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Edu canta para os conterrâneos

05-06-2008

Cidadão pernambucano de fato e de direito, o cantor e compositor mostra hoje, no Santa Isabel, uma retrospectiva de 40 anos de carreira

JOSÉ TELES

   Pela sua foto na capa do disco de estréia, um compacto duplo, com selo da Copacabana, alguém desatento jamais preconizaria que aquele rapaz franzino, no final da adolescência, seria um dos maiores compositores de todos os tempos da música brasileira popular brasileira. Se prestasse mais atenção, no entanto, veria que a contracapa tem apresentação assinada por Vinicius de Moraes, e que aquele novato herdou o sobrenome de um pernambucano talentoso, Fernando Lobo, jornalista e compositor.

   “Este disco foi uma coisa de criança, dele só escapa mesmo a contracapa, escrita por Vinicius, foi ali que comecei a ser amigo dele”, confessa Edu Lobo, que no ano da gravação ainda passava as férias de verão no Recife, na casa dos parentes do pai: “Foi uma coisa que marcou muito minha música, que até hoje tem uma ligação muito forte com a cidade”, diz o mais novo pernambucano da família (recebeu ontem o título de cidadão do Estado, na Assembléia Legislativa). “Na verdade, eu já era meio pernambucano”, continua Edu, revelando que até os 19 anos se lhe fosse exigida fazer a opção entre viver no Rio ou no Recife não pensaria duas vezes: “Escolheria o Recife, que é a cidade da minha infância, da minha adolescência, mas comecei a me envolver firme com a música, aí não tinha mais como deixar o Rio”.

   Alguém sob medida, Saudade só, Balancinho, Amor de ilusão, as músicas do compacto de 1962, seguiam a linha intimista da bossa nova, não fizeram sucesso, mas Eduardo Góes Lobo, não esperaria muito para ter uma composição sua cantada no País inteiro. Em 1965, Arrastão, parceria dele com Vinicius de Moraes, interpretada por Elis Regina, ganhou o primeiro festival importante da era da MPB. Edu Lobo estava então com 21 anos, no entanto não credita a nenhum fenômeno de precocidade geracional o fato de Chico Buarque, Milton Nascimento, Gil, Caetano, Francis Hime, entre outros, encaixarem-se nesta faixa etária: “Foi uma questão de oportunidade. Deve existir por aí muitos compositores com trabalhos sofisticados, mas sem a mesma oportunidade que tivemos”.

   Edu Lobo, trabalha atualmente em projetos para teatro, cinema, o que mais gosta de fazer. “Trabalho melhor com música que me encomendam. Às vezes me perguntam quando farei o meu próximo disco individual, só que todos os projetos que fiz para teatro, cinema, são discos individuais. Posso cantar menos neles, mas considero todos trabalhos de carreira. Não vejo diferença entre um disco só meu, com um no qual outras pessoas cantam músicas minhas”.

   No show de hoje, no Santa Isabel, Edu Lobo faz uma retrospectiva de todas suas fases: “Tem umas 18 músicas no repertório, e mais ou menos uma hora e vinte de duração. Prefiro não fazer shows demorados, quando o público reclama que foi curto, é porque gostou”.

Show com Edu Lobo, hoje, às 21h, no Santa Isabel. Preços: R$40 (inteira), R$20 (meia)

JC Online)


Uma obra impregnada de lembranças do Recife

   O Cordão da saideira, Candeia, Casa Forte, a primeira fase da obra de Edu Lobo está impregnada das lembranças do Recife que, de resto, como ressalta o compositor, estão sempre de alguma maneira no que compõe.

   Candeia refere-se à praia de Jaboatão dos Guararapes: “Mas só o nome, a letra não tem muito a ver”, diz Edu, ratificando que Casa Forte é mesmo o bairro do Recife, porém é uma peça instrumental.

   Já No cordão da saideira as referências são bem explícitas, a começar pelo estilo, um frevo-de-bloco, que abre com um refrão bem recifense: “Chora menino, pra comprar pitomba”, e continua na letra com agulhas-fritas, caramboleiras, e a expressão pernambucana “um susto e uma carreira”.

   Curiosamente, No cordão da saideira, revela Edu Lobo, foi composta em 1966, na França: “Lembro bem disso, porque foi a minha primeira viagem a Paris”.

   Na sofisticação harmônica e melódica da música de Edu Lobo há sempre espaço para modas de viola, baiões, frevos, e outros gêneros que escutava no Recife, numa época em que as programações das emissoras de rádio ainda não eram monocromáticas, e ele podia escutar no Carnaval (suas férias recifenses iam até o mês de março quando recomeçavam s aulas) os frevos de Capiba, amigo de juventude do seu pai, Fernando Lobo.

