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A casa dos bonecos que têm vida

05-06-2008

À esquerda, Espaço Tiridá; à direita, mamulengo do acervo
 

O Espaço Tiridá, em Olinda, que abriga acervo de 900 bonecos num prédio secular, foi salvo da ruína graças aos recursos conseguidos da Funarte e já recebe visitantes

OLÍVIA MINDÊLO

   O diabo, a morte, a beata, o dentista, o cabo e a nega cachimbeira são alguns dos vários personagens pitorescos e populares que compõem o universo mágico do Museu do Mamulengo – Espaço Tiridá, em Olinda. Responsável por preservar um acervo de 900 bonecos, incluindo peças de artistas anônimos que remontam ao século 19, o espaço ficou ameaçado de fechar as portas no início do primeiro semestre, depois que o prédio que o abriga, um sobrado com mais de cem anos, sofreu rachaduras na parede, assim como as demais casas vizinhas, na Rua do Amparo. Graças aos recursos conseguidos na Funarte (Ministério da Cultura), o museu passou por uma reforma e, depois de seis meses fechado, reabriu há um mês, com cara nova. O Tiridá já está pronto para receber os visitantes do festival Sesi Bonecos do Mundo, que chega ao Recife em dezembro, mês das comemorações dos dez anos do espaço.

   Além de ser imprescindível para quem quiser conhecer de perto uma importante vertente da cultura nordestina – a arte dos mamulengueiros –, o espaço tem o bônus de ser o primeiro museu de bonecos populares do País. Sob a tutela da Prefeitura de Olinda, com sustentação de um conselho formado pelo Iphan (instituição proprietária da casa), Fundação Joaquim Nabuco e Mamulengo Só-Riso, o museu recebe há quatro anos o zelo diário da artista plástica e diretora do espaço Tereza Costa Rêgo, que de terça a domingo, durante o horário de funcionamento, mexe nos bonecos e checa se tudo está no lugar.

   Tereza conta que já começou a pensar nas comemorações do aniversário do Tiridá, no final do ano, só falta o aval da Prefeitura para começar os preparativos. Já está certo, pelo menos, que, na ocasião, será realizada uma festa de rua em frente à casa, com shows e, como não poderia deixar de ser, teatro com bonecos, além do lançamento do livro A História Poética do Tiridá, com imagens do fotógrafo Passarinho.

   PRECIOSISMO – “Isso aqui é uma raridade. Temos peças frágeis e únicas, de artistas desconhecidos que já morreram, ainda do século 19. Para mim, que já fui diretora do Museu do Estado por dez anos, elas têm o mesmo valor do que um cálice de ouro preservado. É uma preciosidade que não se recupera”, atesta a diretora.

   De acordo com ela, já estão sendo encomendadas várias réplicas dos objetos mais delicados, como é o caso do Professor Tiridá, personagem do Mestre Ginu – um dos mamulengueiros mais importantes do início do século 20 –, em que o espaço se inspirou para batizar o próprio nome. No local, o boneco Tiridá presente é uma recriação plástica de Nilson de Moura, fundador do grupo Mamulengo Só-Riso, e fica num lugar de destaque, protegido por um vidro. O visitante pode se deparar com figuras curiosas, como o Gangrena, conhecido como ‘nego de briga’, e outras de expressividade indescritível, a exemplo das carpideiras do enterro – uma das quais Tereza compara aos quadros de Pablo Picasso. “O boneco é um ator por si só, ele fala ao visitante”, acrescenta.

   São 600 mamulengos guardados na reserva técnica e 300 bonecos expostos na casa, distribuídos em três pavimentos. Para quem conseguir desafiar as estreitas escadas, o terceiro andar é um dos mais interessantes, ao trazer várias criações do chamado mundo fantástico, como o diabo e a morte. Os bonecos estão divididos pelas categorias de técnica de manipulação: de luva, vara, haste e pano. O tipo mais comum no local é o de luva, feito na maioria com a madeira mulungu, que possibilita a articulação de boca e olhos. Cerca de 90% do acervo foi doado pelo Mamulengo Só-Riso, de sua coleção própria.

   “A nossa luta é manter o museu vivo. Uma das melhores formas é trazer estudantes”, argumenta a diretora. O espaço conta com uma biblioteca e um auditório com vídeo para receber alunos de escolas públicas e particulares.

JC Online)


Museu tem pendências e precisa de mais apoio

   Apesar de satisfeita com a última reforma do Museu do Mamulengo, que deixou a casa mais arejada e bem estruturada, Tereza Costa Rêgo explica que ainda há pendências.

   Na lista das mais urgentes, está um elevador para deficientes físicos e idosos – as escadas são bastante sinuosas e arriscadas, além de um ar-condicionado, visto o calor que faz nas salas, principalmente quando o sol está a pino nos telhados da casa. O teto, por sinal, precisa de revestimento, porque entra água quando chove.

   Profissionais da área de história e biblioteconomia também foram listados como carências do museu, que aguarda apoio do Ministério da Cultura.

Museu do Mamulengo, Espaço Tiridá, Rua do Amparo, 59, Amparo, Olinda. De terça a sexta, das 9h às 17h, sábados e domingos, das 10h às 17h. Entrada: R$ 1. Fone: 3429.6214.

JC Online)

 

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