05-06-2008
XICO SÁ
crítico da Folha
Duas décadas após uma primeira edição esgotada, o mais requintado e
importante livro sobre o poder, a mística e os arredores estéticos do
cangaço, "Guerreiros do Sol: Violência e Banditismo no Nordeste do
Brasil", escrito pelo historiador Frederico Pernambucano de Mello, está
de volta.
O livro desmonta, com pesquisa de calibre, a imagem de um Lampião
romântico ou à Robin Hood, como foi construída pela guerrilha simbólica
da literatura de cordel --veículo que ele mesmo escolheu para dar sangue
épico à sua vida-- e pelo marxismo simplificado e "clicheroso" de alguns
historiadores que fizeram do cangaceiro uma resposta armada às
injustiças dos coronéis. O poder do gado, da cerca e da casa-grande
sertaneja quase sempre abrigaram Virgolino Ferreira (1898-1938) como
hóspede de luxo.
No dizer de Evaldo Cabral de Mello, historiador que escreveu as orelhas
da nova edição, "Guerreiros" é "o mais abrangente e profundo estudo
sobre o cangaceirismo". Lê-se a história contada por Pernambucano de
Mello como a sociologia de Gilberto Freyre (1900-1987), sem os ares da
"leseira" ou do enfado que costumam acompanhar as obras ditas mais
sérias. O próprio Freyre, no prefácio original do livro, explica: "O
autor parece seguir lições aprendidas muito mais com romancistas
ingleses do que com pesquisadores convencionalmente no seu modo de serem
científicos".
O tiro mais certeiro do autor, pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco,
de Recife, é a tese do "escudo ético", que mostra como Lampião e muitos
outros cangaceiros utilizavam o argumento da vingança para exercer a
bandidagem. Como o crime de honra é moralmente bem visto nos sertões, a
desculpa servia para encobrir o cangaceirismo como meio de vida.
Lampião, lembra o autor, nunca chegou a vingar a morte do pai --o
assassinato o teria transformado em um fora-da-lei.
O mais célebre dos cangaceiros amealhou muito ouro. É dele a patente dos
primeiros seqüestros que se tem notícia no Brasil, nos anos 20 do século
passado. Cobrava caro para devolver as vítimas com vida. Como era leitor
de livros e revistas, pode ter copiado o método de bandos estrangeiros.
O "rei vesgo" viveu os seus últimos anos como um burguês tratado a
perfume francês, uísque escocês e toda uma sorte de luxos para a
caatinga. Esses sinais podem ser vistos no filme "Baile Perfumado"
(1997), de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, a quem o autor de "Guerreiros"
guiou nas pesquisas.
O zelo de Lampião com a indumentária, invenção que o credencia como
inventor de moda, é outro aspecto que merece boas linhas. Somente os
samurais, costuma dizer, mantinham a mesma preocupação. No prefácio, o
professor Gilberto de Mello Kujawski compara os bandoleiros da caatinga
aos japoneses descritos por Mishima no seu livro "Sol e Aço". O sol que
modela e disciplina; o aço, da espada e do fuzil brilhante, que faz a
correspondência entre o espírito e o corpo.
Avaliação:

Guerreiros do Sol
Autor: Frederico Pernambucano de Mello
Editora: A Girafa/Massangana
Quanto: R$ 55 (458 págs.)
(© Folha
Online)
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