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Um jeito Olinda de ser

05-06-2008

Obra do artista Paulo Francisco
 
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Começa hoje o Olinda Arte em Toda Parte, evento que consegue reproduzir em laboratório o espírito que a Cidade Patrimônio vem perdendo

FLÁVIA DE GUSMÃO

   Começa hoje, no Sítio Histórico, o projeto que, nos últimos quatro anos, mais conseguiu traduzir a alma da Cidade Patrimônio – o Olinda Arte em Toda a Parte. Nesse evento, que dura dez dias, ateliês se abrem para todo tipo de arte, pedestres se cruzam nas ladeiras, do início da tarde até a noite, para visitá-los e também aos museus e igrejas. Portas fechadas são quase proibidas. O clima é de uma cordialidade que em nada lembra o espírito predador do Carnaval. Respira-se despojamento, camaradagem e criatividade – pilares daquilo que se convencionou chamar de “um jeito Olinda de ser” e que, mais tarde, foi batizado por Fábio Trummer, da banda Eddie, olindense desde o início dos seus trinta e poucos anos, como Olinda Original Style.

   “Atualmente, Olinda não é mais visitada em seus horários mais propícios, a partir da tardinha, porque todas as portas estão fechadas”, considera Trummer. “Falta política pública de cultura. Nesse aspecto, o mundo andou e eles ficaram parados”, diz. Muitos, além de Trummer, são os que têm o direito de radiografar esse estilo tão original. Pessoas que passaram suas vidas naquele arruado e conseguem percebê-lo em todos os seus trejeitos. Um deslumbrante conjunto arquitetônico combalido por anos em que se misturaram efervescência cultural, lançamento de tendências, sitiamento, abandono, cada um por si e tentativas sucessivas de soerguimento. “A Olinda cultural é uma cidade que nasce aqui em cima e morre no começo do Bairro Novo. É muito fácil cuidar de área tão pequena”, diz o jornalista Edgard Homem que, ao lado do irmão, o músico Rogerman, da banda Bonsucesso Samba Clube, contabilizam 20 anos divididos entre várias ruas.

   O sucesso do Olinda Arte em Toda Parte está, justamente, em ressuscitar, embora em laboratório, um espírito plenamente vivido no início dos anos 80, quando pensava-se ser possível viver “de um outro jeito”. Se Olinda tivesse conseguido manter essa simplicidade, sem confundi-la com inoperância, com o espírito empreendor que permitisse unir turismo e cultura, se não tivesse medo do que o dinheiro pode proporcionar e do que ele exige para isso, teria a medida ideal”, teoriza Edgard Homem.

   Opinião que encontra eco em Rogerman, que ainda se lembra do tempo que que a Cidade Alta era guarida para artistas como Alceu, Elba e muitos mais, vácuo que só voltou a ser preenchido com o manguebeat. “A cidade, durante um tempo, virou um cemitério”, assegura. “Não dá para contar com apenas um ou dois eventos culturais por ano”, defende, “desse jeito tudo o que se consegue é causar aglomeração e não criar a consciência de cidadão que zela pelo que tem”, acredita.

   Longe de querer abdicar dos signos que fizeram – e ainda mantêm – a fama de Olinda como um lugar ‘diferente’, mais zen e relax, a DJ Lala K quer, sim, manter seu visual de quem vai ali comer uma tapioca, mas não deseja, absolutamente, que isso seja estigmatizado como improviso e falta de profissionalismo. “Já é hora de dar um basta em tratar o Sítio Histórico como palco para improvisações. É para cá que convergem os olhos do mundo e os recursos para mantê-lo como Patrimônio da Humanidade. A cultura tem papel fundamental nisso. Uma boa grade de eventos, com organização, segurança e responsabilidade, é a única saída para reviver Olinda”, opina.

   “O povo daqui é bom demais, amigo da arte e da cultura, mas falta disciplina em Olinda”, diz o Véio, há 25 anos dono da bodega mais famosa das redondezas. E se não há, ele põe: “Na minha porta não pode colocar som alto, falar aos gritos, fumar maconha, cheirar loló ou fazer xixi no muro”. Ainda assim, é no Véio para onde migram todos os malucos-beleza, gringos, artistas, donas de casa e passantes vários, que sempre deram a Olinda um estilo incomparável.

JC Online)


Painel gigante celebra a arte coletiva e entra na lista dos recordes

   A tradição olindense para as artes plásticas abre alas nesta edição do Arte em Toda a Parte para outros talentos que venham a surgir. É que no Mercado Eufrásio Barbosa, no Varadouro, estará à ‘disposição’, a partir de hoje à noite, um enorme painel em branco com 400 metros de extensão por dois de altura.

   A tela é a grande novidade do evento e foi idealizada não só para celebrar o clima de harmonia artística da cidade, mas para entrar no Guinness Book brasileiro, o Ranking Brasil, como a maior pintura do País. O painel terá a primeira pincelada da prefeita Luciana Santos hoje, mas contará com as mãos de vários artistas, além do público, que pode pintar no local a partir das 9h, até o dia 5/12, quando termina o evento.

JC Online)

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