   Por coincidência, seu pai estudou música, em Campina Grande, com o mestre Severino Atanásio (pai de Capiba): “Conheci e admiro muito Capiba, mas as influências pernambucanas da minha música vêm da minha vivência na cidade”, diz Edu Lobo, cujo último trabalho, o musical Cambaio, em parceria com Chico Buarque, reforça essas influências com as participações de João Falcão e de Lenine: “A música de Cambaio pedia isso”, explica.

JC Online)


Viola fora de moda

O compositor Edu Lobo, que faz show em SP a partir de quarta, fala sobre sua vida e sua música após o aneurisma

LUIZ FERNANDO VIANNA
DA SUCURSAL DO RIO

   Edu Lobo, 61, faz show hoje em Recife, onde ontem ganharia da Câmara dos Vereadores o título de cidadão pernambucano. Homenagem justa para esse carioca filho de pernambucanos, mas a cerimônia, o jantar com o governador e as entrevistas pouco combinam com sua discrição.

   Discrição que pode aumentar depois do aneurisma cerebral que o levou, em 23 de agosto, a uma delicada cirurgia. Ele diz que sente vontade de ficar mais calado. Mas não faz drama. "Em nenhum segundo achei que ia morrer."

   Embora o preço do ingresso (R$ 200) o incomode, tanta discrição combina com o pequeno Baretto, onde ele faz, a partir de quarta, temporada de duas semanas.

   Vai cantar músicas de toda a sua carreira, como sempre faz, voltando e voltando a sua obra, com perfeccionismo. Rigor que o põe entre os maiores compositores brasileiros. Bem menos popular do que Chico Buarque, Caetano Veloso e outros, por causa da tal discrição.

   A soma das duas características o leva a um cenário "quase ideal": criar músicas em casa e comercializar na internet. Como entende pouco de comércio, só garante um dos lados: estará sempre criando. Foi no estúdio de sua casa, que ele conversou anteontem com a Folha.

Folha - O que mudou depois do aneurisma?
Edu Lobo -
Parece que o hard disk [memória do computador] ficou mais lento. Tem um nome ou outro que não lembro.
 

Folha - Mudou emocionalmente?
Lobo -
Estou com vontade de ficar meio quieto, mais calado. Eu já era assim, mas não tanto.
 

Folha - Você teve a sensação de estar perto da morte?
Lobo -
Não. Eu só soube do meu estado depois da cirurgia e pelo [ator] Antônio Pedro, que entrou na UTI não sei como. Ele chegou para mim, com uma cara assustada, e perguntou: "Você sabe o que tem? Aneurisma". Aí eu falei: "Como você sabe?". "Está em todos os jornais." Eu levei um susto. E realmente as pessoas estavam ligando muito, o que é estranho, e meus filhos me visitando várias vezes por dia, o que é mais estranho ainda. Em nenhum segundo achei que podia morrer.
 

Folha - O que significa abrir o show com "Berimbau" [de Baden Powell e Vinicius de Moraes]?
Lobo -
Tem um sentido de passeio pelo passado. Aprendi muito com o Baden: esse violão para fora, percussivo. Já não era mais a batida do João Gilberto. As pessoas aqui falam em bossa nova, depois tropicália. Baden não é bossa nova nem tropicália. Baden é Baden. É um estilista, inventou uma maneira de tocar violão.
Eu tenho certa implicância com nome de escola, porque parece que uma escola acabou e depois começou outra. Já fui chamando de inventor da MPB. Eu me senti com 270 anos. Se eu fui inventor da MPB, [Dorival] Caymmi é o quê? Tem que inventar um nome para o que ele faz? É tudo ligado. Se eu, com 19 anos, fosse tocar bossa nova naquelas casas que eu freqüentava, com Tom [Jobim], Carlinhos [Lyra], Baden, eu estava frito. Isso me levou a procurar algo diferente para sobreviver.
 

Folha - E, com a sua geração, parece que se cria uma divisão entre samba e MPB. Mas boa parte do que você fez não é samba?
Lobo -
Não é o samba tradicional, às vezes é o samba-bossa nova, como "Pra Dizer Adeus". Na verdade, é uma mistura de samba, baião, xaxado, mas com harmonia da bossa nova. Não tem muito como dar nome. A gente tem tanta coisa no Brasil que não vejo necessidade de pegar nada [de fora]. Aqui tem tudo o que um compositor precisa para fazer uma música legal. Não quer dizer que você não vá ouvir "coisas de fora", como se dizia. Mas, quando procuram uma música comercial que não tem nada a ver com a cidade, o país, fico sem entender.
 

Folha - Que música? Rock, rap?
Lobo -
Um tipo de música que não tem nada a ver com o Brasil, o Rio. Porque nós fomos chegando aqui a um nível muito sofisticado.
 

