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Coletivo, hoje e sempre

05-06-2008

Guita Charifker

OLÍVIA MINDÊLO

   “Uma andorinha só não faz verão” é um ditado clichê, mas se aplica bem à experiência do Ateliê Coletivo de Olinda, nos anos de 1989 a 1994. A frase poderia, claro, ter relação com outro tipo de atividade conjunta e os demais exemplos de grupos que se reuniam (ou se reúnem) para fazer arte – e não foram poucos por aqui. Porém, considerando o naipe e a mentalidade dos que faziam parte da ‘empreitada’, o ateliê da Rua de São Bento, na Cidade Alta, não só foi a concretização do ditado, mas uma prova simbólica de que a coletividade na arte não só é uma saída, mas uma filosofia de vida pela qual todos os artistas plásticos deveriam passar. Por este e outros motivos, o Ateliê Coletivo é o homenageado do Olinda Arte em Toda Parte, que tem início na quinta-feira.

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Comunhão pela arte ainda persiste

Infográfico
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Trabalhar em grupo como forma de aliviar o enclausuramento próprio do artista foi a fórmula encontrada pelo Ateliê Coletivo e que vem funcionando até hoje

   A reunião, num só lugar, de artistas plásticos como Guita Charifker, Gilvan Samico, José Cláudio, Luciano Pinheiro, Giuseppe Baccaro, Eduardo Araújo, Gil Vicente e José de Barros (este, já falecido), fez do Ateliê Coletivo de Olinda um ambiente artístico especial. Não apenas por concentrar nomes que já tinham o trabalho reconhecido, e sim pela afinidade de um time que travava entre si uma relação-modelo de amizade e respeito, na qual competitividade e lucro eram vocábulos inexistentes.

   “O Ateliê foi, claro, uma forma de defesa, porque passávamos por um período difícil de visibilidade no País, mas a venda e o sucesso nunca foram prioridade. Apenas uma conseqüência”, atesta Luciano Pinheiro, hoje uma espécie de porta-voz do grupo e grande defensor da arte coletiva. A filosofia consistia em viver a arte numa total harmonia conjunta, construída em reuniões cotidianas feitas pelos artistas para pintar e trocar idéias, como numa sociedade de trabalho ideal.

   “Trabalhar coletivamente alivia a mente do artista, que já vive num mundo enclausurado e isolado. Se outros artistas se juntam, porque não os artistas plásticos?”, defende Baccaro, italiano radicado em Olinda e responsável por ceder a própria casa para o funcionamento do Ateliê Coletivo. O local vai abrigar, inclusive, durante o Olinda Arte em Toda a Parte, uma exposição especial com telas de cada um deles. Embora acredite, como a maioria do grupo, que a experiência em comunhão deva ser algo passageiro, Baccaro é um dos mais nostálgicos quando o assunto é relembrar o cotidiano do Ateliê, que completaria agora 15 anos. “Estou há mais de dois meses sem pintar. Produzir em conjunto é muito melhor”, reconhece o pintor.

   Não só o espírito de comunhão fez do Ateliê Coletivo um exemplo memorável em Olinda. O fato de os artistas pintarem com as portas abertas é outra referência marcante. Ao ter contribuído para criar uma cultura de visitação aos ateliês, aproximando e desmistificando a figura e o ofício do artista, o Ateliê simboliza a própria essência do Olinda Arte em Toda a Parte - evento inspirado justamente na prática. “Se não abrirmos as portas, nada acontece. Deixemos entrar tudo, das coisas ruins a gente se defende e as boas a gente aproveita”, argumenta Luciano.

   É importante ressaltar que a experiência da Rua de São Bento, onde fica a casa, não foi única. Pelo contrário, a maioria das pessoas do grupo já havia participado de atividades conjuntas, que na verdade acompanham a chegada dos artistas, ainda na década de 60, à Cidade Alta, quando passaram a conviver diariamente pelas ladeiras do sítio histórico. O próprio nome ‘Ateliê Coletivo’ é uma homenagem ao Atelier Coletivo da Sociedade Moderna do Recife, que funcionou entre os anos de 1952 e 1957. Do Atelier fizeram parte, inclusive, Samico, Guita e José Cláudio, além de, entre outros, Abelardo da Hora, um dos fundadores do espaço, tão importante para a construção da identidade artística brasileira. (O.M.)

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Viagens em grupo resultaram num resgate à paisagem

   Diferente do Atelier Coletivo do Recife (1952-1957) e de outras vivências comunitárias de arte, incluindo também as escolas internacionais, o Ateliê Coletivo de Olinda não apontou nenhum movimento estético, tampouco girou em torno de técnicas específicas e homogêneas de pintura. A descontração e a liberdade criativa eram o elo entre os oito artistas. No entanto, um dado curioso pode ser observado nos seis anos de atividades do grupo: o gosto por viagens.

   Conscientemente ou não, a prática de ir a praias e cidades do interior do Estado para pintar acabou resultando num estilo comum do grupo, no caso, a paisagem natural como um motivo recorrente das obras produzidas na época. Mas é bom fazer a ressalva de que não podemos tomar isso como uma ‘escola’ tal qual foi o Impressionismo, numa comparação exagerada, por exemplo. Pintar paisagens virou marca do grupo não por uma opção estética, mas por hobby de criar e estudar possibilidades em conjunto. Diante da cena, cada um, a seu modo e traço, contruía ou desfazia o objeto retratado.

   Obras interessantes saíram das mãos dos artistas durante as andanças pelo Estado, prática essa que exigia uma boa disposição e amor à arte para transportar as telas, os pincéis, as tintas e os outros materiais indispensáveis ao ofício. Até mesmo os que não tinham tanto costume nem interesse pela paisagem, como é o caso de Luciano Pinheiro, por exemplo, se envolveram com o exercício. Os quadros viraram até tema de exposições no Brasil e no exterior.

   A escolha, por outro lado, também rendeu duras críticas aos artistas, tachados de estarem retrocedendo esteticamente. Vencedor de prêmios importantes do País como pintor de vanguarda, Luciano Pinheiro foi um dos que sofreu a desaprovação. “Foi um ato de coragem. Tem gente que acha que eu regredi, mas não. Agradeço ter tido tudo isso. É muito gratificante dividir o espaço com quem a gente gosta”, conta Pinheiro, que aprendeu a fazer xilogravura com Samico, no Ateliê.

   Um dos que mais sente falta das viagens a trabalho é Baccaro. “Era muito alegre, um incentivo. Sinto saudades”, lembra. Apesar de todo o grupo não se reunir ‘oficialmente’ como antes, Guita, Luciano, Baccaro e Zé Cláudio costumam pintar juntos todas as quintas-feiras, numa tentativa de manter vivo o espírito coletivo que sempre os uniu. (O.M.)

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