05-06-2008
Marcio Bredario

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Cena do documentário "Peões",
dirigido por Eduardo Coutinho |
DA REPORTAGEM LOCAL
Os documentários "Peões" e "Entreatos", dirigidos por Eduardo Coutinho e
João Moreira Salles, têm as primeiras
sessões públicas em São Paulo, dentro do Seminário Documentário e Sociedade,
no Espaço Unibanco. Os filmes têm estréia marcada para o próximo dia 26.
"Peões" enfoca pessoas comuns que
participaram das greves do ABC em 1979 e 80; algumas delas conviveram com o
presidente Lula nessa época.
Com seu indefectível estilo, Coutinho refaz através dos depoimentos de cerca
de 20 metalúrgicos, em São Bernardo e no interior do Ceará, a história
recente do país -da organização do movimento sindical à modernização das
empresas, e a conseqüente diminuição dos postos de trabalho.
As entrevistas trazem ainda muito da vida "ordinária" de seus personagens, e
também cenas de manifestações da época.
Já "Entreatos" retrata Lula durante o mês que antecedeu sua vitória na
campanha eleitoral de 2002. Para realizá-lo, o diretor reuniu 240 horas de
gravação.
O filme de Salles mostra Lula em situações cotidianas -em casa, no barbeiro
etc.-, e também em momentos decisivos da campanha -antes do primeiro e do
segundo turnos e no momento em que ele é avisado da vitória.
Durante uma reunião estratégica com a cúpula da campanha, o então futuro
ministro da Casa Civil, José Dirceu, pergunta com desconfiança à câmera: "De
quem é esse pessoal? Do João? Que João?". (TEREZA NOVAES)
PEÕES. Direção: Eduardo Coutinho. Produção: Brasil,
2004.
ENTREATOS. Direção: João Moreira Salles. Produção: Brasil, 2004.
(©
Folha de S. Paulo)
Diários de uma campanha

Mauro Ventura
O cineasta João Moreira Salles achou que estava tudo acabado quando, numa
reunião privada, José Dirceu interrompeu a fala, olhou desconfiado para a
câmera e perguntou: “ Tá gravando isso aí? De quem é esse
pessoal?”. Alguém se apressa em explicar que é a equipe de João Salles, que
está fazendo um documentário sobre a campanha de Lula à Presidência da
República. “Quem é João Salles?”, quer saber o então presidente do PT,
ouvindo de volta que eles são de confiança absoluta. “Não existe confiança
absoluta porque a fita do Lula sobre Pelotas acabou na mão do nosso
inimigo”, retruca, referindo-se a uma brincadeira de bastidores feita em
2000, quando o petista disse que a cidade gaúcha era pólo exportador de
veados. Nem ao ouvir que as fitas são guardadas todo dia num cofre, Dirceu
se dá por satisfeito: “Vai nessa...” Em entrevista para divulgação do filme,
o diretor revelou sua preocupação: “Ali eu pensei que o filme tinha
acabado.”
Ao contrário do que Salles temia, as filmagens puderam continuar. E, ao
contrário do que Dirceu receava, as fitas ficaram ao abrigo do público até
agora. No próximo dia 26, entra em cartaz “Entreatos”, documentário que
acompanha Lula do dia 25 de setembro até o dia da vitória, 27 de outubro de
2002, flagrando momentos de intimidade, instantes de descontração, situações
tensas, reuniões estratégicas e cenas que, vistas agora, soam curiosas. Como
na hora em que Lula revela uma frustração: “Eu nunca aprendi a batucar.” Ao
seu lado, o marqueteiro Duda Mendonça, preso recentemente numa rinha de
galo, exibe talento com as mãos. “De marketing político eu sou uma merda,
mas de briga de galo e batuque...”, brinca, no que é interrompido pelo então
candidato: “É claro. Briga de galo não é você que briga.”
Foram filmadas 240 horas, que o montador Felipe Lacerda reduziu para 1h57m.
Salles e o diretor de fotografia, Walter Carvalho, registraram momentos
públicos — comícios, carreatas, entrevistas coletivas — e situações privadas
— reuniões, camarins, encontros familiares. Mas, na edição final,
privilegiaram as imagens mais reservadas. Parte do material deixado de fora
— as cenas públicas — será incluído num futuro DVD. A última filmagem foi no
dia 28: o telefonema de Bush para seu colega brasileiro. “A cena era ótima,
mas não entrou porque concluiria o filme de modo, digamos, glorioso: o
operário falando com o presidente americano. Preferi terminar de uma forma
mais ambígua, com o Lula sendo engolido pela imprensa”, contou Salles.
Palavrões, brincadeiras e comentários privados
Os bastidores da campanha revelam muito do perfil de Lula. Salles não
esconde a afeição pelo personagem, mas não deixa de fora palavrões,
brincadeiras e comentários privados. Num dado momento, Lula critica com o
atual ministro da Fazenda, Antonio Palocci, as formalidades do cerimonial da
Presidência: “Aqueles militares atrás de mim dando palpite, como dão lá para
o Fernando Henrique Cardoso, me incomoda demais.” Em outro momento, mais
descontraído, Lula diz: “Aquele Palácio ( Alvorada ) é triste
porque Fernando Henrique Cardoso nunca jogou bola. Ele não dança.” O atual
vice-presidente, José Alencar, completa: “Não bebe um gole.”
