetos que, provavelmente, renderão muitas outras histórias para o futuro
livro. Empolgada com os novos rumos de sua carreira, a cantora, que na
semana que vem, entre os dias 28 e 31 de outubro, volta ao Canecão com o
show “Todas as coisas e eu”, no momento negocia sua transferência para a
gravadora Trama e planeja um novo disco.
— Depois de dois meses de conversas, o contrato está pronto, chegamos a um
acordo e devo assiná-lo na semana que vem. Já tenho o próximo disco
delineado, mas fico com medo de falar, o que posso adiantar é que será com
repertório inédito, estou pedindo músicas às pessoas — diz Gal, que em seu
CD anterior, que dá nome ao show atual, reviu clássicos da canção brasileira
pré-bossa nova, mas filtrados pela batida do violão e pelo canto de João
Gilberto.
A experiência de mergulhar no passado — tanto musicalmente quanto nos textos
memorialísticos — parece funcionar como uma auto-análise e pode explicar
muito da boa fase da cantora. Mas usar da escrita para superar suas dúvidas
e frustrações não é novidade, e sim algo que Gal já experimentara na
juventude, antes de sair de Salvador:
— Eu tinha uns 19 anos, estava com Caetano, Dedé e Piti na Rural Willys de
um amigo, quando furou o pneu e o carro rolou pela ribanceira — conta. —
Como a gente vinha devagar, ninguém se machucou, mas fiquei muito
traumatizada com o acidente. Então, outro amigo sugeriu que fizesse algumas
sessões de análise, mas como eu ficava completamente travada e não conseguia
falar nada, o psicanalista pediu que eu escrevesse. Passei a registrar tudo,
inclusive os meus sonhos. Certo dia, Caetano me viu com uns papéis na mão,
perguntou o que era, pediu para ler e adorou, disse que escrevia muito bem e
que deveria continuar com aquilo.
Gal não seguiu o conselho do amigo — que depois iria se tornar seu principal
compositor — mas se o Brasil perdeu naquela época uma escritora promissora,
ganhou uma de suas melhores cantoras. Nos trechos de suas memórias ela
revela a premonição que teve na adolescência de que seria famosa, e conta
que até hoje tem antevisões. Um dom que, no entanto, não costumava falar
para ninguém, “porque receio que, se contar, essa espécie de encantamento
poderá se partir e impedir a sua realização”.
Histórias de suas primeiras experiências profissionais em São Paulo, quando
foi apresentada por Chico Buarque a empresários da época; de como deu sua
guinada tropicalista, surpreendendo até Caetano; ou da cumplicidade dos
Doces Bárbaros, que, juntos, formariam “uma quinta energia”; são lembradas,
num estilo que mistura leveza e profundidade. Como na letra da canção
“Divino maravilhoso”, o que se revela a partir desses textos é uma Gal Costa
atenta e forte.
— Está sendo maravilhoso, escrever é um prazer indescritível — garante.
(© O Globo)
Janela da Graça
Gal Costa
Uma vez, quando criança, tive uma premonição muito forte. Morava na Graça
numa casa muito simples. Dedé e Sandra (irmãs que foram casadas,
respectivamente, com Caetano Veloso e Gilberto Gil) moravam em frente.
Tinha duas janelas e um portão. Estava sentada numa das janelas lendo um
gibi, quando passou do outro lado da rua um rapaz, um cantor, que cantava na
televisão local da Bahia. Era uma televisão bem irregular com programas
ruins e alguns bons, como o do Carlos Coqueijo, por exemplo.
Eu me lembro que a rua toda correu, meus amigos, meus colegas, todos
correram para o cara com pedaços de papel na mão pedindo autógrafos. E
pensava: “Que coisa sem sentido. Um pedaço de papel, que importância tem a
assinatura de um cara num pedaço de papel? Que coisa ridícula”.
Ao mesmo tempo explodiu uma intuição que me mostrou exatamente na situação
dele, dando autógrafos. Foi uma premonição extraordinária. Deveria ter uns
12, 11 anos, talvez menos. Foi um acontecimento muito forte. Mas não
comentei com ninguém. Guardei dentro de mim porque achava que as pessoas
poderiam achar loucura. Como essa, tive muitas outras antevisões. Tenho até
hoje. E até hoje não conto para ninguém porque receio que, se contar, essa
espécie de encantamento poderá se partir e impedir a sua realização.
