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05-06-2008
Coletânea de CDs do Mundo Livre S/A mostra a evolução do som da banda pernambucana Cléber Eduardo Engana-se quem crê na completa autonomia do Mundo Livre S/A desde seu primeiro disco, lançado em 1994. ''Tudo é negociação'', jura Fred Zero Quatro, líder, vocalista e letrista do grupo pernambucano que protagonizou com Chico Science, nos anos 90, a miscigenação sonora batizada de mangue-bit. Com um ouvido na própria terra e outro no mundo, uma mão no cavaquinho e outra na tecnologia, o grupo só teve total liberdade no quinto CD. Nos outros quatro, não foram 100% livres. Pois é esse período que está coberto pela caixa Bit, com os primeiros quatro discos e um DVD com dez videoclipes. Cada um tem DNA e, com as diferenças levadas em conta, todos têm o RG do Mundo Livre. Samba Esquema Noise (1994) foi moldado na produção. Eram inexperientes e, com parafernália eletrônica à disposição, lambuzaram-se com as possibilidades. Guentando a Ôia (1996) representou uma reação, pela crueza sonora, ao trauma anterior. Então veio o melhor, Carnaval na Obra (1998), concebido após a chegada de Zero Quatro, que ajudou na guinada: as músicas perdem a vergonha de ser bonitas e não mais reagem só com rebeldia. O disco possui a nobreza de quem crê que a banalidade do amor é épica. Na seqüência veio Por Pouco (2000), que resgatou as experiências de estúdio, promoveu o cavaquinho a estrela, mas se ressentiu das interferências de produção, embora o grupo não tenha engolido nada à força ou mesmo sem mastigar.
A singularidade do Mundo Livre repousa em se rebelar sem perder a ternura. Em canções pop ou rocks de protesto, em sambas derivados de Jorge Ben ou na reaproximação com o punk, atacando políticos ou louvando mulheres, falando de seu canto ou do mundo, a banda prima pela docilidade. A voz de Zero Quatro esbanja convicção. Detectando os estragos do que
chamam de ''pensamento único'' (econômico, artístico e político), a banda
reage com uma militância musical que tem o desafio de encontrar o poético no
panfleto e o romântico na distorção. Esses pólos são reflexos da trajetória,
iniciada no punk, desenvolvida no diálogo com o samba de breque e outras
variações, que condenavam a banda a vaias de roqueiros e de universitários.
Isso foi antes de estrearem em estúdio. Dez anos depois do início, o Mundo
Livre continua na luta pela manutenção do espírito de seu nome.
(© Revista Época)
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