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05-06-2008
Cantador cego e, paradoxalmente, visionário, ele deixou um legado que
vem sendo zelado pelos familiares e agora será resgatado no cinema “Como é que se conta, amém, a história de um moço que ficou cego porque tomou um copo d’água? Que mal pode fazer um copo d’água? Por que eu haveria de cegar por isso apenas? Eu havia pedido água para beber, na casa defronte à nossa: – Dona, me dê água... Quando devolvia o copo com um muito obrigado, senti aquela dor horrível, um arrocho querendo sair da minha cabeça. Meus olhos ficaram logo turvos. Apertavam-se, doíam, como se estivessem cheios de espinhos de cacto. – Meu Deus! Foi o que pude dizer. Até aí ainda enxergava... Mas depois disso, ai meu Deus! Meus olhos se fecharam para sempre. Fiquei completamente cego. Aquela coisa morna, que pingou na minha mão, repetidas vezes, me disseram depois que era sangue. O sangue que descera dos meus olhos estalados pelo destino”. O relato poderia estar em alguma tragédia clássica grega, mas é contada na autobiografia do repentista cearense Aderaldo Ferreira de Araújo, o Cego Aderaldo (Crato, 1878/Quixadá, 1967). O acidente com o copo d’água não aconteceu. Aderaldo perdeu a visão, aos 18 anos, trabalhando numa máquina, em uma ferrovia, e recebeu um jorro de água quente nos olhos. Mas no caso dos mitos, a lenda interessa mais do que a verdade. O Cego Aderaldo sabia lidar com isso, e alimentou a mitologia em torno de si próprio, formando com Lampião, Padre Cícero, Luiz Gonzaga e Antônio Conselheiro a iconografia do épico nordestino. Nos anos 50, o Cego Aderaldo já era um mito consolidado em todo País. Foi recebido e cantou para governadores, presidentes, apresentou-se em programas de TV no Rio e São Paulo. Desafios de viola, deixou de aceitar em 1945. O homem Aderaldo Ferreira Araújo sustentou-se até o final da vida com o que ganhava o mito Cego Aderaldo. LEMBRANÇA – O Cego Aderaldo está onipresente em Quixadá, no Sertão Central do Ceará, onde chegou com menos de um ano de idade e ali viveu até a morte, com 89 anos. A casa onde morou, em uma das ruas principais da cidade, continua como se o cantador estivesse Sertão afora, ganhando a vida com a poesia. Na sala está sua espreguiçadeira, o velho e estranho violinofone (um violino ao qual está acoplada uma campana – boca – de instrumento de sopro, que lhe amplifica o som), uma galeria de fotografias emolduradas. Ao longo do corredor do amplo casarão (no qual criou 26 filhos adotivos), vê-se um caixa com objetos pessoais (cachimbo, amolador de navalha, uma navalha Solingen, sapatos, calçadeira), o último violão usado pelo cantador e, pendurados na parede, o chapéu e a bengala que usou nos últimos anos. A responsável pela conservação da casa é Nair de Oliveira Brito, viúva de Mário (falecido há dez anos), penúltimo filho, adotado, do Cego Aderaldo: “Não cobro nada aos visitantes, para mim é suficiente que as pessoas saibam como ele era”, explica, mostrando mais pertences do sogro: um relógio de algibeira suíço, em braille, ingressos do Cine Beija-Flor e a campainha com a qual o cego avisava que a sessão iria começar. O acervo de filmes mudos, infelizmente, perdeu-se num incêndio num quarto em que eram guardados, com a projetora Pathé, que escapou do fogo, e continua ainda no canto do quarto, chamuscada, mas sem ferrugem. A casa, no entanto, só é aberta para visitação quando dona Nair vem a Quixadá (ela mora em Fortaleza). Na cidade há um Centro Cultural Cego Aderaldo, uma rua com o nome do