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05-06-2008
Jornalista vê na derrota do ex-líder soviético nas urnas
o símbolo da derrocada da era das utopias Em junho de 1996, ''o repórter que quisesse testemunhar uma daquelas cenas que só se repetem de mil em mil anos deveria voar, urgente, para Moscou''. Foi o que Geneton Moraes Neto, o autor da frase acima, fez. Desembarcou na Rússia para cobrir a primeira eleição direta para presidente da história do país. Na disputa, Mikhail Gorbatchev, o homem que dera fim ao comunismo soviético, viu enterrada sua carreira pelas urnas, que, mais do que ninguém, ajudou a implantar no país. Essencialmente aferrado ao que é efêmero, o jornalismo ganha outra dimensão diante de momentos emblemáticos. Eventos que, sem perder o ineditismo e a urgência que caracterizam a notícia, ficam como marco de processos históricos que ajudaram a desencadear ou concluir. Em momentos assim, os bons jornalistas se dão conta de que há mais a contar do que pode caber nas páginas de jornais, revistas ou emissoras de TV. Em Dossiê Moscou, Geneton Moraes Neto acerta as contas com a eleição de 1996 e transforma em livro a cobertura que fez para O Globo. No livro, o autor se liberta das amarras que os veículos forçosamente têm de impor ao estilo pessoal dos jornalistas e, num texto alegre e jovial, mistura a narrativa dos acontecimentos com suas impressões pessoais. O repórter entra na notícia. As idas e vindas por Moscou, os sucessos e os fracassos do jornalista ponteiam a narrativa.
Findas as eleições. O evento vira emblema. Para o escritor, a derrota de Gorbatchev marca o início da era do fim das utopias. E é através de uma série de entrevistas que o repórter busca dar corpo à idéia. Desfilam pelo livro analistas privilegiados. O filho do ex-líder soviético Nikita Khruschev acusa Gorbatchev de ser ''alguém que destruiu o país''. O historiador britânico Eric Hobsbawn faz um balanço do fim do comunismo e o cientista político Leandro Konder analisa o que sobrou do marxismo. Na galeria de personagens que cruzaram o caminho de Geneton, três servem de símbolo do desconforto com a Nova Era. O filho de um agente da KGB que participou de planos para matar Leon Trotsky, o ex-general da polícia secreta russa que distribuía documentos falsos demonizando os Estados Unidos a jornalistas ocidentais de esquerda e a astronauta que se tornou deputada comunista linha-dura. Diante da pergunta sobre as emoções sentidas nos papéis que desempenharam, a mesma resposta: ''Era uma guerra ideológica. Não havia lugar para sentimentalismos inocentes''. Geneton retrata, com emoção, um mundo que, definitivamente, morreu.
(© Revista Época)
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