05-06-2008
Ana Ottoni/ Folha
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Ninguém toca nos lábios de Gal: marca
registrada da cantora, só ela consegue, batom na mão, acertar os
contornos de sua boca |
MÔNICA BERGAMO
"O seu pai tomou o lotação para
o inferno." Aos sete anos, era essa a explicação que Gal ouvia de uma de
suas primas ao perguntar onde estava o pai, Arnaldo Burgos, que ela nunca
conheceu. "Eu vivia perguntando aos médicos de minha avó: "Você quer ser o
meu pai? Você quer ser o meu pai?". Até para um mendigo da rua em que
morava, em Salvador, eu fiz esse pedido", conta Gal. Sorrindo ao se
relembrar menina. Sem concessões à melancolia. Sem mágoas.
Gal, 59, está escrevendo uma biografia. O pai ocupará um dos capítulos,
dividindo espaço com a mãe, Mariah Costa Penna, "uma companheira
fabulosa", e com personagens como Chico Buarque, Caetano Veloso e João
Gilberto.
Os pais de Gal já eram casados, sem filhos, quando a mãe dela descobriu
que ele tinha duas crianças com uma outra mulher. Resolveram se separar.
No dia do encontro para assinar a papelada...aconteceu a Gal. Mas o pai da
cantora já estava vivendo com a outra família. Os dois nunca se viram.
"Um dia uma prima me chamou na rua: "Gal, vem ver seu pai". Eu corri e vi
um homem gordo, de terno de linho branco, levando uma criança pela mão. É
a única lembrança que tenho". Quando Arnaldo morreu, ela tinha 14 anos. Os
irmãos a procuraram para ir ao velório. Gal não quis. Anos depois, os
irmãos passaram a conviver com ela.
Gal está emergindo de um período de reclusão, em que interrompeu contato
com o público. Voltou a fazer show este ano, "Todas as Coisas e Eu",
depois de cinco sem se apresentar em espetáculos abertos no Brasil.
Emagreceu 11 quilos. Está deixando Salvador para morar em São Paulo. E por
que não o Rio?
"Eu desço no aeroporto, em SP, e já tem alguém para me dizer uma coisa
legal, me abraçar. No Rio só tem estrela", brinca. "A pessoa fala "olha lá
a Gal", mas finge que não te vê. E paulista é muito sério. Eu tenho esse
traço." Por enquanto Gal está hospedada no L'Hotel, na alameda Campinas.
Ela já visitou apartamentos em Higienópolis, na Vila Nova Conceição e no
Morumbi. Ainda não decidiu onde vai se instalar.
"Higienópolis é o bairro dos artistas, né? A Marília [Pêra] me indicou um
apartamento lá." Ela prefere uma casa, por causa de seus quatro cães
rottweiler. "Eu trato cachorro como gente. São os filhos que não tive."
Gal não fala dos amores que viveu, e vive. Admite que já namorou Gil,
"porque ele já andou falando por aí. Mas isso foi há anos". Ela preserva a
vida pessoal e essa "é a regra" para quem quer estar a seu lado. Gal,
ainda assim, não é uma esfinge como Chico, nem uma "diva inacessível" como
Maria Bethânia. Não tem rasgos de genialidade como Gil e Caetano.
Cheia de charme e glamour no palco, "a maior cantora do Brasil", como já
lhe disse João Gilberto, é o que se pode chamar de "gente como a gente"
quando desce dele. "Eu sou fácil. Eu sou facílima", diz ela. A cantora não
tem grandes manias. Não briga com os músicos (Bethânia briga). Não toma
muitos cuidados com a voz (Bethânia toma uísque para aquecer a garganta).
Chico Buarque toma meio Lexotan antes de encarar o público. Na
quarta-feira, dia em que se apresentou para um show fechado em SP, Gal
trocou de roupa meia hora antes, não se concentrou e ainda bateu papo até
a hora de entrar no palco.

Depois do show, admitiu que leu, numa "cola", a letra de "Sampa" (Roberto
Carlos "cola" até quando canta "Detalhes", mas faz de tudo para
disfarçar). Quer provocar Gal? O que se arranca dela é o silêncio.
Quem são as três melhores cantoras jovens do país? "Zelia Duncan, Jussara
Silveira...". Pausa. "E a Maria Rita. Só que canta muito igual à mãe."
Elis Regina sempre afirmava que "Gal é a maior cantora do país -depois de
mim." É o que a própria Gal conta, sem opinar. "Sou uma das maiores. Mas
os outros é quem tem que reconhecer isso em mim."
(© Folha de S. Paulo)
BASTIDOR
O "pipi" da Globeleza
Pensa que é fácil pintar o corpo
todo da mulata Globeleza, aquela que faz parte das vinhetas do Carnaval da
TV Globo? Pois são necessárias 20 horas para riscar os desenhos no corpo
dela, passar tinta e depois a purpurina. E a Globeleza tem que ficar deitada
o tempo todo. Nem ao banheiro pode ir, para não ser vista pelada nos
corredores da emissora. Tadashi Harada, maquiador de Gal Costa, que já
"assinou" as pinturas da Globeleza, diz que, quando a situação complica ela
faz xixi num copinho.
O japonês Tadashi, que atende estrelas globais e mal fala português, é um
dos poucos que fazem a maquiagem de Gal. Ele só não pode mexer na boca da
cantora, sua marca registrada.

A grande figura dos bastidores de Gal, no entanto, é Amin Khader, secretário
da cantora. Aos 14 anos, fã de Gal, ele juntava um grupo de amigos e ia até
a casa dela, no Rio, fazer cantorias. Isso to-dos os dias. Batia ponto
também no teatro Tereza Raquel, onde Gal se apresentava. Acabou sendo
escalado para colar cartazes de shows de Caetano e arrumou emprego com o
empresário Guilherme Araújo, que o colocou para cuidar de Gal. "Hoje ele me
vê pelada", ri a cantora.
Amin é anjo da guarda de Gal, mas faz "free-lancer" para outras estrelas. Já
trabalhou com Xuxa, Caetano e Gilberto Gil.
A maior loucura que ele já viveu foi quando Fred Mercury, do "Queen", veio
ao Rock In Rio, em 1985. "Ele tinha que atravessar um corredor onde ficavam
os camarins de Ney Matogrosso, Elba Ramalho e Erasmo Carlos para chegar ao
dele. Quando viu isso, perguntou: "Quem são esses?" Eu disse: "São artistas
tão gabaritados quanto você.'" Mercury reagiu: "Pode tirar todos do corredor
ou vou embora."
Amin começou a gritar, desesperado: "Gente, me ajuda. Ney, sai do corredor,
Elba, Erasmo, pelo amor de Deus." E Elba: "Oxente, eu queria ver esse homem
[Mercury] de perto." E Ney, irritado: "Olha, Amin, o Rock In Rio só dura dez
dias, viu?". Erasmo salvou Amin: "A gente sai do corredor em troca de duas
garrafas de uísque."
Quando Fred Mercury estava passando no corredor, todos gritaram, em coro:
"Bicha! Bicha!". E Amin, sorrindo para Mercury: "Estão te elogiando!". O
tradutor falou a verdade ao cantor, que chegou a seu camarim -e quebrou
absolutamente tudo o que viu pela frente.
(© Folha de S. Paulo)
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