repentista, e uma estátua, com quase três metros de altura, na entrada da estação rodoviária, inaugurada duas vezes. A primeira foi em 1981. A segunda em 1995, por exigência dos amigos repentistas do Cego Aderaldo, para que lhe fosse colocada um chapéu, peça que o Cego Aderaldo considerava indispensável. (© JC Online) Marqueteiro intuitivo e viciado em tecnologia, assim era mito popular Embora fosse cantador inspirado, e dotado de uma voz que o fazia intérprete de canções populares no Sertão, o Cego Aderaldo não participou das mais célebres pelejas poéticas que lhe são atribuídas. A mais famosa delas, em 1914, com o cantador piauiense Zé Pretinho dos Tucuns. No final, este levou a pior ao não conseguir destravar o trava-línguas que lhe foi imposto pelo ladino cego: “Amigo José Pretinho,/ Eu nem sei o que será/ De você depois da luta/ Você vencido já está/ Quem a paca cara compra/ Paca cara pagará”. A peleja, Zé Pretinho e os versos engenhosos são criações do cordelista piuiense Firmino Teixeira do Amaral, assumidas pelo cego, em sua autobiografia, Eu, o Cego Aderaldo (publicado em 1962), que dona Nair está tentado que seja reeditada.O Cego Aderaldo, além de marqueteiro intuitivo, foi pioneiro em empregar as novas tecnologias, para ganhar a vida no Sertão, como ele próprio narra na sua autobiografia: “Comprei um gramofone, que era novidade em Fortaleza, e munido de disco e agulhas viajei para o Sertão. Havia empregado nesse instrumento cem mil réis, mas com essa pequena fortuna pretendia ganhar pelo menos dez vezes mais... Eu percorria fazendas, cidades e vilas”. Dois anos mais tarde, compraria a projetora Pathé e antigos filmes mudos, que passaria durante anos para matutos extasiados. Se é mesmo verdade do cego, um cangaceiro de nome João 22 atirou nos soldados romanos que maltratavam Cristo numa cena de A Paixão de Cristo, e mandou adiantar a cena porque “não gostava de ver santo sofrer”. (© JC Online) Um talento que varou sertões e solidões vira filme pela mão de Cariry Pela proporções do mito Cego Aderaldo, é de estranhar que ele esteja ausente até agora do cinema nacional. Mas, no ano que vem, esta falha será em parte sanada, se o cineasta cearense Rosemberg Cariry concluir Cine Tapuia, seu próximo filme, que começou a rodar este mês em Quixadá, cidade do cantador. Em parte, porque ele não será uma cinebiografia do famoso violeiro. Cariry se vale das míticas aventuras do cego, mescladas com o romance Iracema, de José de Alencar: “O Cego Aderaldo, e Moacir, o filho de Iracema, são dois mitos fundadores da nacionalidade, da alma brasileira”, acredita Cariry.O cego, no filme, chama-se Araken (vivido pelo cantor e compositor Rodger Rogério) e, como Aderaldo, viaja pelo Sertão, em uma Rural Willys, munido de uma máquina projetora, com o ambulante Cine Tapuia: “Retomo Iracema e o Cego Aderaldo para os dias de hoje, num filme de estrada, um musical com canções de Rogaciano Leite, Ednardo, da cantora Myrla Muniz, até mesmo do próprio Cego Aderaldo, de quem consegui uma gravação cantando uma canção medieval chamada A gargalhada”, continua o cineasta. Para Cariry, o Cego Aderaldo divide-se entre o homem e o arquétipo: “É Tirésias, Homero. Muitos casos, versos famosos atribuídos ao Cego Aderaldo não foram feitos por ele, mas hoje são parte de sua obra. Não tinha no improviso a destreza de um Pinto do Monteiro, mas foi o maior do seu tempo, além disso, tinha uma bela voz, tocava instrumentos, varou sertões e solidões”. (JT) (© JC Online)
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