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Antônio Nóbrega

05-06-2008

Iara Venanzi

Antônio Nóbrega

 

Roberto Muylaert

   É bem assim: ele dança soltando as pernas como elásticos que se encurtam, enrolam, torcem, espicham, ganham vida própria, destacam-se do tronco em insólito equilíbrio, onde o centro de gravidade muda de posição a cada momento, para compensar as posturas inusitadas do corpo.

   Sua dança é energética, ao mesmo tempo suave e silenciosa, como um balé russo em que as dançarinas parecem ter rodas sob a longa saia. Só que Antônio Nóbrega desliza descalço ou de sandálias no chão, bem à vista, para o público observar em detalhes seus pés renascentistas arqueados do calcanhar à ponta dos dedos, mantendo a sensação de continuidade no deslizar. Já o rebolado do dançarino, da cintura até os joelhos, tem vida e coreografias próprias, independente das passadas largas. Quando começa a mexer as cadeiras em ritmo frenético, parece que o filme se acelerou. Mas não tem filme, não. Ele está ali, diante de uma platéia entre enlevada e divertida, por vezes emocionada. A sensação que o artista pernambucano passa é a de que não é possível tanta movimentação enquanto canta, dança e toca violino.

   Antônio Nóbrega, 52 anos, casado há 22 anos com Rosane Almeida, parceira, mora em São Paulo também há 22 anos, tem o seu Teatro Brincante na Vila Madalena, rua Purpurina, nome que tem tudo a ver com a graça da sala de espetáculos, pequena, descontraída, acolhedora, colorida, com cara de que o circo sempre vai começar.
 
   Veio do Recife para cultivar as raízes nordestinas na metrópole e irradiar dali os seus espetáculos para todo o Brasil. Ariano Suassuna (autor de O Auto da Compadecida), consagrado intelectual paraibano e sua maior influência, considera que, para fazer tudo aquilo que Nóbrega faz em cima de um palco, só mesmo ele ou Charles Chaplin, o Carlitos.

   Seu show de hora e meia, sem momentos de tédio, é a antítese de algumas apresentações de ritmos folclóricos, por vezes cansativas. Como ele mesmo define: “Folclore é uma palavra pejorativa, tanto que se diz, ‘folclore da política’, uma coisa apequenada, enquanto a cultura popular, muito pelo contrário...”
Mas toda essa versatilidade tem um preço: Nóbrega, nada notívago, já está com o violino na mão às 8 e meia da manhã, pratica seu instrumento duas horas e meia por dia, faz exercícios de voz por uma hora e depois entra nos exercícios físicos, como a natação, para agüentar o tranco. No fim da tarde começa a praticar a sua original e exaustiva coreografia, que surpreende e fascina as platéias, pela ousadia, encantamento, precisão e esforço.

   O Lunário Perpétuo é o livro de cabeceira do artista, que ajuda no desfile de sua coleção de arquétipos para uma platéia atenta e encantada. É nele que se baseia o último trabalho de Nóbrega, sempre inspirado em Ariano Suassuna, cujo mote é: “Olhem para a cultura brasileira, porque, se a gente não olhar, ela vai acabar”.
O grupo que acompanha o artista tem músicos virtuosos e ecléticos, com instrumentos de cordas, sopro, acordeom. Dentre eles seus filhos Gabriel (22), na percussão e bateria, e Maria Eugênia (17), no sopro.

   São ritmos variados que conseguem transportar para o palco o autêntico e pitoresco som vindo do mais remoto sertão do Nordeste, com sua originalidade sonora e cromática, ponteada pelo mais puro e legítimo frevo, que denuncia as origens de seus componentes.

   E lá vai ele, a tocar um impecável violino, mesmo sentado no chão. Sua roupa azul bordada a mão com ingênuos toques coloridos, além das singelas sandálias de couro, pode dar a falsa impressão de despojamento e simplicidade, desmentida pela sofisticada, expressiva e exuberante categoria do artista, suas composições e sua banda.

   Uma dança contida, tradicional e ao mesmo tempo moderna, dentro das tradições do forró, do jongo da Nau Catarineta, da polca, que se transforma em Apanhei-te, Cavaquinho, de Ernesto Nazareth. Nóbrega brinca com o fato de que o consagrado compositor brasileiro, exímio pianista, tenha composto uma música dedicada ao cavaquinho.

   O atlético estilo Nóbrega de dançar reporta ao xaxado ou a Michael Jackson, com intensos momentos rítmicos se alternando com paradas bruscas que destacam a complexidade do desempenho ao violino, valorizam o espetáculo e dão oportunidade ao artista para tomar fôlego.

   Mas a personalidade do autor não se esgota ao ser cantor, poeta, cantador, músico, dançarino, humorista, historiador, coreógrafo... De repente ele se transforma em outro personagem, transgressor, o Tonheta, que passa a tocar rabeca – a “rabequita” –, uma espécie de violino rústico, comum no Nordeste, feito em casa, com a madeira que estiver disponível, mas que ele domina tão bem quanto o instrumento original. Na pele do novo personagem ele se solta, critica a própria apresentação de Antônio Nóbrega, “como é que pode, baixinho, feio, voz de taquara rachada, e dizem que a mulher dele é até bonita...”

    Executa um outro tipo de dança, mais solto e descontraído, como se Tonheta não precisasse se comportar tão bem, tivesse mais liberdade diante do público de Antônio Nóbrega. Ao voltar, o personagem titular acaba fazendo um número de dança com o filho Gabriel, de arrasar quarteirão e tirar o fôlego dos artistas e da platéia.

   A propriedade dos versos, o respeito pelo vernáculo, dentro da melhor tradição pernambucana “brincante” de Ariano Suassuna e de seu Quinteto Armorial, de que Nóbrega participou aos 17 anos, tornam o espetáculo um banho de erudição e respeito às tradições.

   O que não diminui a emoção que perpassa e invade o auditório, quando Nóbrega interpreta uma composição magistral sua, com Bráulio Tavares, Carrossel do Destino.

   Ao terminar o espetáculo, ele diz, emocionado, que, “da mesma forma que o livro orienta o povo nordestino no dia-a-dia, seus cantos, danças, sua maneira de representar orientam o meu fazer artístico”. E, poetizando, “foi através do conhecimento desses toques, dessas danças, através desses cantos me encontrei com meu povo e aprendi a amar esse povo. Eles são as pedras do meu céu e as estrelas do meu chão”.

   Em seguida, da emoção à dança, uma platéia feliz entra saltitante na ciranda de encerramento do espetáculo.

Revista Ícaro Brasil)

 

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