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Sem medo de riscos

05-06-2008

Dalton Valério
Lenine em Paris, em abril deste ano
 

Lenine ousa ao apostar em repertório de inéditas em CD e DVD gravados ao vivo em Paris

João Bernardo Caldeira

   Levou mais de duas décadas de carreira para o cantor Lenine lançar seu primeiro disco ao vivo, Lenine in Cité (BMG), disponível também em DVD. Depois de anos de estrada, é comum artistas, gravadoras e projetos de canais de TV faturarem em cima de álbuns gravados no palco com músicas já conhecidas e aprovadas pelo público. No caso de Lenine é diferente. Convidado pela Cité de La Musique para realizar um show em abril, na sede da instituição francesa, em Paris, o cantor decidiu convocar músicos com quem nunca havia trabalhado e selecionar um repertório praticamente novo. Nome de ponta da safra da MPB dos anos 90 – de gente como Nação Zumbi, Arnaldo Antunes e Zeca Baleiro, que seguem fundindo rock, efeitos eletrônicos e ritmos brasileiros –, Lenine se mantém atraído pelo inesperado, pela busca de novos caminhos.

   – Adoro o risco, sou viciado e dependo dele. Acho que meu público já conta com isso. Foi assim que construí minha trajetória. Isso me dá uma liberdade bacana de poder fazer o que me der na telha. Um produto como este é um bom exemplo. Ele vai na contramão do que a gente está vivendo no Brasil. Não sei o que acontece com os outros artistas – conta Lenine.

   Entre as sete novas canções, em comum há a inspiração na figura do trovador, sobre cujo passado o cantor estudou e se aprofundou em suas viagens à Europa.

   – O travador é um personagem histórico, que dá seu depoimento sobre o aqui e o agora. É o protojornalista, a internet da época – diz.

   As músicas de letras descritivas ganharam corpo pelas mãos de Lenine (violão e voz), da baixista cubana Yusa e do percussionista argentino de coração baiano radicado no Brasil Ramiro Musotto.

   – Na junção desse trio pan-americano houve essa conotação de que existe uma afinidade entre nós. Sou um dos que acreditam na aproximação dessa identidade latina – afirma o cantor pernambucano, de 45 anos, frisando que 26 deles foram vividos no Rio.

   Na escolha da banda, na trajetória de misturas de ritmos e estilos, o compositor faz questão de se alimentar da diversidade, característica tão própria da cultura brasileira:

   – Eu parto do princípio de que tudo que temos foi importado. A gente não tem nada realmente nosso. Fomos muito promíscuos na formação desta raça. Você fala em Brasil e ele é mestiço e tem auto-estima. Isso não acontece em canto nenhum do mundo. Eu sou mestiço e minha música também é mestiça.

JB Online)


Ele mantém a forma e lapida o conteúdo

Tárik de Souza

   Como Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo Carioca, Juninho Pernambucano, Diego Santista (liberem o Robinho!), Kaká Paulista e (muitos) outros menos votados, nosso melhor futebol hoje joga no exterior. Com a música popular não é diferente. O mercadão industrial local só está aberto aos volantes, alas e cabeças de bagre, digo de área. Não por acaso, o craque pernambucano Lenine desenvolve uma carreira paralela na França, onde tem ótima recepção crítica (como aqui) e também boas vendas e tapete vermelho empresarial.

   Desde o lançamento de Olho de peixe, marco eletrizante de sua maturidade autoral gravado em 1993, em parceria com o percussionista carioca Marcos Suzano, Lenine transita livremente no mercado francês (e também no japonês e até no cubano). Seu primeiro registro ao vivo, Lenine in Cité, sai agora em CD e daqui a duas semanas em DVD pelo selo Casa Nove, da produtora do compositor. Foi gravado dentro da série Carte blanche, da prestigiosa Cité de La Musique, sede sonora parisiense do projeto que homenageará o Brasil em 2005.

   Situada no terreno do antigo matadouro da capital, de amplos espaços e arquitetura arrojada (grife do badalado Christian de Porzamparc), a Cité não é território desconhecido para Lenine. Em 1999, ele foi o convidado de Caetano Veloso, o único outro brasileiro premiado com o Carte Blanche (''carta branca'', um show onde o artista dita as regras) e no ano seguinte voltou para mostrar seu Na pressão, no Grand Halle, a sala nobre do complexo cultural.

   No novo show, exibido dias 29 e 30 de abril deste ano, Lenine condensou no violão midi (cujo sistema permite linkar sons armazenados) a conexão eletrônica & Mpop do B que caracterizou seus principais discos. O projeto coletivo do anterior, Falange canibal (onde atuavam do Skank e Vulgue Tostoi a Kassin, Eumir Deodato, Frejat e o jazzista Steve Turre), foi sumarizado no baixo e voz da cubana Yusa e a percussão do argentino radicado aqui, Ramiro Musotto.

    No repertório há saborosas recriações de Caribenha nação e Tuareg e nagô de Olho de peixe (1993); O marco marciano, de O dia em que faremos contato (1997); Relampiano, de Na pressão (1999); e Rosebud (O verbo e a verba), de Falange canibal (2002).

   Já o samba alterado Virou areia, inédito na voz dele, antes foi gravado apenas pelo grupo Batacotô, em 1993, e pela cantora americana Dionne Warwick, em 1995. Atestado de vitalidade do compositor/ intérprete de Baque solto, duo com o parceiro Lula Queiroga no longínquo 1983, In Cité não compõe um almanaque de nostalgias de um veterano de mais de 20 anos de carreira. As sete inéditas entre as 12 faixas transpiram inovação e capturam logo o ouvido.