“Lula é, seguramente, um grande personagem, que a câmera gosta de filmar”,
disse Salles. As filmagens mostram a frustração de Lula em não ter ganho no
primeiro turno, a transformação do petista radical em “Lulinha paz e amor”,
conduzida por Duda, e a irritação com o assédio dos fotógrafos — “Esses
caras andam atrás de mim o dia inteiro, porra”. Não foi fácil acompanhar os
passos do candidato. A presença da equipe era negociada a todo momento, como
explicou o cineasta: “‘Entreatos’ tem uma característica de filme de
guerrilha, sem luz nenhuma, entrando no avião somente com uma câmera e sem
aparelhagem de som, o que explica muitas falas precisarem das legendas para
ajudar na compreensão.”
A mania de Lula com o figurino está presente em várias cenas. “Passei 30
anos na fábrica e não me acostumei de macacão, mas ( bastaram )
três dias de gravata...”. Depois, ele diz: “Contrataram um costureiro
famoso. O cara não acerta uma camisa minha. Todas que fazem não prestam.” Em
seguida, imita os trejeitos de um estilista e brinca: “O cara é chique, o
cara é chique. Eu mando no meu de Jurubatuba e não falha uma.”
Também se vê a apreensão com o novo cargo. “É uma coisa que tá tão
fora da sociologia... Não tava no livro que eu poderia chegar aonde
eu cheguei. (...) O que eu sei é que a partir de segunda-feira começa uma
cobrança para que eu faça tudo que eu falei esses anos todos.” Num dos
momentos mais inesperados, a equipe entrevista, num vôo, um rapaz que Walter
Carvalho imaginava tratar-se de alguém íntimo do candidato, já que estava no
mesmo jatinho. Nada disso. O passageiro estava no aeroporto de Florianópolis
e tinha perdido o avião para Porto Alegre, quando viu Lula e disse: “Deixa
eu te dar um abraço que eu já perdi meu dia e você é a compensação.” Lula,
por sua vez, ofereceu: “Então você vai com a gente.” E lá estava o
desconhecido. Pegando carona no jatinho particular que levava o futuro
presidente do Brasil.
(©
O Globo)
Diretor se inspirou no cinema direto
americano de ‘Primary’
Anna Azevedo
“Entreatos”, de João Moreira Salles, é assumidamente inspirado em “Primary”,
filme que lançou a escola documental americana do cinema direto. Em
“Primary”, a dupla Robert Drew e Richard Leacock segue a última semana da
disputa entre os senadores John Fitzgerald Kennedy e Hubert Humphray pela
vaga de candidato democrata à Casa Branca, em 1960.
Com “Primary”, Drew e Leacock põem em prática este novo jeito de fazer
documentário. Para esta turma (Albert Maysles e D.A. Pennebaker completam o
grupo), o documentário à moda inglesa (cujo grande nome era John Grierson),
com narração em off e em terceira pessoa, trilha sonora e cenas de
estúdio, estava com sua fórmula esgotada. Era preciso recuperar a vitalidade
da imagem, abolir as entrevistas, jamais pedir para que alguma cena fosse
repetida. Em outras palavras: falar menos e observar mais. Sobretudo os
detalhes.
Em mais uma de suas imperdíveis aulas-palestra, na última terça-feira, no
Ateliê de Antropologia e Imagem da Uerj, Salles expressou a influência do
cinema direto no seu modo de filmar. “Entreatos” bebe na fonte de “Primary”
e acompanha os últimos 30 dias da campanha de Lula à Presidência da
República, em 2002, seguindo à risca as regras do cinema direto: nada de
entrevistas e muita observação.
A utopia teórica dos primeiros fiéis do cinema direto queria a câmera como
um objeto praticamente invisível, que não interferisse na realidade. Mesmo
mantendo-se discretos, sem interrogações, Salles e equipe precisaram de uma
série de renegociações para estarem presentes em momentos cruciais para o
filme, à medida em que a campanha avançava.
José Dirceu, contou Salles na Uerj, era o mais desconfiado com a presença da
câmera (isto fica claro no filme). E naquele que seria o clímax do
documentário — Lula recebendo a notícia que fora eleito — não houve
argumento que convencesse o PT a deixar a equipe permanecer nas
proximidades.
Salles recordou que, para sua sorte, a filha de Aluisio Mercadante fazia
parte do seleto grupo que dividiria com Lula aquele instante histórico. A
moça fora sua aluna, e a ela o cineasta confiou a sua câmera: “Ela não tinha
intimidade com filmadoras. Quando a TV anunciou o resultado da boca de urna,
a câmera passeava, sem firmeza, mostrava tudo, menos o que precisávamos, que
era a reação de Lula. Mas no exato momento em que o locutor anuncia Lula
Presidente, eis que o próprio surge diante da lente”.
Estar no calor dos acontecimentos, prestar atenção no que acontece nos
intervalos entre um grande ato e outro, revela muito — ensina o cinema
direto. Salles estava atento a esses meios-tons: “Não à toa, o meu filme
recebeu o nome de ‘Entreatos’”, revelou.
ANNA AZEVEDO é jornalista e cineasta. Cursa o Ateliê de Antropologia e
Imagem da Uerj
(©
O Globo)
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