Folha - E você é perfeccionista...
Lobo -
Mas não acho que seja uma vantagem. O perfeccionista nunca acha que as coisas estão certas. Um certo perfeccionismo é bom, empurra para frente, mas assim, não é bom.
 

Folha - Como será o próximo CD?
Lobo -
Estou pensando em alugar um estúdio, gravar e depois ver se uma gravadora se interessa. Não sei se é certo ou errado, mas todo mundo caiu nisso.
 

Folha - Você acredita na viabilidade das pequenas gravadoras e dos selos de artistas?
Lobo -
Acho que é o que vai acontecer. Isso vai terminar na internet, com as pessoas se produzindo, saindo do mercadão das gravadoras e indo para um mercadão maior ainda, do mundo inteiro. É quase o ideal: produzir no seu estúdio, jogar na rede e começar a chegar pedidos. Supondo que seja um dólar por download: se cem mil pessoas baixam sua música, são cem mil dólares. Mas não sei como seria recolhimento de direitos autorais. Artisticamente, acho interessante.
 

Folha - Por que você acabou ficando nos bastidores, enquanto Chico, Caetano, Gil se tornaram muito mais populares?
Lobo -
Tem a ver com show, aparição pública. Sempre achei que existia essa profissão: compositor. Se você descobrir que eu fiquei dez anos sem fazer show, não tem problema nenhum. Se descobrir que eu fiquei dez anos sem fazer música, aí é sério.
 

EDU LOBO. Onde: Baretto (r. Vittorio Fasano, 88, Cerqueira César, SP, tel. 0/xx/ 11/3896-4066). Quando: de 10 a 13/11 e 17 a 20/11, às 21h. Quanto: R$ 200.

Folha de S. Paulo)


ANÁLISE

Artista permanece símbolo da vertente formalista da MPB

PEDRO ALEXANDRE SANCHES
DA REPORTAGEM LOCAL

   Desde a aparição do menino-prodígio de uma segunda dentição da bossa, a trajetória de Edu Lobo tem sido sucessão de guinadas fortes, embora pouco perceptíveis ao olho público.

   O artista que progrediu rumo à discrição ampla, geral e irrestrita já foi, acredite, um pop star. Garotão que casava sofisticação artística e atributos físicos, disputou com garra a preferência popular na avassaladora era dos festivais.

   A primeira guinada aconteceu após o intervalo 65-67, anos de supremacia da canção de protesto, que em Edu se traduziu em pesquisa dos ritmos e saberes nordestinos e manifestos indignados de protesto nacional-popular.

   Chamou-se tropicalismo a guinada. A partir dela, a MPB rachou entre a corrente formalista (de Edu, de Chico Buarque, de Elis Regina, do já desaparecido Geraldo Vandré) e a outra, para a qual virtuosismo musical seria quanto muito um quesito entre vários.

   A resposta de Edu foi um afastamento progressivo do estrelato histérico que seduzia ídolos tão diversos como Chico, Caetano Veloso, Rita Lee e Roberto Carlos.

   A pedra de toque desse segundo Edu é o álbum de 73, que cuspia resposta em latim à sanha censora da ditadura. No meio de toadas já postas fora de moda pela tropicália (como a literal "Viola Fora de Moda"), Edu avisava com uma missa em latim que estava sendo amordaçado. E "Edu Lobo" formava, com "Milagre dos Peixes" , de Milton Nascimento, e "Amazonas", de Naná Vasconcelos, a trinca de discos "mudos" mais eloqüentes da história do Brasil ditatorial.

   A missa breve repercutiu em introspecção crescente, que elaborou momentos assombrosos de boa música formalista -"Uma Vez um Caso" (76), "Lero-Lero" (78), o LP com Tom Jobim.

   O ápice com Jobim remeteria a outra gigantesca virada: a partir da coalizão com Chico, virou compositor de trilhas sonoras escondido quase sempre por trás de outros intérpretes. Só em 94 voltaria a aparecer como dono único de um disco, agora já em fase independente, de projeção limitada.

   Pequeno mistério da MPB, o porquê da aversão ao estrelato por parte de um de seus mais consistentes astros musicais nos anos 60 talvez estivesse dentro dele próprio, de sua rigidez, intransigência e ojeriza ao "estrangeiro".

   Mas nem isso seria suficiente para uma explicação integral. Um de seus momentos mais meigos e espantosos pode ser encontrado no LP gringo "Sergio Mendes Presents Edu Lobo" (70): uma versão cantarolada, brasileiríssima, quase tropicalista, de "Hey Jude", dos Beatles. Hoje, Caetano e Gil parecem mais Edu que Edu -o primeiro como intérprete formalista de canções em espanhol e inglês, o segundo como político esquerdista. Edu Lobo? Edu Lobo permanece Edu Lobo e nos mantém na contínua espera de suas canções rígidas, belas e aguerridas.

Folha de S. Paulo)

 

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