   O agalopado Do it concita à ação (''se sujou, cai fora/ se dá pé, namora/ tá doendo, chora/ tá caindo, escora''), enquanto o xote funkiado Ninguém faz idéia (ambas parcerias com Ivo Santos) empilha uma multidão em suspense (''malucos e donas-de-casa/ vocês aí na porta do bar/ os cães sem dono, os boiadeiros/ as putas e os babalaorixás/ ninguém faz idéia de quem vem lá'').

   A associação com Lula Queiroga e mais Arnaldo Antunes ressurge na intensa Sentimental. Em Anna e eu (com Dudu Falcão), há uma curiosa evocação da cadência de marcha rancho. Com Carlos Rennó, Lenine divide a filosófica e bela Vivo (''falível, transitório, transitivo/ efêmero, fugar e passageiro/ eis aqui um vivo'') e o clássico instantâneo Todas elas juntas num só ser, uma espécie de embolada/funk cuja letra ocupa duas páginas do encarte.

   Alista algumas das principais musas da música popular e outras artes. Amostras? ''Michelle, ma belle'', de Paul Mc Cartney, e ''Iaiá'', de Zeca Pagodinho. ''Rosa'', de Pixinguinha, ''Kátia Flávia'', de Fausto Fawcett, e ''Ana Julia'', do Los Hermanos, ''Dora'', ''Doralice'', ''Marina'' e a ''morena de Itapoã'', de Caymmi. ''Uma brasileira'', de (Carlinhos) Brown e Herbert (Vianna), e ''pérola negra'', de Luiz Melodia.

   Mais? ''Laura'', de (Johnny) Mercer, e ''Laura'', de Braguinha, ''Lôra'', de Gabriel O Pensador. A ''divina dama'', de Cartola, ''honey baby'', de Waly Salomão, e ''Angie'', do stone Mick Jagger. É quase como musicar o catálogo telefônico. Prova de fogo. Prova de fôlego. Lenine mantém a forma. E lapida o conteúdo.

JB Online)


Foco nas composições
Divulgação

 Ramiro Musotto, Lenine e Yusa gravaram o disco 'Lenine in Cité', de sonoridade semi-acústica, tocando violão, percussão e baixo

   Lenine recebeu o convite para a apresentação na Cité de La Musique há dois anos, como parte do projeto Carte Blanche, através do qual o artista tem carta branca para se apresentar com o formato que desejar. O primeiro brasileiro a participar do evento foi Caetano Veloso, em 1999, que chamou justamente Lenine como convidado. Livre para fazer o que quisesse, o autor de Hoje eu quero sair só, Paciência e O silêncio das estrelas encarou a tarefa com o mesmo espírito de quando grava um novo trabalho, e não como se fosse apenas mais um show:

   - A idéia era fazer uma coisa única mesmo. O CD sempre foi para mim um grande laboratório, o momento de trazer pessoas que admiro para fazer algum som. E nesse disco não foi diferente. Chamei então a Yusa e o Ramiro, músicos que nunca tinham tocado juntos e que nunca vão se encontrar novamente.

   O formato cru de Lenine in Cité - voz, violão, baixo e percussão - remonta ao disco Olho de peixe (1993), admite Lenine, que em seus três trabalhos seguintes iniciaria uma fusão com guitarras e eletrônica.

   - Desta vez optei por botar o foco na canção, no semi-acústico, para, inclusive, reafirmar minha condição de compositor - explica ele, que já vendeu cerca de 200 mil cópias ao longo de sua carreira.

   Mas isso não significa que o cantor esteja abandonando o uso da tecnologia e seguindo a moda dos que hoje descartam ferramentas indispensáveis em discos anteriores.

   - Não tem volta. Todo mundo de alguma maneira chega à eletrônica - sentencia.

   Com a mixagem do CD, feita por Tom Capone - no último trabalho do produtor morto em um acidente recentemente -, os efeitos estão presentes, embora pouco perceptíveis.

   - Eu usei de uma outra maneira, bem sutil. Meu violão midi me dá mil ferramentas. A mão do Tom nessa direção é muito clara no CD, diferentemente do DVD, cujo som acompanha a imagem.

   O pernambucano-carioca diz que já está ensaiando as músicas do disco com sua banda, e não com a dupla que gravou o CD. Uma turnê está prevista para março, quando sua habitual sonoridade mais robusta estará de volta.

   - O grande lance é saber combinar os elementos. E realmente acho que o que eu faço melhor é dosar essas coisas, intuir que aquilo com isso vai dar um caldo.

   Nos anos 80, o mainstream era dominado pelo rock (made in Brazil ou internacional) e as rádios tocavam músicas em inglês cujos LPs lideravam o ranking de vendas. Lenine aparece com os anos 90, ao lado daqueles que buscavam ritmos tradicionais (maracatu, baião, samba, coco...) fundido-os com a música pop contemporânea. E por que coube justamente à geração do cantor resgatar essa brasilidade?

   - Isso coincide com o fato de o mundo começar a falar de globalização. Ao mesmo tempo, naquele momento houve uma resposta do que inventaram chamar de world music, que começou a deixar o gueto. A música brasileira está bem na foto lá fora porque ela vem sempre de braços dados com cinema, literatura, poesia, artes plásticas e as fusões. Quanto mais viajo, mais vejo que essa profundidade não existe em lugar nenhum do mundo.

JB Online)

 

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