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Uma música em eterno movimento

05-06-2008

João Gilberto: um baiano chamado Bossa Nova

Princípios da bossa: Vários

Hugo Sukman

   Bossa nova é um baiano chamado João Gilberto que um dia chegou com um violão diferente, tornando o ritmo do samba mais, assim... conciso. Mais sucinto.A definição acima, de palavra em palavra, é de Tom Jobim, numa rápida entrevista para TV, em 1985. Cada uma das 28 raras gravações contidas no CD duplo “Princípios da bossa” (Universal) — compilação organizada pelo crítico musical Tárik de Souza a partir do acervo dos selos Sinter, Capitol, Polydor e Phillips entre 1950 (o nada conhecido samba-canção de Caymmi “Lembrança do passado”, com Dick Farney) e 1962 (a estréia de Nara Leão, em duo com o autor Carlos Lyra no atípico épico antimatrimonial “É tão triste dizer adeus”) — reafirma o que disse Jobim: antes de virar rótulo (ao qual, aliás, ele próprio se recusava), bossa nova era apenas o jeito de João Gilberto cantar e tocar samba, sobretudo na “mão direita” do seu violão e na divisão rítmica de seu vocal. BN é João e quem o imitasse a partir dali.

   Antes, e “Princípios da bossa” é uma aula sobre isso, o ímpeto modernizador da música brasileira nos anos 50 estaria presente na música de gente que teria ou nada teria a ver com a bossa-nova-rótulo da década seguinte. Senão, o que faria Vadico — o velho parceiro de Noel em “Feitiço da Vila” — assinando o moderníssimo arranjo de “O tempo não desfaz”, de Newton Mendonça, cantada por Geni Martins em 1960?

   “O tempo não desfaz” é moderna sem ser bossa nova, ou seja, sem ser João Gilberto. Foi composta pelo jovem Newton Mendonça, que morreria aos 33 anos em 1960, famoso por dois dos maiores clássicos da bossa nova em parceria com Jobim, “Samba de uma nota só” e “Desafinado”, que já brincava com o rótulo nos versos “eu mesmo mentindo devo argumentar/Que isto é bossa nova”. O arranjo é de Vadico, sobrevivente da Era de Ouro de modernistas como Valzinho, Custódio Mesquita, Radamés. O violão, revela Tárik de Souza no alentado encarte, é de Baden Powell, que detonaria a bossa nova clássica com seu violão mais solto e pulsante, e ao trazer-lhe mais elementos negros dali a alguns anos nos afro-sambas. A flauta é do chorão Copinha, o trombone, de Raul de Barros, ás das gafieiras. E o vocal, de Geni, tão moderno (seco, preciso, coloquial) quanto o de uma Sylvia Telles, de uma cantora que largaria a carreira depois de casar. Tudo heterogêneo, nada bossa-novista clássico, mas muito moderno.

   Newton e Tom, aliás, são, juntos ou em outras parcerias, compositores não por acaso muito presentes em “Princípios da bossa”: os dois, tão associados à bossa nova, por idade, gosto e formação, estão na verdade nos seus princípios. Geni Martins (também com arranjo de Vadico) singra o samba-canção “Domingo azul do mar”, da dupla. Agostinho dos Santos, outro cantor moderno e não propriamente bossa-novista, faz o mesmo com o não menos clássico “Foi a noite”.

   A parceria Newton-Tom é quase toda de sambas-canções e, curiosamente, quando é bossa nova mesmo, assume o ar sutil e ironicamente paródico do “Desafinado”. Separados, em suas primeiras gravações Tom e Newton também se ateriam ao formato samba-canção, dando-lhe no entanto certa leveza jovem e riqueza harmônica de pianistas da noite acostumados ao clássico e ao jazz. A compilação traz, para provar, as três primeiras gravações de Tom e Newton, todas de 1953: de Tom e do baterista Juca Stockler, “Faz uma semana”, cantada por Ernani Filho, na época o preferido de Ary Barroso; de Newton e Fernando Lobo, “Você morreu pra mim”, com Dora Lopes, e, da dupla, “Incerteza”, cantada por outro especialista no gênero Mauricy Moura.

   Outra dupla, Lúcio Alves e Dick Farney, cujos jovens músicos reunidos nos seus fã-clubes são, segundo o historiador da bossa nova Ruy Castro, o núcleo que geraria a nova música, está também na compilação dando provas de modernidade. Sobretudo Lúcio, que, de um disco de 1960 chamado sintomaticamente “A bossa é nossa” mostra com sua voz quente e de divisões inventivas, que bossa era a bossa mesmo de Oscar Castro Neves (“Menina feia”), o samba sincopado de Geraldo Jacques e Haroldo Barbosa (o achado “Joãozinho Boa Pinta”) ou um samba-canção moderno de Sérgio Ricardo (“O nosso olhar”), outro que sobrevoaria a bossa nova.

   De freqüentadores dos fã-clubes Sinatra-Farney e Dick Haymes-Lúcio, “Princípios da bossa” traz Johnny Alf, que, acompanhado do violão moderno de Garoto, dá ao piano sua versão cool para “De cigarro em cigarro” (do também modernista Luiz Bonfá), entorta como cantor o samba-canção “Dizem por aí”, vem como compositor em “O que é amar”, em versão boate de Mary Gonçalves. João Donato mostra como o mesmo suingue de seu acordeão (acompanhando o quarteto vocal Os Namorados em “Eu quero um samba”, 1953) migrou para o seu piano, liderando um trio em “Se acaso você chegasse” (1954).

   Das dissonâncias pioneiras dos Cariocas, já em 1951 entortando “Tim tim por tim tim”, ao samba-jazz de Sérgio Mendes esmerilhando ao piano o bolero “Oba-lá-lá” em 1962, uma história é contada em “Princípios da bossa”. João Gilberto, que é o mais célebre filho dos quartetos vocais tipo Cariocas, e de quem Sérgio Mendes pegou o bolero para fazer seu samba-jazz, é o centro dessa história que, no entanto, existia antes dele e existirá para sempre. “Princípios da bossa” mostra que a bossa nova não foi um movimento. É a música brasileira em eterno movimento.

O Globo Online)

 

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