BOLINHO DE FUBÁ Chico (Buarque) não se lembra de nada. Mas foi ele
mesmo que me introduziu à diretoria da TV Record. Naqueles dias, Chico e
Nara faziam “”Pra ver a banda passar”, um dos vários programas de música
popular brasileira que a Record exibia semanalmente.
Cheguei ao Rio com a minha mãe em férias, coincidindo com a estréia de
Bethânia no lendário show “Opinião”. Lembro-me que assisti aos prantos.
Bethânia era magra e, carregada de emoção, vergava o corpo com uma
flexibilidade de vara verde, parecia que ia quebrar. A platéia enlouquecia.
Voltei para a Bahia só pensando em vir para o Rio morar. Pedi um dinheiro
emprestado a um primo que, quando soube que era para eu vir para o Rio virar
cantora, recusou. Outro primo, porém, foi mais justo e lá vim eu com
trezentos e poucos não sei o quê. Nossa moeda já mudou tanto que não sei
precisar.
Feliz da vida, consegui uma vaga numa kitchenette na Sá Ferreira onde só
podia dormir e tomar banho. O resto do dia era passado em casa de primos,
amigos e da turma da MPB.
Chico apresentou-me então o seu empresário Roberto Colossi e, por sua
indicação, lá fui eu a São Paulo mais Chico falar com o bambambã da Record,
o Marcos Lázaro, uma figura gorda, argentino, fumava um charutão com aquela
presença dominadora dos nossos vizinhos do sul. Chico havia me aconselhado a
pedir um bom cachê. Mas com aquela presença grandalhona e forte à minha
frente, tímida como eu era, aceitei a merrequinha de cachê que me
ofereceram. Fiz o programa do Chico com a Nara, depois o “Fino da Bossa”,
com o Jair Rodrigues e a Elis Regina, e um programa do Agnaldo Rayol...
Enfim, conseguia um dinheirinho. Com isso saí da vaga da Sá Ferreira e
aluguei um quarto — só para mim — no Solar da Fossa. O banheiro era fora.
Moravam lá: Caetano, Paulinho da Viola, Rogério Duarte... Foi um início
difícil mas que me traz boas recordações, por mais difíceis que possam ter
sido. Como o dia em que não tinha nada para comer, dinheiro nenhum, apenas
um vale de casco vazio de uma Coca-Cola. Foi o que me salvou: com ele
consegui um leite gelado e um bolinho de fubá...
O DIVINO MARAVILHOSO
Naquela época convivia com todo o ambiente
tropicalista. Só falávamos dos movimentos novos que surgiam no mundo. Gil
ouvia Hendrix o dia inteiro. Janis Joplin não saía da minha cabeça. Aquele
som, aquele rasgo de voz foi me tomando de uma forma que criou em mim uma
necessidade de fazer alguma coisa diferente do que eu acreditava, de tudo o
que já fizera e de como eu entendia a música até então. Eu era muito
radical, gostava de pouquíssima coisa. João (Gilberto) era meu
ídolo e nada, quase nada passava pela minha peneira. Não gostava de
iê-iê-iê, nem da jovem guarda, de nada. Precisava fazer alguma coisa para me
expressar, botar pra fora o que eu sentia, com força, atitude, e que,
falando francamente, chamasse a atenção sobre mim.
Gil e Caetano envolveram-se de corpo e alma com essas novas experiências da
música popular brasileira. E dentre essas pesquisas me deparei com “Divino
maravilhoso”, uma canção que mexeu comigo. Caetano convidou-me para cantá-la
no Festival da Record e Gil se propôs a fazer o arranjo. Ele foi tão
perspicaz que me perguntou como é que eu queria cantá-la. Expliquei que
queria cantar de uma forma nova, explosiva, de uma outra maneira. Queria
mostrar uma outra mulher que há em mim. Uma outra Gal além daquela que
cantava quietinha num banquinho a bossa nova. Queria cantar explosivamente.
Para fora.
Gil fez então o arranjo para o “Divino maravilhoso”.
