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05-06-2008
O músico e professor universitário Carlos Sandroni revisita a missão
enviada ao Nordeste, em 1938, pelo escritor Mário de Andrade, e lança
parte da pesquisa em CD Num País onde a amnésia cultural é endêmica, é mais do que oportuno o lançamento de Responde a Roda Outra Vez, um álbum (dois CDs), fruto do projeto coordenado por Carlos Sandroni, professor do Departamento de Música e da Pós-Graduação em Antropologia da UFPE. Sandroni simplesmente retoma os passos da Missão de Pesquisas Folclóricas, enviada ao Nordeste, em 1938, pelo escritor e musicólogo Mário de Andrade, então diretor do Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo. “É uma idéia que me perseguia há tempo, desde quando eu estudava na França. Quando voltei, em 1997, fui para São Paulo e me aprofundei no acervo recolhido pela missão de Mário de Andrade. A pesquisa começou a se intensificar em 2001 e foi possibilitada com uma bolsa da Fundação Vitae e da Petrobras”. Um patrocínio providencial, mas que não foi o suficiente para refazer a missão de 1938 inteiramente. Carlos Sandroni e sua equipe colheram material apenas em Pernambuco e na Paraíba: “E nem fizemos todas as cidades da Paraíba que foram visitadas em 1938”, complementa Sandroni. Passados 66 anos, a nova missão conseguiu reencontrar pessoas que participaram da missão original. Uma dessas foi dona Senhorinha Freire, que tinha então 20 anos e morava em Tacaratu. Hoje, aos 86, ela vive em Jaboatão e continua com a memória afiada, cantando para a equipe Oh Roseira e Vou cortar capim (esta última, no acervo da missão paulistana catalogada como Canção de casa de farinha): “Graças a ela, estas músicas foram preservadas, de outra forma teriam sido perdidas, como muitas outras”, comenta o professor Sandroni. Curiosamente, algumas das músicas do repertório já são conhecidas por tocar no rádio, gravadas por cantores populares. Oh Lia, oh Lia, um coco, colhido na comunidade do sítio Olho d’Água do Bruno, tem os seguintes versos: “...Namora pai, namora mãe, namora filha/ Eu também sou da família, também quero namorar”. Com o verbo “namorar” modificado para “cutucar”, eles estão na abertura do seriado global A Grande Família, cantados por Zeca Pagodinho: “Isto é bastante comum, porém fica difícil saber quem pegou de quem”, diz Carlos Sandroni. O repertório dos dois CDs é uma pequena parte do que foi recolhido por Sandroni e sua equipe nos dois Estados. Eles têm 25 horas de gravações, que poderão ser aproveitadas em outros discos. Independente disto, o material está sendo organizado e será colocado à disposição de pesquisadores no Núcleo de Etnomusicologia da UFPE. Da tiragem de três mil CDs, dois mil serão distribuídos por bibliotecas públicas, colégios e universidades. O lançamento de Responde a Roda Outra Vez (Música tradcional de Pernambuco e da Praíba no Trajeto da Missão de 1938), título completo do álbum, acontece hoje, a partir das 20h, na Torre de Malakoff, com particiapção de alguns dos grupos que contribuíram para a pesquisa, exposição de fotografia, vídeos. A entrada é gratuita. (© JC Online) Pesquisa ratifica riqueza musical do Nordeste “Responder a roda”, em Pernambuco e na Paraíba, significa responder um refrão, como acontece no coco-de-roda, por exemplo. Arresponde a roda, aliás, é a primeira faixa do CD 1, gravada em Tacaratu, no Sertão de Pernambuco. Este trabalho da equipe do professor Carlos Sandroni, assim como o da missão de Mário de Andrade, em 1938, prova que no Nordeste se “arresponde” a roda de muito mais maneiras do que imaginam os leigos. Compreende desde ancestrais cantos dos índios Pancararu a cancioneiros de repentistas, reisados, coco-de-tebei (em que os pés marcam o compasso, batendo forte no chão), emboladas, rojões. A proliferação das FMs e parabólicas nas cidades do interior valoriza ainda mais a importância de trabalhos como este. Do litoral ao Sertão, impera a monocultura sonora. A música que se escuta a todo momento, nas ruas, nos carros, nos bares, em festas, é a de Limão com Mel, Aviões do Forró, grupos de lambadas estilizadas, que se dizem de forró (um equívoco semelhante ao de chamar de gospel as baladas evangélicas). A grande maioria das músicas preservadas neste projeto é cantada por pessoas idosas, como dona Mariquinha e dona Pastora, cantadeiras de Jornada de São Gonçalo, ou seu Biu Saloia, “informante número 319”, da Missão de Pesquisas Folclóricas de Mário de Andrade, descoberto por Mariz Ignez Ayala e Marcos Ayala (da equipe de Carlos Sandroni), na mesma localidade de Barca da Torrelândia, Paraíba, onde fora gravado em 1938, pelos paulistanos enviados pelo autor de Macunaíma. O material recolhido vai do sacro (benditos) a forrós, bandas de pífanos, ou cabaçais, e samba de matuto (uma das fontes que originou o forró), como o instrumetal O samba, executado pela Banda de Pífanos de Umburana (distrito de Sertânia, PE), congadas. Alguns dos músicos que gravaram para estes discos são verdadeiros arquivos vivos, feito , o paraibano Seu Eduardo, nascido em 1929, e dono de uma memória privilegiada, capaz de repetir jornadas da marujada (nau catarineta), ou um cordel inteiro, caso de O navio brasileiro, de autor desconhecido, uma das três faixas que ele canta neste álbum. INSTRUMENTOS – Importante também é que a pesquisa mostra a variedade de instrumentos utilizados pelos músicos, como o adufe, o cabo de tatu (apito confeccionado com o rabo do animal), tamancos (usados nos grupos de coco), e maracás, estes tocados pela banda cabaçal de Triunfo, Alto Sertão pernambucano. (© JC Online)
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