Quando Caetano me viu pisar o palco cheia de penduricalhos e espelhinhos
pendurados no meu pescoço, aquela cabeleira afro armada por Dedé, quase
morreu de susto. Ele não sabia de nada. Não tinha escutado o arranjo do Gil,
nada, nada. Cantei com toda a fúria e força que havia em mim. Metade da
platéia se levantou para vaiar. A outra metade aplaudiu ferozmente. Um homem
na minha frente berrava insultos. Foi então que me veio ainda uma força
maior que me atirou contra ele. Eu cantava diretamente para ele: “É preciso
estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte!” Cantava com tanta
força e tanta violência que o homenzinho foi se aquietando, encolhendo-se, e
sumiu dentro de si mesmo. Foi a primeira vez que senti o que era dominar uma
platéia. E uma platéia enfurecida como aquela. Naquele tempo de polarização
política, a música era a única forma de expressão. Despertava paixões,
verdadeiras guerras. Saí do “Divino maravilhoso” fortalecida, crescida. Acho
que naquela noite entrei no palco adolescente, menina, e saí mulher.
Sofrida, arrebentada, mas vitoriosa.
(© O Globo)
Perdida em São Paulo, Gal pensou em voltar para
Salvador
A QUASE FUGA
São Paulo no início foi barra. Acontecia tudo com os outros.
Comigo nada. Desanimei, não vi mais sentido de ficar naquela cidade enorme,
perdida, nada acontecendo. Decidi voltar para a Bahia. Chamei Dedé e disse:
“Vou-me embora”.Dedé foi para casa, naquele tempo na São Luís, contou para
Caetano que eu iria embora. Ele, mais do que depressa, disse: “Diga a ela
para não voltar. Ela tem que ficar”. Fiquei.
OS DOCES MONGES
Gil disse uma vez que nós quatro, Gil, Bethânia, Caetano e
eu, somos um. Os Doces Bárbaros. As quatro entidades são independentes, mas
juntas, formamos uma entidade única. Somos os quatro fortemente
espiritualizados. Temos uma estranha comunhão de espírito. Juntos, formamos
uma quinta energia. Com Caetano, principalmente, parece que nos conhecemos
há 180 anos. Ou há milênios. Digamos até em vidas passadas, quem sabe?Num
programa de TV, nos anos 80, Caetano disse que nós tínhamos uma
identificação musical: como se dois monges tivessem uma iluminação ao mesmo
tempo e não precisassem dizer nada um ao outro para serem entendidos.
E essa
iluminação, esse ponto de luz, de contato, seria João Gilberto, nossa origem
musical.Meu primeiro disco, “Domingo”, foi isso: uma comunhão total, nós
dois éramos um só, eu me sentia a voz de Caetano. Creio que ele também
sentia isso.Mergulhei com ele no tropicalismo, fiz “Fatal”, “Índia”, com
forte acentuação desse movimento. Foi quando resolvemos mudar um pouco a
história. Caetano queria que mostrasse a minha essência de cantora. E veio o
“Cantar”. Nem o show nem o disco emplacaram. Foi uma mudança radical. Neles
eu recolhia as minhas feras, as minhas garras, e partia para mostrar um lado
mais legitimamente meu.
Com o fracasso do “Cantar” fiquei retraída, entrei em
crise, três anos sem fazer nada. Foi quando Roberto Menescal me sugeriu
cantar Caymmi. Deu certíssimo. Levamos o show a Buenos Aires. Lá estava
Guilherme Araújo, que, durante o show, teve a idéia de realizar o “Gal
tropical”, que viria a dar um rumo definitivo na minha carreira. Ao mesmo
tempo eu tinha mais uma das minhas premonições: a certeza de que o show iria
ficar um ano em cartaz. Ficou um ano e dois meses no Rio.Caetano estava de
férias na Bahia e veio ao Rio assistir ao show. Chegou aos prantos ao
camarim. Aos soluços. Não conseguia falar uma palavra. Tempos depois me
telefona dizendo querer falar comigo.
Em casa, os dois sentados na minha
cama em posição de lótus, ele me dizia que não gostara, que o show era
careta, mas que não poderia comentar isso em público, pois o “Tropical” era
uma unanimidade nacional e não ficava bem para ele ir contra a
corrente.Fiquei arrasada. Apesar de toda a crítica ter posto o show nas
alturas, de todos os meus amigos, meus colegas, todos me cobrirem de
elogios, Caetano ali na minha frente, justo ele que era a opinião mais
importante para mim, dizia não ter gostado.Só agora, mais de 20 anos depois,
entendo as lágrimas dele no camarim. Naquela hora ele percebeu que nascia
uma nova Gal, que ele perdia a sua criatura, que eu poderia partir para
sempre sendo eu mesma. Como um pai que via a sua filha sair de casa. Livre e
independente.Livres e independentes, mas ainda juntos iluminados. Como dois
monges. (Gal Costa)
(© O Globo)
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